Sabe aquela menina para casar?
Eu sei. Vivo com uma.
Linda, divertida. Adora limpar a casa. Não cozinha muito bem, mas até nisso ela é perfeita - afinal, eu cozinho. Adora seus amigos e seus amigos a adoram. Sempre recebe gente em casa e prepara tudo para recebê-los da melhor maneira possível. É confidente, estudiosa, tem ambições. Perfeita.
Perfeito, não?
Pois então. Eu moro como com uma e te pergunto se você não quer levar para você.
É que eu... Ah, meus amores... Eu não sirvo para a perfeição. Eu sou imperfeito demais... Eu sou um saco. Mas fazer o quê? Sou assim... E não: não guardaram meu ticket de garantia... Por mais que me esforce, acho que morrerei assim. Já tentei, mas não adianta. Não tem remédio.
Você não imagina como alguém como eu pode se sentir uma merda em presença da perfeição. Ainda pior em frente à perfeição feliz, que arruma a casa para receber visitas... Meu mau humor não entra em seu esquema. Minha toalha (quadriculada que não combina com a azul dela e que, portanto, foi parar em algum lugar longe da vista alheia) não entra em seu esquema. O abacate da minha salada (muito pesado) não entra no seu esquema. Minhas perversões, meu amor pelo caos, minha insanidade... Não entram em seu esquema. Enfim. Eu não entro em seu esquema. E nunca entrarei, por mais que aperte, aperte, aperte...
Mas me esforço para poder ao menos conviver com essa perfeição. Andando com cuidado. Não quero romper o vidro. Não quero contaminar o ar que rodeia essa perfeição. E, ainda que quisesse - que pretensão a minha - talvez nunca conseguisse. Sou tão somente um pária mais!!!
Mas é difícil. Ai, é difícil controlar a besta que vive dentro de mim.
Eis que vejo-me lutando novamente contra minha insônia. Esse tormento que carrego há alguns anos comigo. Havia muito que não me perturbava, mas voltou. Não: não sou desses que passa a noite em claro. Mas me custa dormir e acordo várias vezes no meio da noite. Qualidade de sono? Acho que chamam assim. Pois é, não tenho. Me levanto cansado, já cedo, e entro no piloto automático. Manhãs lentas e improdutivas. Café ou mate, jornais e coisas fúteis. Muito sono. Mau humor, naturalmente. A hora depois do almoço é uma tentativa de tentar repor o cansaço que a noite não levou. Uma hora encostado, tentando fechar os olhos, tentando dormir. No máximo, um cochilo. E um novo levantar cansado, mas já mais animado, que deve servir para chegar até o fim do dia. E começa tudo novamente.
Assim foi hoje. Noite horrível, manhã no supermercado. Miss Perfeição frustra meu cardápio de almoço - não farei peixe para mim, o faremos para os convidados perfeitos que virão a noite. Como minha salada com abacate - pesado para o estômago perfeito, mas que cai leve na minha fossa sanitária. E tento dormir. Persianas abaixo, cara metida no travesseiro. Rolo, penso, penso, penso. Já é hora de levantar. Preciso de um chá.
Vou à cozinha e a perfeição ocupa todo o espaço no esmerado exercício de preparar manjares com que receberá seus convidados. Chá, chá. Sim, chá.
- Sabe de uma coisa? Acho que talvez essas siestas sejam a razão da sua insônia...
- Acho que não.
Volto para o quarto.
Miss Perfeição não entende nada. A perfeição jamais compreenderá o imperfeito.
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