miércoles, 21 de junio de 2006

Dando vazão à arrogância...

Descobri hoje um poema maravilhoso. Mentira, não o descobri, me apresentaram. Uma amiga mais que querida veio com essa jóia, para minha surpresa, do Mário Quintana. É a minha cara e a cara de alguns dos meus melhores amigos. Também é arrogante, mas enfim, entre tantos defeitos no mundo eu poderia ter escolhido piores. E bem que me esforço para me controlar... No fundo, sou um bom menino.

E mesma amiga me lembro da Tabacaria. Tanto tempo que não o lia... Voltei a ele. (sim, ando bem vagal ultimamente. Desde que anunciei que vou-me embora para Passárgada, se esqueceram de que ainda me pagam para trabalhar...) Foi bom relê-lo. Sempre há alguma identificação. E ele é tudo o que mais quero evitar. Chegar ao fim e ver que tanto se sonhou e apenas isso... Sim, a vida são devaneios, abismos, transes. Mas os pés estão no chão e precisam avançar. Adelante, siempre adelante. As mãos precisam ter o que tocar. Há que haver utilidade para os braços. E recusar o dominó que não nos cabe...

Sobre meu recente "onde é que há gente no mundo?", explico, embora não devesse fazê-lo. Não é meu. É o Poema em Linha Reta. Sim, aquele famoso, clichê... Mas a coisa é por aí mesmo. Quero ver as pessoas. Gente de verdade, que, como eu, tenha levado porrada, seja vil e seja reles. Quero ver os rostos, as marcas, os defeitos. Onde está a humanidade? Basta de Olimpo...

Aos meus amigos: amo-os todos.

 

COCKTAIL PARTY
Mario Quintana
(para Eloí Callage)

 

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca...
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos...)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poças
d'água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!

martes, 20 de junio de 2006

Entre abismos e transes

Não será apenas a perspectiva. É. Já.

Tudo volta a mover-se, como se por fim solto do chão.

Terei eu aberto os cadeados? Terão os elos arrebentado pela ação do tempo?

Nada, nem tampouco.

Entregar-se ao inusitado. Não ao que está além, mas ao imediato. Ao fato da existência própria. E de que a vida corre. Dentro das veias, pulsa. Desde aqui. Desde agora.

E talvez já não seja a queda ou o abismo. O transe? Por quanto tempo se pode aguentá-lo. Não importa. Tempo não há. Não para ser feliz...

 

Quisera todas essas coisas estampadas em minha cara. Transparecer-me de primeira, a quem os olhos pusesse. E a essência aí estaria. Por que tanto nos custa mostrar-nos aos olhos nus? Por que tão difícil é ver o mais importante? Quem disse que o óbvio é invisível aos olhos? Clarice acho que dizia que o essencial o é, acho. Mas está logo ali. Para quem ousar conhecê-lo. E entregar-se. A mim? Não, não quero tanto. Entreguemo-nos a ser. Irrevogavelmente em trânsito.

 

José Régio - embora talvez eu hoje deseje mais Vinícius...

 

Cântico negro

José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

domingo, 18 de junio de 2006

Transe

Como um sonho. Um transe. Um estado apenas semi-consciente. Assim avançaram estes últimos dias. Não toco o chão, nem as coisas. Nem à superfície, nem rente ao chão.

Não sei explicar. Não quero entender tampouco.

Quase um transe, só isso.

Em si, já faz sentido suficiente.

miércoles, 14 de junio de 2006

Água de pedra...

Às vezes, dá prazer ler coisas assim. Como a genialidade pode transformar a mais imbecil das matérias em um texto de relevância... sutilmente relevante... Tirando água de pedra.


 

 


Inferninhos oferecem "pulo de cerca" nas tardes da Copa



Rodrigo Bertolotto
Em São Paulo

Havia um tempo em que as pessoas no Brasil assistiam à Copa do Mundo no recôndito do lar. Agora, a maioria prefere o clima de arquibancada dos bares. Mas há aqueles que aproveitam o pretexto do feriado esportivo para dar uma escapadinha e acompanhar os jogos à meia-luz de um inferninho.


Reprodução



Casa dos Jardins oferece "churrasco free" e "lindas garotas" para os torcedores

Seja na tradicional "boca do lixo" da rua Augusta, nos Jardins ou na Zona Leste, várias casas de São Paulo criaram o serviço vespertino para atender à clientela em ritmo de Copa. "Venha assistir aos jogos em um supertelão e ao lado de uma seleção de lindas garotas. Muita descontração e churrasco free", diz o slogan de uma boate dos Jardins, apelando duplamente para a tentação da carne.

No intervalo da partida, acontece o verdadeiro "show do intervalo". Com o telão repetindo os lances do primeiro tempo, Chayane faz rodopios em uma barra, se ajoelha e debruça sobre os marmanjos. É tanta desenvoltura que parece até que ela está na jogada com o zagueiro croata que está na imagem. O segundo tempo recomeça, e ela ainda não terminou seu strip-tease. Alguns estão vidrados. Outros não sabem para onde olhar. Os mais tensos pedem para ela sair da frente quando o Brasil tem uma chance de gol. "Já deu, gata", decreta um, colocando uma cédula de R$ 20 no biquíni ainda vestido.

No minuto seguinte, Chayane (nome artístico) sai do palco e vai de volta para o colo do senhor nipônico, que será rival na próxima quinta 22 quando o Brasil encara o Japão na última rodada da primeira fase. Com uma mão ele segura o copo de uísque. A outra fica pousada na coxa da moça, que agora pode acompanhar a partida.

Apesar do aumento do interesse feminino nos últimos anos, a Copa do Mundo e o futebol é um território masculino. Não por nada a Alemanha "importou" do Leste Europeu mais de 40 mil prostitutas, que estão fazendo hora-extra para relaxar torcedores no pré-jogo e festejar no pós-jogo e pós-bebedeira. Organizações feministas da Suécia e dos EUA chegaram a pedir às seleções locais para que não disputassem o torneio porque o país-sede legalizou a prostituição em 2002 e as aproximadamente 400 mil profissionais têm direito ao seguro público de saúde.


Rodrigo Bertolotto/UOL



No escurinho, stripper dança na frente de telão mostrando jogada dos croatas

Assistir aos jogos em um prostíbulo, porém, requer um grau de concentração. Durante todo o jogo de estréia do Brasil, a loira oxigenada Michelle tentava chamar a atenção tocando um apito e gritando pênalti até para faltas no meio-campo. "Foi pênalti", argumenta com os potenciais clientes. "E eu entendo de futebol, viu?", emenda.

Enquanto Cafu corre pela ponta direita, Talita em sua micro-saia verde-e-amarela cai pela lateral esquerda do balcão, desviando o olhar dos frequentadores. Pela roupa social, dá para ver que são grupos que acabaram de sair do trabalho aproveitando o almoço que virou happy hour no meio da semana. Um que outro até esqueceu de tirar o crachá pendurado por cordão no pescoço. "Minha mulher acha que eu estou em algum bar perto do serviço. Aproveitei a Copa para pular a cerca", confessa Jonas (nome fictício).

O segundo tempo se arrasta, e um cliente grisalho simula uma empolgação, gritando "Brasil, olé olé olá" para poder partir para o abraço na garota tipo "brasileirinha" que passa ao lado. Surge uma vibração quando Robinho entra em campo, mas o motivo não é o atacante: algumas moçoilas trazem as esperadas picanhas, prometidas pelo cartaz na fachada.

O juiz apita o final. No telão, um close de Zagallo beijando o goleiro reserva Julio César. O rapaz com o crachá se inspira e pula para cima da mulata que estava dando sopa durante os 90 minutos regulamentares.

Acabado o futebol começa outra modalidade: o jogo da sedução. No caso, sedução monetária. E entram as titulares em campo. Um exército de garotas ainda em trajes civis adentram na casa carregando malas. Em meia-hora, voltam com o uniforme de trabalho: biquínis e tops com as cores nacionais para despertar a volúpia patriótica. O número de profissionais triplica no salão, e os comentários sobre o jogo duram pouco.


Reprodução



Boate na rua Augusta usa Mundial e as festas juninas para atrair clientela

Se no inferninho de luxo a companhia feminina aumentou a atração do jogo morno, na boate da rua Augusta, homens e mulheres ficaram em arquibancadas (ou sofás) separados. Os neons estão desligados e a trilha sonora é a voz de Galvão Bueno. De um lado, oito homens pediam Juninho e Rogério Ceni em campo. "Tira o Ronaldo, ele está mais gordo que eu", grita um senhor rechonchudo. Do outro lado, três garotas se encolhem de tensão porque a pressão é só croata. "Estou até com a mão suada de tão nervosa", diz Clara.

Nada de programa durante a partida. "O cliente não quer perder nenhum gol. Pode até querer acabar o programa rápido para voltar para assistir", argumenta Clara, três anos na profissão e, portanto, sua primeira Copa em uma boate. A colega Aline arrisca até uma análise da partida. "Os croatas estão jogando bem fechados. O Brasil não consegue levar perigo", comenta. Foi só falar e Kaká chuta e marca o único gol brasileiro na estréia da Copa. Aline, 21, pega o celular e liga para o filho de quatro anos para comemorar com ele.

lunes, 12 de junio de 2006

Enfim, um abismo?

"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi."

Tanto que tudo mudou. Ou, pelo menos, ameaça com gostosa firmeza de que mudará.

E apesar do cansaço do corpo, da ansiedade, da alguma dúvida que sempre restará, do medo que insiste em se esconder, apesar de cada pequeno e breve momento que se interpõe entre agora e depois, não caibo em mim de felicidade.

Uma felicidade que há muito não sentia. E que nada mais é do que a certeza dos sonhos. E a visão do abismo.

Me jogo.

martes, 6 de junio de 2006

In a little while this hurt will hurt no more...

Fazia tempo que ela não comentava nada. Achava mesmo que tivesse me esquecido.

Eu não a esqueci. E foi justamente quando acabava de ler seus últimos desabafos e retornava aqui para gravar algumas impressões, foi justamente então que encontrei seu rastro.

Ah, querida amiga. A vida às vezes parece um eterno "Tão Longe, Tão Perto"...

Sabe, tenho que te contar que há outra árvore que ameaça cair. Não. Ameaça soltar-se, desprender-se.

Mas não se entristeça. Esta não vai confortar-se na previsibilidade dos dias. Ao contrário. Vai em busca do inesperado, do imprevisível, do novo - que nunca é novo e entretanto sempre o é.

Sempre virando-se para o sol, cansou-se do esplendor deste jardim exótico mas, ainda assim, jardim. Cansou-se da beleza cultivada. E quer sair ao encontro do que é realmente belo, porque é humano e é sublime. Quer encontrar-se com o essencial. Consigo mesma. Com a seiva, os sulcos e a massa.

Quer ir longe para descobrir-se perto. Mais perto de si mesmo.

Será uma fuga. Mas também um resgaste. De algo que se perdeu e não se deve.

"In a little while this hurt will hurt no more". There will be another hurt. The hurt of being alive. The only one which is worth suffering. For it is pleasure.

domingo, 4 de junio de 2006

Espero, ansiosamente, a realização de uma promessa

Espero ansiosamente a realização de uma promessa. Trata-se de uma padaria. Ou algo similar.

Moro em um condomínio. Um condomínio modesto, de kitnets. Lugar agradável, com entrada para o Parque da Cidade. Habitado sobretudo por solteiros. Entre uma igreja e uma escola.

Isso é em Brasília. Asa Sul, Plano Piloto. Uma realidade confortável, longe da violências de outras grandes metrópoles. Longe do conflito social: que em Brasília se esconde nas cidades-satélite... E, na minha vida pacata, suficientemente distante da nojenta esfera polítiqueira que a todos nós assombra.

Neste recanto, eis que, há algumas semanas, anunciaram, em faixa amarela fosforecente, letras vermelhas: Em breve, pães e conveniência. Sorri só de imaginar o cheiro do pão. Claro que sonhava: não há ali espaço para confeccionarem o pão. Certamente o trarão de lugar mais ou menos distante. O colocarão ali à venda e nós rezaremos para ter a sorte de recebê-lo ainda fresquinho, crocante.

Mas, mesmo sem cheiro, é uma alegria. Uma pequena alegria, assim como minhas torradas... Agora, pensando cá com meus botões, vejo que é uma outra pequena alegria que, por fim, acabará substituindo outras - as torradas. Afinal, tendo ao alcance de alguns pequenos passos no trajeto diário de recolhimento do meu jornal na portaria a possibilidade de, na volta, trazer um ou dois pãezinhos frescos para o desjejum, por que insistiria eu em comer torradas? Mas bem, isso é menos relevante. Mesmo porque, humano como também sou, um dia, por mau humor ou pela alegria de um sol morno, me apetecerão mais as torradas... Não há sentido na competição entre pequenas alegrias. Enfim.

Espero pois ansiosamente a realização de uma promessa. A abertura da padaria. Ou, melhor, do estabelecimento que me venderá pães e conveniências. Sigo atento, quase diariamente, ao menor sinal de avanço nas obras. Com alguma inquietação, constato que as coisas não parecem avançar no melhor dos ritmos... Lembra-me a economia brasileira nos últimos anos... Estarão quiçás resolvendo formalidades... A terrível burocracia, talvez. Foi no Peru que abriram um comércio fictício para ver quanto tempo seria necessário até a autorização para o funcionamento? Acho que foi no Peru. Acho até que era Vargas Llosa que estava envolvido nessa história... Seja como for, não acredito haver parelelos entre aquela experiência e meu estabelecimento de pães e conveniências.

No qual espero, ansiosamente, comprar-me as conveniências necessárias para, a cada dia, livrar-me das inconvenientes tristezas. Ou, menos ambicioso, comprar simplesmente o pão, fresquinho, crocante.

viernes, 2 de junio de 2006

A Medida do Abismo

"Não é o grito

A medida do abismo?

Por isso eu grito

Toda vez que cismo

Sobre sua vida

Tão louca e errada...

- Que grito inútil!

- Que imenso nada!"

 

Vinícius de Moraes

 

Ah, eu também quero gritar. E ver quanto tempo o eco de minha voz leva para retumbar de novo em meus ouvidos. Um grito desesperado, forte. Quase selvagem. Quase primitivo.

Quero regressar àquilo que um dia todos fomos. E mesclar-me à matéria das coisas.

Sentir a matéria das coisas. Sentir-me parte do tudo.

 

Ah! Quanta coisa me atormenta nessa vastidão de nada. Um desejo insano, incontrolável de beijar aqueles lábios. A busca incessante por aqueles olhos. Pela pele, o cheiro, um sorriso tímido que se anuncia atrevido, os braços que envolvem para um nunca mais soltar...

 

Ah! A busca, a busca! Pela jovialidade que já em mim não tenho! Por essa água benta que há de lavar de mim toda essa razão, essa rigidez, as formas duras do concreto.

 

E encontrar-me então - assim de repente numa surpresa quase inevitável - tão dependente dela. Seu refém. Justo dela. Que ao mundo nos entregamos, sem saber que nos prendíamos ainda mais ao outro.

 

Tenho ao final um medo. De então descobrir que só o nada me resta. E minhas ilusões, com tanto esmero construídas, alimentadas como um pássaro doente, um cada pequeno gesto, palavra curta, jogadas violentamente ao chão. Ou pior, esvaídas como inodora fumaça. E não sobrar-me além da realidade crua. Esta que tanto busquei. E que é só.