miércoles, 22 de octubre de 2008

Tentaçao

Eu esperava. Uma espera sem pressa, de quem sabe que se termina. Aplacada pela certeza da rotina.
Primeiro surgiu ele. Robusto, compacto, o peito alçado, o pelo curto. Levava a língua para fora como quase todos os caes. Vinha apressado. E se deteve. Latiu.
Logo veio ela. Vestida de negro, os cabelos loiros, algo esvoaçantes. Acelerada. Aceleradíssima. Agora nao consigo recordar se falava ao celular. Mas poderia fazê-lo, sem sombra de dúvidas.
Ele detido, ela em movimento. E seus caminhos voltaram a cruzar-se. Ele entao a seguiu.
Corria com as patas curtas de um cachorro robusto. E latia, convicto, assertivo. Ela, nem tchum.
Chegaram ao ponto de inflexao que implica qualquer esquina. Ele insistia em falar. Ela erguia a cabeça soberana, os olhos fixos no semáforo. Verde. E cruzou. Duas linhas que se separam novamente no espaço.
Foi entao que aconteceu. Antes de tocar a sarjeta. Com um riso inexplicável em uma cidade como esta, virou-se sem deter-se. E, em movimento, o olhou. Como se caminhasse pela praia e, furtiva e maliciosamente, retribuísse o olhar desejoso. Ele latia.
Ela atravessou para outra esquina e olhou-o uma vez mais, em um flerte que só existe por si mesmo. Já silente, balançava o rabo.
Olhou ao redor. Ele nao cruzaria. Dobrou a esquina e seguiu seu rumo, apenas os latidos dando certeza de sua continuada existência.


Bem, e agora o verdadeiro... Um dos meus preferidos, que caiu de repente na minha frente nessa manha de quarta. Nao sei se já o postei aqui...

TENTAÇÃO

Clarice Lispector. in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.


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