É mais comum do que se imagina escutar essa frase por aqui... Os argentinos, aliás, gostam bastante de frases de efeito. ¡Qué se vayan todos! era o lema da corrente política do atual presidente - antes de ganhar as eleicoes, é claro... Mas ¡están todos locos! antecede esse período, acho... O fato é que às vezes se tem a impressao de que é realmente assim. A insanidade corre solta. E eu me divirto. A normalidade é muito chata...
Pois bem. Levantei-me (arrastei-me até o chuveiro seria mais preciso) às seis da manha. Na noite anterior já havia me arrependido de me haver disposto a colaborar (di grátis) em um evento que organizam uns conhecidos... Supostamente, um encontro de jóvens políticos latino-americanos. Sim, a insanidade já comeca aí... Trata-se de um evento de três dias que reúne umas poucas dezenas de jovens (nao me perguntem até que idade se é jovem) de dez países da regiao. Na programacao anunciavam também a presenca de "delegados" dos Estados Unidos, Canadá, Franca e Espanha. Na qualidade de observadores, naturalmente... O evento acontece cada dia em um lugar diferente. Hoje, no Congresso, amanha na Chancelaria e, depois, no Ministério da Cultura. Acho chique. Bem como os ternos e vestidos e penteados dos jovens que atendem a tais eventos. Engracado: os jovens políticos se vestem à imagem e semelhanca dos políticos velhos. Algumas vezes, os cabelos sao distintos... Eu também fui com meu terno e minha gravata. Deus me livre ser diferente!!!
O tema central de todo o evento, como se podia imaginar, era integracao regional. Falou um Senador... Presidente da Comissao de Infra-estructura... Demorei anos para entender porque as pessoas disputavam a tapa esse cargo no Brasil. Até ver as planilhas do Orcamento, quando minhas dúvidas diminuíram (até desaparecer completamente quando se ameacei entender - porque sao impossíveis de entender-se - os complexos esquemas de desvio, superfaturamento, etc...). O tiozinho nos brindou com o velho clichê de que os jovens sao o futuro do país. Suponho que por medo de que os presentes quisessem ocupar imediatamente o seu lugar. Mas depois corrigiu dizendo que o futuro é hoje. E eu fiquei tentando entender...
O Secretário-Geral (acho esse termo tao soviético... Nunca entendi como os EUA permitiram que se usasse essa nomenclatura nos organismos internacionais...) de uma suposta organizacao ibero-americana para a juventude - a que nunca fui convidado a participar, apesar de ibero-americo e jovem - confessou que os políticos "chegamos" atrasados nessa história de integracao... Fiquei na dúvida entre a concordância ideológica e o grau de lucidez da afirmacao... Depois veio o presidente da Fundacao, que é como chamam as ONG´s daqui (e também as Fundacoes...) e de repente a integracao era ao mesmo tempo inevitável e necessária, já que as forcas inovadoras do novo mundo sao o comércio, a tecnologia e os investimentos... Tudo uma questao de escala, segundo ele.
Os jovens delegados se manifestaram em seguida. Sete minutos "de reloj" para cada um. Achei digno - parece que todo mundo concordou. Concordaram também sobre a inevitabilidade, sobre o atraso dos políticos, sobre a unidade linguística e cultural da América Latina.
O que parece que ninguém viu é que meu compatriota brasileiro nao falou em espanhol, mas em português. E, cá entre nós, d-u-v-i-d-o que os hispano-hablantes entenderam 50% das palavras rebuscadas e pronunciadas em tom parlamentar do prezado colega. Mas ninguém questiona a unidade lingüística: nem mesmo os paraguaios ou os bolivianos... Tampouco questionam a unidade cultural, segundo eles, de matriz católica, sob a qual exisitiriam subculturas igualmente importantes. Nao importa se sub implica inferior, implicada diferenca, implica segragacao. Nada é capaz de diminuir o tom de obviedade com o qual defendiam a unidade de nossas raízes latino-americanas, herdadas da "madre pátria" - e de Portugal, para corregir a gafe. Ia além. Uruguaios nao pareciam se recordar que se opuseram a negociar conjuntamente com outros países do Mercosul, relacionando-se diretamente com a Uniao Européia. Argentina e Chile esqueceram que há pouco se safaram de um conflito sério por causa de representacoes cartográficas em livros escolares. Em total disritmia com seus governos nacionais, Argentina e Venezuela proclamavam a supremacia de uma só América, incluindo Estados Unidos... Claro que nada tao claro, claro que nada tao direto, claro que nada tao bruto. Ainda assim, insólito.
E mais insólito imaginar que um grupo de jovens majoritariamente de direita acatassem de maneira acrítica um argumento apresentado por um nao-jovem declaradamente de direita para quem a integracao nao é um imperativo moral ou filosófico, mas consequência da inevitável evolucao econômica. Podia ser Marx citado. Ou Lenin.
Nao: a integracao nao é inevitável. Nem é necessária por motivos ecônomicos. A integracao é uma escolha. É uma aposta. Uma aposta no direito de mobilidade das pessoas. Uma aposta na solidariedade entre os povos. Uma aposta na convivênca pacifica entre os diversos. Uma aposta no politico. E talvez os esforcos latino-americanos tenham falhado justamente porque os que antes eram jovens tenham acreditado que o político era mera extensao do econômico... Acreditado em mentiras lindas e absurdas. Quisera que todos os jovens fôssemos surdos! Porque loucos já estamos todos...
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