É, eu admito. Roubei a canção abaixo do flog do Henrique. É da Edith Piaf e, como tudo que ela canta, é lindo... Tenho tido muitos temas para escrever. Mas nÃo tenho tido nenhuma persistência... No fim, as idéias acabam indo embora. Não todas - só as melhores. Mas tem uma que vale a pena...
Manhã de 31 de dezembro de 2005. Último dia do ano. O fato em si não tem muita relevância. Meus amigos conhecem meu descaso e ceticismo em relação a tais datas. Pior: sabem do quase desgosto que nutro por essa época de fim de ano... Época de felicidade enlatada... Até a Gisele Bündchen já reconheceu isso, como a Fabi faz questão de ressaltar... Meu desprezo, porém, não muda o fato. E eis que justo neste data, dia tão revestido de simbolismo e mesmo uma aura de esoterismo, calhou de uma bruxa, essas, primas feias das borboletas, entrar no meu quarto. Primeiro, perdeu parte da asa na hélice do ventilador. Não presenciei a cena, mas deduzi-a quando comparei aquele pedaço de asa que pendia do teto com o pedaço faltante no pobre inseto, que, durante do dia, se havia acomodado na parede do meu guarda-roupa... (Agora, em retrospectiva, me lembro dos livros de biologia que falavam das bruxas em Manchester e de como elas se acomodavam nos troncos marrons das árvores vítimas da poluição...)
Também as bruxas são animais revestidas de misticismo. Segundo o gosto, pode-se dizer que trazem fortura ou mau agouro. Na dúvida e por precaução, prefiro a primeira hipótese.
Mais curioso é que a visita deste animal repetia em alguma medida episódio do ano anterior, mais ou menos em mesma época. Sim, é claro - provavelmente esta época do ano será propícia à proliferação destes insetos e, morando eu próximo ao parque, mantendo sempre minhas portas e janelas abertas ao vento, aumento com isso a chance de que também pernilongos, besouros e todos os seres alados, entre eles as bruxas, entrem e se alojem como melhor lhe convierem. Alojou-se esta, à imagem e semelhança de parente sua. Repeti então o gesto de há tantos meses e fotografei-a. De vários ângulos, com maior ou menor sucesso. Ela não se moveu. Dormia, como às bruxas lhes é dado fazer durante o dia.
E meu dia seguiu, não sem essa modesta alegria de, antes de partir para a ceia com meus amigos, verificar, uma vez mais, que ela continuava ali e que, com sorte, me trazia algum recado, uma mensagem de boas vindas e um pedido de ser menos descrente...
Bem, os fatos são fatos. Na manhã seguinte, de retorno à casa, pedaços de asa e vestígios de gosma verde manchavam a cerâmica branca, no melhor estilo Clarice Lispector. Meu gato, naturalmente, fartara-se com nossa efêmera hóspede. Meu gato, como eu, não é dado é muitas crendices e não devem ter-lhe ensinado que não é recomendável comer, em dia de Ano Novo, um inseto dito mensageiro da boa sorte - por precaução, na dúvida.
Esta bruxa conheceu o mesmo destino de sua antecessora. E, mais uma vez, achei um bom motivo para limpar a casa. Talvez assim ela tenha cumprido sua missão - se algo mais lhe era incumbido além de deixar em mim um breve sopro de leve felicidade...
No creo en brujas, pero que las hay, las hay...
Feliz 2006 para todos nós...
Mon manège à moi
(Jacques Constantin - 1958)
Tu me fais tourner la tête |
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