Quem já morou em Buenos Aires sabe o que significa sair para cortar cabelo. Se a pessoa tem cabelo encaracolado, então, as descrição mais sintética que há para este sentimento é: terror e pânico. Vinte minutos de passeio por uma avenida movimentada como a Santa Fé são suficientes para dar-se conta do que descrevo. Uma incursão na noite portenha certamente levaria a um diagnóstico ainda mais severo...
Pois bem... Sabem aquele cabelo que vai crescendo na nuca e que entrega de cara que há alguns meses que vc viu a tesoura pela última vez? Eu sei, mas, tenho por dois anos mantido meu cabelo comprido, quase já não sabia o que era isso... Dei-me às voltas com esse incômodo sentimento nos últimos dias... Olhava no espelho, passava a mão, pensava... A seqüência inevitável era um suor frio brotando pelo corpo só de pensar em sentar em frente a um peluquero porteño... Titubeei várias vezes. Pensei em adotar uma solução caseira, remediar com meu barbeador... Por fim, pensei: não pode ser tão mau assim... "Hacete hombre, che!" Y bueno...
O Bola havia me indicado O lugar. "Marcelo T. y Riobamba - vai lá!". O Bola sabe o que diz... e me empolguei com a cera que ele comprou no dito lugar e que parecia fazer milagres. Na pior das hipóteses, cresce... Tomei coragem e fui.
Coolcuts se chama o bendito lugar. Música féshion, mulheres e homens féshion, sofá verde-limão féshion coberto de revistas féshion... Em Buenos Aires tudo é féshion... "Con onda"... Menos o café que me serviram. Que, aliás, era bem argentino. O menininho féshion lavou me cabelo e me deixou esperando pelo outro rapaz que ia cortar meu cabelo. Óculos de armação vermelha, féshion. E boné. Desconfiei...
"Cómo hacemos?". Odeio essa pergunta. Acho que é por isso que gostava do Luciano de Brasília... Minha vontade era dizer: corta só o pé e tá massa... Mas sempre achei o fim sair para cortar cabelo e voltar como se nada tivesse acontecido. Além do mais, era indicação do Bola e o Bola tinha me mandado para o lugar mais féshion de BsAs... Respirei fundo... "Qué podríamos hacer?". Erro. Daí pra frente, tudo previsível. Tesoura vai, vem, volta, corta, repica... Não tem mais jeito... Aquele sentimento de que você fez merda. Cagaram na sua cabeça.
Ele tenta salvar. "Pará que pongo un poco de cera". Ah! A cera! Vai me salvar. Esquenta com o secador (preciso esquentar também para tirar depois?), passa na mão, passa no cabelo e voilà. Todos te olham. Elogiam. E você tem aquela sensação de que cada palavra é meticulosamente calculada.
Passa ao caixa. O preço também é féshion. Pede cera. Tentam te vender outra coisa, mas você acha que sabe o que está pedindo. Chamam a Eddy, o peluquero féshion responsável pela obra de arte que você agora ostenta pelas ruas da cidade, e ele diz qual é a cera certa... Péssima notícia: não vendem mais a cera que tinham... O salão féshion tá virando mega féshion e o processo de ampliação envolve uma nova linha de produtos. Dá-lhe outra cera: igualzinha à outra, mas mais féshion. Made in NYC... Vem a conta. Mega hype. E você pensa: claro, indicação do Bola...
E sai caminhando pela rua, tentando se olhar nas vitrines.
E pensa que agora você quase pode fazer-se passar por um portenho. Um pouquinho menos, e talvez paulista...
(Preciso agora de um óculos féshion, calças féshion e camisetas féshion. Não dá para usar esse cabelo com meus jeans básico e minha camiseta Hering...)
Ps: to all fashion lovers: nothing against you - you're cute - but I'm just not one of you!
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