jueves, 29 de noviembre de 2007

Congresso de Bruxaria

Ela me responde: “immerse your soul in love”. Desconfio a deliciosa ironia em sua resposta, embora também exista a possibilidade de que esta seja uma referência a algo que, como tantas outras coisas, desconheço.
Mas é que eu contei para ela de ontem. Centro Cultural Recoleta. Mesa Redonda sobre Clarice Lispector. Todo mundo sabe que é minha autora preferida (junto com Guimaraes Rosa). Mais de um amigo veio comentar comigo: “lembrei de você”. E, claro, lá fui eu. Nao estava tao interessado nas conferências, mas haviam prometido leituras... E eu estou lendo, pela n-ésima vez, Uma Aprendizagem. Também tá lá, na minha peça. Enfim, como diria o outro: “objetos trobados”. (ps. Outro dia tive um orgasmo quando pensei que, no livro, c.l. trocou Ulisses e Lorelei de lugar: amarrou a sereia no mastro e fez Ulisses cantar... nao que seja um achado, mas, enfim, cada um bate punheta conforme lhe convén, nao é mesmo?). O ponto é: lá fui eu.
Legalzinho, tudo. Distribuiram uns contos traduzidos, escreveram umas frases na parede, enfim... Já inventaram a roda, nao é mesmo. Na platéia, cinqüenta pessoas, mais ou menos. E, eu, me sentindo mulher, negra e pobre: um homem, com menos de cinqüenta anos e que nao tem nem doutorado, nem mestrado, nem especializaçao, nem bacharelado e, na verdade, nem um cursinho rápido em Clarice Lispector ou qualquer coisa do gênero.
Na mesa, Yudith Rosenbaum e Laura Hana. Aquela, brasileira, de fala doce, calma. Um vestido preto, simples, verao. Cabelos anelados, soltos, curtos. Óculos para ler. A otra, enfim, prefiro chamá-la bicho loiro. Argentina, poderosa, tailleur impecável, as madeixas douradas minuciosamente penteadas. Olhar firme no horizonte. Pediu que a anfitria repetisse a apresentaçao. E se enfureceu, sem perder a pose, naturalmente, quando a amiga se esqueceu de apresentá-la. Sua raiva aumentava a cada conto que a primeira citava, roubando-lhe uma a uma as cartas na manga... Enfim. Tem gente que confunde glamour com exu-berância... Depois falou uma tradutora de c.l.. Rápida, concisa, direta. Nenhuma palabra pouco interessante, nenhuma palavra fora de propósito.
Talvez porque eu me sentisse acuado. Talvez porque eu achasse que aquele incômodo que eu sentia nao merecesse muita psicoanálise. Talvez simplesmente porque eu nao sei ficar calado. Falei. Uma pregunta, que tentou ser o mais breve possível, dentro dos meus limites de prolixidade... E perguntei se elas nao achavam que dizer que os conflitos das personagens de Clarice eram conflitos femininos nao era dizer algo que a autora jamais havia suposto... Que, eu achava, inclusive, que ela jogava com esses mesmos conflitos em seus personagens masculinos (e só pensava em Ulisses. E em mim, que nao sou personagem, muito menos de Clarice, mas bem que poderia ser...). Foi o suficiente para o que mundo viesse abaixo. Eu havia despertado o ódio da confraria de velhas cultas e ricas da Recoleta. “Parece que há uma confusao entre feminino e feminidade, aquí”, sugeria uma, esclarecendo minha confusao conceitual e explicitando minha inferioridade ante a intelectualidade literária. “É um fato que homens têm mais dificuldade para entender Clarice”, dizia outra, supostamente referindo-se a algum estudo quantitativo no campo da cogniçao que eu, burro, desconheço. “Os homens nao estao dispostos a ter a sensibilidade que requer ler Clarice” – me informou uma bicha louquésima, deixando-me sem muitas opçoes: ou eu nao era homem ou nao tinha sensibilidade suficiente. E outra, a curadora, de cara repuxada, tentando me salvar: “mas é claro, Clarice é um gênio! Tanto que seus personagens masculinos soam tao verdadeiramente masculinos”. Ok, me calo.
A mesa já era redonda. Eu nao ia ficar para ser o banquete.
I´d rather immerse my body in a swimming pool.

martes, 27 de noviembre de 2007

Parturiente

Ele acordou o bicho e, desde entao, nao pode dormir.

Pensa que é o calor. Talvez sejam os mosquitos. Ou o vento que entra, tornando impossível decidir-se entre cobrir e se mostrar.

Nao é nada disso. Ele sabe. A verdade é que ele acordou o bicho e por isso nao pode dormir.

Ouve sua respiraçao quente, a roçar-lhe as paredes do intestino. Agitado, inquieto. Quer sair.

Um cavalo?

Nao.

Desconfia.

Que o seu bicho é mais deforme. Mais violento. Mais negro.

Ele deseja, exige. Agora.

Ele está desperto e quer sair.

Tomar tudo. Em um só gole. Em um só jato. Em um só gozo.

E, entao, só entao, poderá, ele, voltar a dormir.

E, quem sabe, nao estará sozinho.

 

Quando, seu moço, nasceu meu rebento

Nao era o momento dele rebentar

 

Alguém me empresta algo de Sarah Kane?

sábado, 24 de noviembre de 2007

Me lo dijo ella

Ela confirma quando eu lhe pergunto se estou falando muito alto.

E então eu percebo que ser querido não requer protagonismo. E que protagonisto é diferente de pavoaria.

domingo, 18 de noviembre de 2007

Elocubração precoce

Lendo poesia antes de ir para a cama.

O fim de semana parece ter acabado antes do tempo, precoce.

Como o sexo da noite passada.

Como o amor que não pôde ser.

 

(e esse romantismo adolescente? quando passa?)

viernes, 16 de noviembre de 2007

Parando la pelota

Nunca joguei futebol. Na verdade, quando eu era bem pequeno - antes da segunda série... - tive algumas tentativas frustradas. Meus sonhos terminaram com um terrível frango, entre as pernas, de uma bola "recuada"... ou seja, gol contra... Mas isso nao me impede entender a força dessa metáfora. Você recebe o passe, perfeitamente trabalhado pelo seu companheiro, dribla um, dois, três, fura a defesa, está na boca do gol. A torcida prende a respiraçao. Os atacantes do time adversário, longe de você, têm os olhos arregalados. O goleiro do teu time aperta o pulsos, enquanto o do outro lado trava o cú (perdao, mas futebol sem palavrao nao é futebol). Neste momento, o que você faz? Chuta? Claro que nao. Até o mais ingênio e inepto dos jogadores sabe o que fazer neste momento: você pára a bola e olha. Só depois, chuta.

Pois bem. Dai concluimos que me encontro aquém do umbral que separa os mais ingênuos e ineptos desta categoria a que pertenço... ;-)

Afoito, sempre chuto. Chamemos isso ansiedade, impaciência, imaturidade, ignorância, arrogância ou teimosia. Também poderiamos dizer romanticismo,  incurável otimismo... Enfim. O ponto é: eu tendo a chutar. E, claro, erro.

Mas, às vezes, a gente aprende um pouquinho. E hoje, pelo menos, eu vou parar a bola. E ver se vale a pena chutar pro gol ou passar adiante.

Cada um escolhe o jogo que joga.

sábado, 10 de noviembre de 2007

Wherever I hang

E naquele livro amarelo, achei uma linda adaptação do poema abaixo. A adaptação (e o livro) é de Jan de Jager. O poema é de Grace Nichols. Onde ela deixa os sapatos, onde ele deixa as cuecas. Omnia mea mecum porto. Mas onde deixo os meus livros?

Totalmente perdido. Mas, pelo menos, terminei de escrever a peça. A primeira versão dela.

 

Wherever I Hang

 

I leave me people, me land, me home
For reasons I not too sure
I forsake de sun
And de humming-bird splendour
Had big rats in de floorboard
So I pick up me new-world-self
And come to this place call England
At first I feeling like I in a dream -
De misty greyness
I touching the walls to see if they real
They solid to de seam
And de people pouring from de underground system
Like beans
And when I look up to de sky
I see Lord Nelson high - too high to lie.

And is so I sending home photos of myself
Among de pigeons and de snow
And is so I warding off de cold
And is so, little by little
I begin to change my calypso ways
Never visiting nobody
Before giving them clear warning
And waiting me turn in queue
Now, after all this time
I get accustom to de English life
But I still miss back-home side
To tell you de truth
I don't know really where I belaang
Yes, divided to de ocean
Divided to de bone
Wherever I hang me knickers - that's my home.

jueves, 8 de noviembre de 2007

Ta gueule, salope!

Tempestade de surrealismo... Congresso veta exposicao intitulada "Heróis" por causa de um nu - frustrantemente discreto e elegante, devemos admitir - de Rogéria. Muito mais vergonhosa deve ser a foto do ACM, que também compoe a mostra. Eu vetava por absoluto mau gosto e atentado à ética... Além do mais, vai que o bicho se anima e resolve reencarnar bem no meio da vernissage... Nao sobra Exu, com medo da concorrência...

E a coisa continua com o mais novo lançamento da Folha, que ensina as bichas a se comunicarem em oito idiomas diferentes, no maior estilo bibas of the world, unite. Mas duvido que aqueles que leiam a nota na internet compre o livro. Culpa da Folha, que, na pequena amostra grátis, já revela o essencial: "ta gueule, salope!". A-D-O-R-O! Depois dessa, para quê mais? Cala a boca e beixa, bem bagaceira mesmo. Em francês, que é mais chique. Ai, desculpa, chic.

Mas, o bom mesmo, é o outro lançamento deles (o governo brasileiro só pode estar subsidiando a indústria gráfica para justificar essa intensidade editorial): A Maconha, por (ninguém menos que) Fernando Gabeira. Esse sim deve vender horrores. Nada de pais comprando leitura didática para os filhos. Baseando-nos (oops) no primeiro capítulo - amostra grátis é política editorial agora - o mais provável é que o livro seja consumido pelo imenso exército de maconheiros enrustidos (sim, eles existem) que, até o momento, dependiam de uma voz legitimada e imparcial (me refiro à Folha, obviamente. hahaha) para expiar a culpa com muita fumaça branca. (Cá entre nós, adorei as digressoes sobre Shiva. Mas que dá um medinho interno de terminar igual ao Gabeira, ah, isso dá.)

Para fechar, hoje, às 21h30, em Acevedo, 460, aumenta a probabilidade de falhas no projeto de luz da peça "La sonrisa de los siervos". É que o que lhes escreve vai ajudar a operar alguns pins e spots, marcando sua volta oficial ao mundo espetáculo. Queixas, com a direçao.

lunes, 5 de noviembre de 2007

Safena

O rolo do Pato mandou essa música para ele. Não connheço a música, nem o rolo e o Pato tá lá no Japão. Mas adorei. E ponho aqui. Que o mate!

 

 

Sabe o que é um coração
Amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
Aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
Comecem a obra!
Por favor, mestre de horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
Comece você primeiro passando verniz nos móveis e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, oxum, afrodite, vênus e nossa senhora
Apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
Aticem as velas
Que lá vou de novo na solteirice
Exposta ao mar da mulatice
À honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
Lustrem as superfícies
Aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
De amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.

 

Elisa Lucinda