sábado, 29 de septiembre de 2007

Ítaca

Conheci o poema abaixo em uma versão espanhola, enviada pela Jéssica... Algumas pessoas sabem que, desde então, tem me corroido os pensamentos. Não conhecia Cavaky e, agora, depois de breves incursões por algumas coisas suas, acho-o parecido a Pessoa, parecido a José Régio... Filhos do mesmo tempo? Quem se animar, aí vai um link, onde podem encontrar a obra poética completa, taduzida ao inglês: www.cavafy.com. Como não sei grego - quem sabe o Digo ou a Jose me ajudassem a sair desse imbróglio - ofereço duas traduções contrastantes.

Estou me organizando para escrever sobre isso. Comentários, impressões e desaforos são, portanto, muito bem-vindos.

Saudades aumentadas pelo silêncio de muitos.

Marcelo

 

 

 

Ithaka
Constatine Petrou Cavafy


As you set out for Ithaka
hope the voyage is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians and Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians and Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.
 
Hope the voyage is a long one.
May there be many a summer morning when,
with what pleasure, what joy,
you come into harbors seen for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to gather stores of knowledge from their scholars.
 
Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you are destined for.
But do not hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you are old by the time you reach the island,
wealthy with all you have gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.
 
Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you would not have set out.
She has nothing left to give you now.
 
And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you will have understood by then what these Ithakas mean.

 
 
Translated by Edmund Keeley/Philip Sherrard
www.cavafy.com






Ithaka
Constatine Petrou Cavafy


When you set out for distant Ithaca,
fervently wish your journey may be long, —
full of adventures and with much to learn.
Of the Laestrygones and the Cyclopes,
of the angry god Poseidon, have no fear:
these you shall not encounter, if your thought
remains at all times lofty, — if select
emotion touches you in body and spirit.
Not the Laestrygones, not the Cyclopes,
nor yet the fierce Poseidon, shall you meet,
unless you carry them within your soul, —
unless your soul should raise them to confront you.
 
Fervently wish your journey may be long.
May they be numerous — the summer mornings
when, pleased and joyous, you will be anchoring
in harbours you have never seen before.
Stay at the populous Phoenician marts,
and make provision of good merchandise;
coral and mother of pearl; and ebony
and amber; and voluptuous perfumes
of every kind, in lavish quantity.
Sojourn in many a city of the Nile,
and from the learned learn and learn amain.
 
At every stage bear Ithaca in mind.
The arrival there is your appointed lot.
But hurry not the voyage in the least:
’twere better if you travelled many years
and reached your island home in your old age,
being rich in riches gathered on the way,
and not expecting more from Ithaca.
 
Ithaca gave you the delightful voyage:
without her you would never have set out:
and she has nothing else to give you now.
 
And though you should find her wanting, Ithaca
will not surprise you; for you will arrive
wise and experienced, having long since perceived
the unapparent sense in Ithacas.

 
 
Translated by John Cavafy

sábado, 8 de septiembre de 2007

Começando um sábado

Há pouco, o La Nación lançou um caderno de cultura novo, ADN. Ainda não tomei a oportunidade de debruçar-me nele e ver se cumpre com a promessa... Na verdade, tenho sincero medo de que seja o pedantismo elevado à quinta potência. Mas, como sempre, fui dar uma olhadinha lá hoje, antes de começar minha rotina que envolve lavanderia, supermercado e macroeconomia. E encontrei essa crônica do Leavitt, uma bicha americana simplesmente hilária. A quem interessar possa: http://adncultura.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=941139. E confesso: entre os infinitos futuros possíveis, esse poderia muito bem ter sido um dos meus. Me refiro ao personagem narrador, obviamente.  

lunes, 3 de septiembre de 2007

Segunda-feira...

Segunda-feira. Dia de reunião com seu chefe.  Ele viaja de férias para o Caribe na quinta. Volta dez dias depois. E você tem que terminar o seu capítulo, que já vai lá pela quinta versão preliminar... Você senta frente a ele. E a cabeça explodindo. Porque na sexta, você decidiu comer aquele doce de mamão comprado lá naquela feira do interior de Minas com gosto de infância, cujos restos se encontravam estratégicamente guardados há uns bons meses (três, pelo menos) no fundo da sua geladeira. Abriu, cheirou, não franziu o nariz... prá dentro. E pronto: a sensação é de que, enroladinho no mamão, vinha a Timbalada em aquecimento de Carnaval... Sábado e domingo na cama. Ou melhor, entre a cama e o banheiro. E agora, com Carlinhos Brown bombando na testa, ele te olha com aquela cara: não se preocupe, mas está uma merda. E dá uma risada cúmplice. Mas você só pensa no quão rápido pode sair dali e pergunta para que serve tanta farmoquímica que ainda não foi capaz de inventar algo para calar a batucada...

Decide: saindo daqui, passo pelo hospital. Afinal, aquele doutor de escovinha e gravata descombinante que informava seu diagnóstico com a determinação (e altura) de um tenor em pleno solo, bem, aquele doutor não te convenceu. Onde já se viu diagnosticar gastroenteritis por causa de uma dor de cabeça? Dor de cabeça, ouviu? E pior: onde já se viu ir embora e deixar o moribundo padecendo com todo o axé-afoxé-ileaiê??? Nem uma aspirina... Não... eu tenho é meningite e esse senhor vai me deixar morrer. Depois da reunião, passo pelo hospital e vão me diagnosticar bem. Aposto que nem vão me deixar sair. Meningite. Gravíssimo. Mata até. Mas o seu chefe ainda está te explicando como redigir pelo parágrafo... 

Novamente, ele não passou da terceira página. De vinte. Outras vinte são anexos. Quadros e mais quadros. Você não sabe para quê, mas pediram, enfim, estão ali. Uma pequena seleção dos pelos menos 200 que pagaram suas contas nos últimos dois meses... E ele não passou da terceira página. Mas já preparou um novo índice. Cinco ou seis páginas somente. Sem quadros. (???). Mas se são vinte, não há problema. Também podem ser duas. Com economia de linguagem. O essencial. Análise entre pontas. Mudanças estruturais, somente. Quem é você para argumentar. Se ele pedisse a Bíblia em versos para daqui a duas semanas, acho que topava. Você nem tenta um sorriso. Há muito já se convenceu da sua pouca capacidade de dissimular... E o tun-tis-tun a pleno...

Você respira. Em poucos minutos, vão te diagnosticar meningite. Ou algo mais sério. Mais grave. Tudo, menos uma dor de barriga. Nada menos digno que uma dor de barriga. Por causa de um doce de mamão? E desde quando um mineiro passa mal com doce de mamão??? Você faz as contas. Olha os comentários nas três primeiras páginas. Escrever para um leitor inteligente é a consigna. Tá, não deve ser tão difícil... E você tem dez dias. Apaga o computador e vai para o hospital.

A doutora conversa. É mais simpática. Pergunta o que aconteceu. Você conta tudo. Dor de cabeça, muita, muita, muita. Frontal, latente, aguda. Não vai embora? Não, com nada. Febre? Muita, sábado e domingo. Hoje, não. Um pouco de diarréia. Ontem. Hoje não. Ê eu até já fui ao banheiro. Você, tentando escapar da humilhação... Não conta sobre o engomadinho que gritava. Ela pede para você deitar. Pega o estetoscópio e coloca sobre sua barriga. E você começa a desconfiar que perdeu. Ela pergunta: comeu alguma coisa fora de casa ou comprada? Você tenta salvar o pouco da dignidade que lhe resta: não. Ela dá o veredito: é gastroenteritis. Seu intestino está um pouco acelerado... E quase oferece como consolo: é muito comum, por algo que você comeu ou tomou. Vou te prescrever uma dieta, algo para a infecção, algo para diarréia (mas eu já não disse que voltou tudo ao normal, cacete?) e algo para a dor-de-cabeça (vitória!!!).

E aqui estou eu. A Timbalada tá fazendo um intervalo. O analgésico é mesmo forte, mas ainda assim tenho que mover a cabeça com cuidado (pelo visto, deixaram os tabaques soltos lá dentro). O remedinho para a gastroenteritis promete cefaléia... To pensando aqui se tomo... E o da diarréia... algo parecido a leite de magnésia. Mas esse eu só tenho que tomar em situações de crise.

Acho que vou dar de presente para meu chefe. Para ele levar para o Caribe...