Ela me responde: “immerse your soul in love”. Desconfio a deliciosa ironia em sua resposta, embora também exista a possibilidade de que esta seja uma referência a algo que, como tantas outras coisas, desconheço.
Mas é que eu contei para ela de ontem. Centro Cultural Recoleta. Mesa Redonda sobre Clarice Lispector. Todo mundo sabe que é minha autora preferida (junto com Guimaraes Rosa). Mais de um amigo veio comentar comigo: “lembrei de você”. E, claro, lá fui eu. Nao estava tao interessado nas conferências, mas haviam prometido leituras... E eu estou lendo, pela n-ésima vez, Uma Aprendizagem. Também tá lá, na minha peça. Enfim, como diria o outro: “objetos trobados”. (ps. Outro dia tive um orgasmo quando pensei que, no livro, c.l. trocou Ulisses e Lorelei de lugar: amarrou a sereia no mastro e fez Ulisses cantar... nao que seja um achado, mas, enfim, cada um bate punheta conforme lhe convén, nao é mesmo?). O ponto é: lá fui eu.
Legalzinho, tudo. Distribuiram uns contos traduzidos, escreveram umas frases na parede, enfim... Já inventaram a roda, nao é mesmo. Na platéia, cinqüenta pessoas, mais ou menos. E, eu, me sentindo mulher, negra e pobre: um homem, com menos de cinqüenta anos e que nao tem nem doutorado, nem mestrado, nem especializaçao, nem bacharelado e, na verdade, nem um cursinho rápido em Clarice Lispector ou qualquer coisa do gênero.
Na mesa, Yudith Rosenbaum e Laura Hana. Aquela, brasileira, de fala doce, calma. Um vestido preto, simples, verao. Cabelos anelados, soltos, curtos. Óculos para ler. A otra, enfim, prefiro chamá-la bicho loiro. Argentina, poderosa, tailleur impecável, as madeixas douradas minuciosamente penteadas. Olhar firme no horizonte. Pediu que a anfitria repetisse a apresentaçao. E se enfureceu, sem perder a pose, naturalmente, quando a amiga se esqueceu de apresentá-la. Sua raiva aumentava a cada conto que a primeira citava, roubando-lhe uma a uma as cartas na manga... Enfim. Tem gente que confunde glamour com exu-berância... Depois falou uma tradutora de c.l.. Rápida, concisa, direta. Nenhuma palabra pouco interessante, nenhuma palavra fora de propósito.
Talvez porque eu me sentisse acuado. Talvez porque eu achasse que aquele incômodo que eu sentia nao merecesse muita psicoanálise. Talvez simplesmente porque eu nao sei ficar calado. Falei. Uma pregunta, que tentou ser o mais breve possível, dentro dos meus limites de prolixidade... E perguntei se elas nao achavam que dizer que os conflitos das personagens de Clarice eram conflitos femininos nao era dizer algo que a autora jamais havia suposto... Que, eu achava, inclusive, que ela jogava com esses mesmos conflitos em seus personagens masculinos (e só pensava em Ulisses. E em mim, que nao sou personagem, muito menos de Clarice, mas bem que poderia ser...). Foi o suficiente para o que mundo viesse abaixo. Eu havia despertado o ódio da confraria de velhas cultas e ricas da Recoleta. “Parece que há uma confusao entre feminino e feminidade, aquí”, sugeria uma, esclarecendo minha confusao conceitual e explicitando minha inferioridade ante a intelectualidade literária. “É um fato que homens têm mais dificuldade para entender Clarice”, dizia outra, supostamente referindo-se a algum estudo quantitativo no campo da cogniçao que eu, burro, desconheço. “Os homens nao estao dispostos a ter a sensibilidade que requer ler Clarice” – me informou uma bicha louquésima, deixando-me sem muitas opçoes: ou eu nao era homem ou nao tinha sensibilidade suficiente. E outra, a curadora, de cara repuxada, tentando me salvar: “mas é claro, Clarice é um gênio! Tanto que seus personagens masculinos soam tao verdadeiramente masculinos”. Ok, me calo.
A mesa já era redonda. Eu nao ia ficar para ser o banquete.
I´d rather immerse my body in a swimming pool.
Mas é que eu contei para ela de ontem. Centro Cultural Recoleta. Mesa Redonda sobre Clarice Lispector. Todo mundo sabe que é minha autora preferida (junto com Guimaraes Rosa). Mais de um amigo veio comentar comigo: “lembrei de você”. E, claro, lá fui eu. Nao estava tao interessado nas conferências, mas haviam prometido leituras... E eu estou lendo, pela n-ésima vez, Uma Aprendizagem. Também tá lá, na minha peça. Enfim, como diria o outro: “objetos trobados”. (ps. Outro dia tive um orgasmo quando pensei que, no livro, c.l. trocou Ulisses e Lorelei de lugar: amarrou a sereia no mastro e fez Ulisses cantar... nao que seja um achado, mas, enfim, cada um bate punheta conforme lhe convén, nao é mesmo?). O ponto é: lá fui eu.
Legalzinho, tudo. Distribuiram uns contos traduzidos, escreveram umas frases na parede, enfim... Já inventaram a roda, nao é mesmo. Na platéia, cinqüenta pessoas, mais ou menos. E, eu, me sentindo mulher, negra e pobre: um homem, com menos de cinqüenta anos e que nao tem nem doutorado, nem mestrado, nem especializaçao, nem bacharelado e, na verdade, nem um cursinho rápido em Clarice Lispector ou qualquer coisa do gênero.
Na mesa, Yudith Rosenbaum e Laura Hana. Aquela, brasileira, de fala doce, calma. Um vestido preto, simples, verao. Cabelos anelados, soltos, curtos. Óculos para ler. A otra, enfim, prefiro chamá-la bicho loiro. Argentina, poderosa, tailleur impecável, as madeixas douradas minuciosamente penteadas. Olhar firme no horizonte. Pediu que a anfitria repetisse a apresentaçao. E se enfureceu, sem perder a pose, naturalmente, quando a amiga se esqueceu de apresentá-la. Sua raiva aumentava a cada conto que a primeira citava, roubando-lhe uma a uma as cartas na manga... Enfim. Tem gente que confunde glamour com exu-berância... Depois falou uma tradutora de c.l.. Rápida, concisa, direta. Nenhuma palabra pouco interessante, nenhuma palavra fora de propósito.
Talvez porque eu me sentisse acuado. Talvez porque eu achasse que aquele incômodo que eu sentia nao merecesse muita psicoanálise. Talvez simplesmente porque eu nao sei ficar calado. Falei. Uma pregunta, que tentou ser o mais breve possível, dentro dos meus limites de prolixidade... E perguntei se elas nao achavam que dizer que os conflitos das personagens de Clarice eram conflitos femininos nao era dizer algo que a autora jamais havia suposto... Que, eu achava, inclusive, que ela jogava com esses mesmos conflitos em seus personagens masculinos (e só pensava em Ulisses. E em mim, que nao sou personagem, muito menos de Clarice, mas bem que poderia ser...). Foi o suficiente para o que mundo viesse abaixo. Eu havia despertado o ódio da confraria de velhas cultas e ricas da Recoleta. “Parece que há uma confusao entre feminino e feminidade, aquí”, sugeria uma, esclarecendo minha confusao conceitual e explicitando minha inferioridade ante a intelectualidade literária. “É um fato que homens têm mais dificuldade para entender Clarice”, dizia outra, supostamente referindo-se a algum estudo quantitativo no campo da cogniçao que eu, burro, desconheço. “Os homens nao estao dispostos a ter a sensibilidade que requer ler Clarice” – me informou uma bicha louquésima, deixando-me sem muitas opçoes: ou eu nao era homem ou nao tinha sensibilidade suficiente. E outra, a curadora, de cara repuxada, tentando me salvar: “mas é claro, Clarice é um gênio! Tanto que seus personagens masculinos soam tao verdadeiramente masculinos”. Ok, me calo.
A mesa já era redonda. Eu nao ia ficar para ser o banquete.
I´d rather immerse my body in a swimming pool.
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