domingo, 22 de enero de 2006

Abismos...

Quero me jogar do abismo.

Quero cair, cair, cair...

E chegar ao fundo. Bater-me contra o chão, estilhaçando-me em mil pedaços.

Cada ínfimo pedaço de mim em contato com a terra, com as pedras, com os bichos, os vermes.

Quero me jogar do abismo.

Sentir o misto de gozo e dor da queda. Enfrentar o dilema entre agarrar-se ao que ao alcance da mão estiver e abdicar de qualquer tentativa de salvação.

Quero me jogar do abismo. De corpo inteiro.

Soltar-me pesado...

Quero me jogar do abismo.

Mas o abismo não há.

E é por isso que, às vezes, eu fico triste...

 

Ando à procura de um abismo.

Alto. Vertiginoso. Que o olhar não alcance seu fundo.

Não posso viver assim na planície.

Quero me jogar do abismo.

Eu preciso de um abismo para me jogar...

Um que me desafie. Que atice em mim o mais selvagem, o mais humano.

Um que me convide à entrega. Total e insana.

 

Estou farto de razões. Sabe o Deus que nunca quis para mim muitas razões.

Minhas razões as dou aos outros.

Eu quero para mim um abismo.

Um abismo para me jogar.

De corpo pesado.

2 comentarios:

  1. que abismo que nada! Embora o poema seja muito bonito, nada de abismo pro senhor. queira algo mais sublime e menos negro. acho q falta um pouquinho de cor. e só.

    ResponderBorrar
  2. Não quero sublimações, Giu... Prefiro os subliminares. O obscuro, o viscoso. A massa amorfa e branca... Clarice já disse tudo o que havia para ser dito...
    Que bom que você gostou... E os seus? Cadê?
    Beijos!

    ResponderBorrar