Minha casa já começava a feder. Não, apenas o banheiro. Conseqüência do meu inconseqüente ato de seguir os conselhos da Giu. Deixe o vaso sempre tampado - ela diz... Com a freqüência com que lavo meu banheiro, isso é elemento suficiente para provocar náuseas cada vez que vou mijar.
Exagero, é claro. Em favor da narrativa.
Frente à falta de opção, recorri a ajuda profissional: Lílian.
Lilian limpou minha casa há um mês, creio. Penso que ela tinha a ilusão de que eu a chamaria todas as semanas. Não imagino que seja tão ingênua a ponto de esperar que eu solicitasse seus serviços com maior freqüência que isso. Esperançosa, me enviou religiosamente ao início de cada semana um SMS perguntando se haveria faxina. Lilian é uma mulher conectada às novas tendências da era da informação. Nunca respondi às suas mensagens. Mas liguei uma vez para dizer que o serviço havia sido bem feito - não se pode deixar uma mulher no total e completo abandono...
Estabeleci novo contato esta semana. Tentei ligar, mas ela não atendeu. Mandei mensagem. Sem resposta. Era a sua vez de me ignorar. Liguei novamente, mais tarde. Ela parecia não se lembrar de mim, mas aceitou. Será que se lembrava? Tive que enviar-lhe, por SMS, meu endereço, confirmando: sexta-feira, 8h30, na minha casa. Parecia um convite.
Ela chegou. Estava um pouco adiantada. Lembrei-me de que era feia. Vestia rosa. Uma saia rosa, blusinha rosa. Acho que batom rosa. Vermelho, talvez. Cabelos meio molhados. Entrou rebolativa, conversando com meu gato. Oi Gatão, lhe dizia. Rebolativa. Passou por mim. Se apoiou no sofá, quebrando a cadeira, mão na nunca. Trocamos algumas palavras, não me lembro. Certamente algo como "como da outra vez, você já sabe". Essa menina dá pra puta, pensei.
Vou trocar de roupa. E foi para o banheiro.
Eu folheava o jornal. Muitos ministros saindo e sendo substituídos por seus secretários executivos. Negociações mais que espúrias entre partidos que desconhecem o conceito de coerência ideológico-programática. Ela trocava de roupa no banheiro. Só falta sair pelada.
Tinha uma sainha preta, uma blusinha preta. Rebolativa. Passou por mim, eu lendo o jornal. Essa menina dá pra puta, pensei.
Esse jornal é de hoje?
É.
Tem classificados?
Tem. Você quer?
Meu pai disse que quinta é o melhor dia para classificados.
No fim de semana também tem muita coisa, no domingo. Você quer que eu separe para você?
Obrigada.
Tem também esses daqui, quinta e quarta. Pode levar, se quiser. Deixo seu dinheiro...
Aqui.
Ok, tenho que sair para sacar; volto e deixo com você.
Saí, voltei, tornei a sair. Me sentindo um desses cronistas sacanas, cariocas...
Logo eu... o mais canalha dos castos...
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