lunes, 3 de septiembre de 2007

Segunda-feira...

Segunda-feira. Dia de reunião com seu chefe.  Ele viaja de férias para o Caribe na quinta. Volta dez dias depois. E você tem que terminar o seu capítulo, que já vai lá pela quinta versão preliminar... Você senta frente a ele. E a cabeça explodindo. Porque na sexta, você decidiu comer aquele doce de mamão comprado lá naquela feira do interior de Minas com gosto de infância, cujos restos se encontravam estratégicamente guardados há uns bons meses (três, pelo menos) no fundo da sua geladeira. Abriu, cheirou, não franziu o nariz... prá dentro. E pronto: a sensação é de que, enroladinho no mamão, vinha a Timbalada em aquecimento de Carnaval... Sábado e domingo na cama. Ou melhor, entre a cama e o banheiro. E agora, com Carlinhos Brown bombando na testa, ele te olha com aquela cara: não se preocupe, mas está uma merda. E dá uma risada cúmplice. Mas você só pensa no quão rápido pode sair dali e pergunta para que serve tanta farmoquímica que ainda não foi capaz de inventar algo para calar a batucada...

Decide: saindo daqui, passo pelo hospital. Afinal, aquele doutor de escovinha e gravata descombinante que informava seu diagnóstico com a determinação (e altura) de um tenor em pleno solo, bem, aquele doutor não te convenceu. Onde já se viu diagnosticar gastroenteritis por causa de uma dor de cabeça? Dor de cabeça, ouviu? E pior: onde já se viu ir embora e deixar o moribundo padecendo com todo o axé-afoxé-ileaiê??? Nem uma aspirina... Não... eu tenho é meningite e esse senhor vai me deixar morrer. Depois da reunião, passo pelo hospital e vão me diagnosticar bem. Aposto que nem vão me deixar sair. Meningite. Gravíssimo. Mata até. Mas o seu chefe ainda está te explicando como redigir pelo parágrafo... 

Novamente, ele não passou da terceira página. De vinte. Outras vinte são anexos. Quadros e mais quadros. Você não sabe para quê, mas pediram, enfim, estão ali. Uma pequena seleção dos pelos menos 200 que pagaram suas contas nos últimos dois meses... E ele não passou da terceira página. Mas já preparou um novo índice. Cinco ou seis páginas somente. Sem quadros. (???). Mas se são vinte, não há problema. Também podem ser duas. Com economia de linguagem. O essencial. Análise entre pontas. Mudanças estruturais, somente. Quem é você para argumentar. Se ele pedisse a Bíblia em versos para daqui a duas semanas, acho que topava. Você nem tenta um sorriso. Há muito já se convenceu da sua pouca capacidade de dissimular... E o tun-tis-tun a pleno...

Você respira. Em poucos minutos, vão te diagnosticar meningite. Ou algo mais sério. Mais grave. Tudo, menos uma dor de barriga. Nada menos digno que uma dor de barriga. Por causa de um doce de mamão? E desde quando um mineiro passa mal com doce de mamão??? Você faz as contas. Olha os comentários nas três primeiras páginas. Escrever para um leitor inteligente é a consigna. Tá, não deve ser tão difícil... E você tem dez dias. Apaga o computador e vai para o hospital.

A doutora conversa. É mais simpática. Pergunta o que aconteceu. Você conta tudo. Dor de cabeça, muita, muita, muita. Frontal, latente, aguda. Não vai embora? Não, com nada. Febre? Muita, sábado e domingo. Hoje, não. Um pouco de diarréia. Ontem. Hoje não. Ê eu até já fui ao banheiro. Você, tentando escapar da humilhação... Não conta sobre o engomadinho que gritava. Ela pede para você deitar. Pega o estetoscópio e coloca sobre sua barriga. E você começa a desconfiar que perdeu. Ela pergunta: comeu alguma coisa fora de casa ou comprada? Você tenta salvar o pouco da dignidade que lhe resta: não. Ela dá o veredito: é gastroenteritis. Seu intestino está um pouco acelerado... E quase oferece como consolo: é muito comum, por algo que você comeu ou tomou. Vou te prescrever uma dieta, algo para a infecção, algo para diarréia (mas eu já não disse que voltou tudo ao normal, cacete?) e algo para a dor-de-cabeça (vitória!!!).

E aqui estou eu. A Timbalada tá fazendo um intervalo. O analgésico é mesmo forte, mas ainda assim tenho que mover a cabeça com cuidado (pelo visto, deixaram os tabaques soltos lá dentro). O remedinho para a gastroenteritis promete cefaléia... To pensando aqui se tomo... E o da diarréia... algo parecido a leite de magnésia. Mas esse eu só tenho que tomar em situações de crise.

Acho que vou dar de presente para meu chefe. Para ele levar para o Caribe...

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