jueves, 29 de diciembre de 2005

Fugindo da bancarrota...

Chamem o FMI. A situação está séria. Não, não é como México em 1982 ou 1994, nem Rússia em 1998 ou Argentina em... enfim, melhor evitar polêmicas. Mas é que responsabilidade fiscal é um princípio muito mais premente na vida de pobres indivíduos mortais do que no mundo surreal da esfera estatal. E, ainda assim, é difícil cumprir...

Sim, estou declarando default. Mas não é um default irresponsável. Tampouco irrestrito. Não. Eu tenho princípios! Talvez sequer pudesse chamá-lo default. Rolagem de dívida, renegociação ou qualquer outro termo menos traumático. Mas se eu por acaso tenho alguma dívida com você, não se preocupe: se ainda não entrei em contato com você ou seu representante, você não está incluído na exclusiva lista dos que receberão o calote. Pelo menos, não por enquanto. O fato é: I cannot make ends meet... Portanto, reajuste estrutural já! Na prática: voltar para a cozinha! Pobre Michelle - ou perde a companhia de almoço ou vai ter que vir comer aqui em casa. Mas tem que ser assim.

A outra opção seria cortar minhas sessões de cinema. Imaginem só! Não, não é uma possibilidade.

Poderia cortar ainda a academia - bem, isso não é uma opção tão ruim. Na realidade, é uma ótima maneira de reduzir despesas (sem falar que não me encaixo ultimamente no perfil de cliente assíduo... detalhes...).

Menos agradável é cortar minha lista de livros... Ai... Mas acho que vão ter que esperar um pouco mesmo. Ainda mais porque janeiro é definitivamente o mês menos humanista do ano: é uma indecência o número de contas que chegam na caixa de correios ao longo de ínfimos trinta e um dias. IPTU, IPVA, IRPF, seguro do carro. E minha conta bancária: quem segura???

É, é melhor eu mesmo segurar minha onda. E esquecer todos os cartões dentro da gaveta.

Ainda bem que eu gosto de cozinhar...

domingo, 18 de diciembre de 2005

Nada realmente importante...

Não é nada realmente importante. Nenhum fato inédito ou pensamento revolucionário. Não é um turning point ou um momento a ser eternamente lembrado.

Apenas um domingo, um início de tarde que ainda parece manhã... Um dia com livros, café quente, omelete. Lembrança de amigos, um ou outro telefonema.

Mais um domingo. E, ainda assim, vale o registro. Cada dia vale...

 

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Na vida, a epifania é o que menos importa. Na vida, o que mais vale é a própria vida.

 

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Saudades

Florbela Espanca

 

Saudades! Sim... talvez... e por que não?...

Se o nosso sonho foi tão alto e forte

Que bem pensara vê-lo até à morte

Deslumbrar-me de luz o coração!

 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!

Que tudo isso, Amor, não nos importe.

Se ele deixou beleza que conforte

Deve-nos ser sagrado como o pão.

 

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,

Para mais doidamente me lembrar

Mais doidamente me lembrar de ti!

 

E quem me dera que fossem sempre assim:

Quanto menos quisesse recordar

Mais saudade andasse presa a mim!

domingo, 11 de diciembre de 2005

Sistemas complexos...

Daria uma ótima crônica, não fosse minha própria vida... É simplesmente impossível levar a cabo um plano aparentemente consistente... Tanto esforço para avaliar as alternativas, preparar os cenários, tomar as decisões, comunicá-las e toda essa parafernárlia... e, no fim, não há mais passagem de volta de Buenos Aires para Brasília... Conclusão: devo passar o fim do ano por aqui mesmo. Nessas horas, eu tento acreditar em destino. Foi o destino. O destino que deseja que eu seja padrinho do casamento de uma amiga. No dia 31 de dezembro, no fim do mundo, interior do Goiás... Talvez eu realmente tenha um papel a desempenhar lá. Um papel mais importante do que naquela que acredito ser a cena principal da minha própria comédia... Talvez esteja o destino a conduzir-me, por caminhos estreitos e sinuosos, rumo a uma felicidade mais duradoura. Talvez menos, apenas desviando-me de uma rota que inevitavelmente sempre leva a ilusões... Gosto dessa idéia do destino. É cômoda. Se eu não tenho mesmo o controle de todas as variáveis e se não consigo sequer controlar coisas tão simples como uma passagem de avião... Prefiro mesmo o destino...

Pelo menos meu mau humor deu uma trégua... E eu estou bem... Realmente bem.

Ontem recebi amigos. Chá, bolo, panetone, pão-de-queijo, caldo-verde, sorvete... E aquela sensação gostosa de estar entre amigos... É isso o que vale...

jueves, 1 de diciembre de 2005

Rainy days...

 

Dispensa comentários, não? Ainda mais considerando meu estado de humor ultimamente...


 


Aos que me toleram: desculpem, eu prometo melhorar!!! Aos que não me toleram: leck mich am Arsch!


 


 


Pelo menos consertei meu carro! E juro que vou nadar hoje!!!

Escutando Jamie Cullum e tentando me salvar...

Dias cansativos estes... I'm about to crack down... Meus esforços se dirigem a melhorar o meu humor - há muito não me via tão amargo... tem sido difícil evitar odiar-me a mim mesmo neste estado... Enfim... as coisas vão melhorar. Todo es cíclico, no? ;-)

Transcrevo abaixo algumas linhas, nascidas há alguns poucos dias...

E continuo escutando um novo jazz - Jamie Cullum.

 

 

 

Olhei para o relógio e decidi parar. Não havia muito tmepo e eu devia guardar alguma margem para eventuais atrasos. Não muitos, pois era preciso algo de pressa para evitar a ansiedade - uma estratégia que mantivesse minha atenção sempre nos quinze minutos seguintes, nada muito além disso.

Era portanto hora de parar. Tempo suficiente para sair, comer algo com alguma calma, voltar, arrumar minha mala, tomar um banho, deixar a casa minimamente habitável, dispensar as últimas atenções ao meu gato e partir. Partir cedo, não como de costume: outras pessoas também dependeriam de mim e, o que é mais preocupante, eu dependeria de outras.

Foi assim que parei e saí. Uma fome imprecisa, sem desejos ou particularidades. Talvez servisse mais bem como pretexto. Algo que me levasse à rua, à livraria. Eu sabia que precisava levar-lhe alguma coisa. Não se pode chegar assim, de mãos vazias. Haveria que levar um testemunho, um marco, um objeto concreto que tornasse mais físico algo tão simbólico, tão amorfo, tão unergreifbar. E, assim sendo, haveria de ser um livro. Quiçás um CD - eu que tanto em notas como em versos me componho e descomponho. Seria um CD ou um livro. Mas o CD poderia não cumprir seu objetivo. Tão f'acil nos fala a música, tão direta e pervasively que seriam demasiado grandes as chances de não lograssem mostrar de mim o mais importante.

Foi um livro. O livro. Poucas páginas de crônicas que tanto me marcaram. Sequências de palavras tantas vezes tão confusas que em idade semelhante à sua me tomaram de arrebalde e me levaram a mim. Desatando laços e atando-me à vida, ao plasma... Sim, aquele livro seria apropriado.

DEixei-o aberto, sem embrulho. Pensei em dedicatórias mas não ousei escrevê-las. Eu já sabia, eu acho. E, ademais, não sabia que palavras escolher... Restaram as páginas imaculadas.

Retorno à casa, entre novas notas que me invadem e me ajudam a manter-me dentro do eterno e confortável horizonte de quarto de hora. A mala, as camisas, as meias - mais tarde perceberia que, uma vez mais, havia me esquecido do cinto... Documentos, pente, post-its... A comida para o gato, o telefonema à Fabiana, a chave do carro, a porta, a rua. Sempre a música e meus quinze minutos.

Ela não veio. Eu já sabia. O atraso do vôo, o silêncio do celular, minha falta de assunto, a falta do que ler. O livro que, dentro de minha bagagem, se oferecia de maneira atrevida para que o tomasse em mâos e reabrisse suas páginas. Eu já sabia e talvez por isso não me houvera acometido a tradicional dor de barriga. Sim, eu estava ansioso. Mas apenas como quem anseia a janta.

Não veio a dor, não veio a angústia, o livro não saiu de minha pasta.

Ela não veio. Eu o sabia quando a mala tardava a aparecer na esteira e, no entreabrir de portas automáticas, não via seu rosto curioso, um olhar que procura o que não sabe.

Ela não veio. Talvez eu já esperasse. Acredito que sim, eu já o sabia. Não desses saberes claros, certos. Um pressentimento, algo tão sutil como o medo...

Ela não poderia vir. Sendo como é, conhecendo-a, eu já esperava que não viesse. Não, eu não a conheço tão bem. Ela tampouco a mim. A não ser poucas partes - como profundos cortes, de precisão cirúrgica, que pouco revelam em amplitude, mas ainda assim mostram da essência. Suficiente para que eu intuisse, soubesse, que ela não viria.

Eu não a esperava. Não. Não naquele momento. Não naquelas circunstâncias. Há coisas que não podem ser assim.

Eu não a esperava. Ainda a espero. Como quem espera o que certamente virá.