"Não é o grito
A medida do abismo?
Por isso eu grito
Toda vez que cismo
Sobre sua vida
Tão louca e errada...
- Que grito inútil!
- Que imenso nada!"
Vinícius de Moraes
Ah, eu também quero gritar. E ver quanto tempo o eco de minha voz leva para retumbar de novo em meus ouvidos. Um grito desesperado, forte. Quase selvagem. Quase primitivo.
Quero regressar àquilo que um dia todos fomos. E mesclar-me à matéria das coisas.
Sentir a matéria das coisas. Sentir-me parte do tudo.
Ah! Quanta coisa me atormenta nessa vastidão de nada. Um desejo insano, incontrolável de beijar aqueles lábios. A busca incessante por aqueles olhos. Pela pele, o cheiro, um sorriso tímido que se anuncia atrevido, os braços que envolvem para um nunca mais soltar...
Ah! A busca, a busca! Pela jovialidade que já em mim não tenho! Por essa água benta que há de lavar de mim toda essa razão, essa rigidez, as formas duras do concreto.
E encontrar-me então - assim de repente numa surpresa quase inevitável - tão dependente dela. Seu refém. Justo dela. Que ao mundo nos entregamos, sem saber que nos prendíamos ainda mais ao outro.
Tenho ao final um medo. De então descobrir que só o nada me resta. E minhas ilusões, com tanto esmero construídas, alimentadas como um pássaro doente, um cada pequeno gesto, palavra curta, jogadas violentamente ao chão. Ou pior, esvaídas como inodora fumaça. E não sobrar-me além da realidade crua. Esta que tanto busquei. E que é só.
No hay comentarios.:
Publicar un comentario