lunes, 16 de abril de 2007

Gris

Quando amanheceu, a névoa cobria a cidade. No rádio, um tango o despertava. Piazzollamente? Nao se lembrava. Mas eram similares os giros, os saltos. Oníricos. Sorriu-se. Saiu à varanda para buscar a toalha. Úmida em meio à névoa. Buscou a 9 de Julio e nao a viu. Tampouco as luzes vermelhas que costumavam piscar no alto dos edifícios. O gato veio dar-lhe os bons dias. E ele ronronou de volta bons dias. Na cozinha, a cafeteira jorrava o café espesso e amargo, que tomou a goles pequenos, sorvidos com algum ruído. Colocou na mochila algumas coisas. Uma muda de roupas, chinelos, sabonete, talco para os pés e lancou-se à cidade. À névoa densa. As gotículas cobriam seu rosto.

O sol nao havia aparecido, mas já iluminava em tons de cinza. Ele se sentia à vontade, como se, finalmente, em seu mundo. Nao que nao gostasse das cores – amava-as – mas elas guardavam qualquer coisa de irreal que, de alguma forma, o incomodava. A felicidade das cores. Seus tons absolutamente vivos. Desconfiava que os vivos eram menos intensos. Pálidos como nos dias cinza. Talvez se sentisse mais livre; ou mais conforme.

 

E quando preparava seu almoco, presenciou um pequeno milagre. Sobre a superfície da abóbora cortada, repousada sobre a bancada da cozinha, brotavam, como se de dentro viessem, bolhas minúsculas de água. Lenta e continuamente, incrustaram aquela superfície com pequenos cristais esféricos. E o laranja intenso da abóbora fez-se variável multicolorida.
Tentou tirar um retrato. Mas – que tolo – o essencial só é visível aos olhos. Aos olhos cinza.

 

***

No jornal, a previsao do tempo anunciava felicidade tranqüila.

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