lunes, 31 de octubre de 2005

Para um dia apenas, um pouco de poesia...

"Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu"...


Nem partir, nem morrer. Estancado, talvez. Mas há realmente dias em que melhor quiças fosse, realmente, não ceder ao tocar insistente do dspertador, não se meter forçosa e mecanicamente em baixo do chuveiro, não empurrar goela abaixo goles grandes de café espesso... Há dias em que talvez fosse melhor ficar em casa e dormir. E acordar, e ler um bom livro... Para, assim, sentir que, sim, o tempo passa - vagaroso, nas folhas das árvores, no gato que se espreita à beirada da cama...


Há dias em que a vida parece não ter sentido. Mas não é que falte sentido à vida. É que o sentido é tão simples que não precisa de todos os dias para caber... O sentido da vida é ser. É estar vivo. Aqui estou, cumprindo-o... Hoje, somente isso. Amanhã, talvez, algo mais.


 



Natal na Ilha do Nanja


Cecília Meireles



Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos próprios" e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim.
 
Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.
 
Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: "Boas Festas! Boas Festas!"
 
E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!
 
Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.
 
Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com. pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.
 
É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.

domingo, 23 de octubre de 2005

Decepção...

Estou bastante chateado... Acabo de descobrir que a quase totalidade da minha família votou Não no referendo sobre a proibição do comércio de armas... Nunca pensei que isso fosse ser assim... Talvez mostre o quanto estivemos distantes ultimamente. Talvez reflita um fosso ainda maior na maneira como vemos o mundo... Enfim, fico triste... Acho que o Não vai ganhar e acho que isso é um sinal de como os brasileiros temos a violência, a força, internalizada, banalizada... Preservar o direito de tirar a vida de alguém em " legítima defesa"... Eu acreditava que essa questão já estivesse resolvida quando decidimos formar uma sociedade... Mas parece que voltamos ao estado de natureza hobbesiano, de vida curta, bruta e pobre...

Fico triste também porque não votei. Meu título sendo de BH, tive que justificar. Aproveitei para voltar à UnB e rever os prédios onde costumava ter aulas... Justifiquei o voto na FA, onde passava a maior parte do tempo. Do lado de fora, no estacionamento, havia uma faixa amarela indicando local de votação (na verdade, incitando os faltosos a justificarem ali sua ausência...) De dentro do carro, o retrovisor me sugeria uma, não contradição, mas, pelo menos, polêmica... Um dos bancos de concreto tinha pintado um anúncio publicitário de uma loja de pára-brisas... O "garoto-propaganda" era o Che... E, no meu enquadramento, o Che aparecia ao lado da faixa amarela, tão ligada ao referendo, à "democracia"... Achei interessante... Registrei...

 

A manhã passou tranquila, entre "mates y recuerdos", revisitas a lugares tão conhecidos, pensamentos tâo soltos, sorrisos que lembravam risadas... Depois, Poço Azul com uns amigos do Henrique, colegas da faculdade... Mato, cachoeira, trilha... Descobrir os medos, lutar com eles... Pensar nas limitações do corpo... E naquelas que a alma impõe.

Ao cair da tarde, a chuva vem refrescar a noite... Comida de ontem, requentada, gostosa... Dentes e língua que formam o pão e me renovam as forças para a semana que começa... com prenúncios de tormenta...

sábado, 22 de octubre de 2005

Receita de sábado

Hoje é um sábado de preguiça, de vontade de ficar em casa... Levantei cedo, fui ao curso, que, finalmente, se aproxima do final... Na volta pra casa, passei no supermercado... Vontade de comer carninha com quiabo. Coisa de mineiro... Enfim, não era o meu dia. Um velhinho simpático comprou o último pacote de quiabo... É, aqui em Brasília quiabo é vendido em pacote... Olhei em volta, pensei, pensei... Vontade então de comer abobrinha... E não é que abobrinha aqui também é vendida em pacote? A brasileira, porque a japonesa tem a granel mesmo... Mas como nunca comi abobrinha japonesa... Mas não tem nada não. Comprei o pacote de abobrinha brasileira... De lambuja, acabei levando uma beringela, cebola e cenoura... Não é que a coisa deu certo? Quem se animar, copia:

Refoguei meia cebola picada no azeite. Joguei a abobrinha cortada em meia rodela. Não pode ser pouca abobrinha não. Piquei quatro pequenininhas, mas acho que uma de tamanho decente daria... Comecei a reforgar a aborbrinha. Depois que ela soltou bastante da baba, joguei a beringela, que eu tinha cortado em cubos de deixado na salmoura por uns trinta minutos. Comecei a temperar com uma coisinha que tenho aqui que tem pimenta e limão. Muito bom. Joguei sal também... Quando a beringela já tinha soltado bastante água, joguei a cenoura, cortada em cubinhos pequenos. Acrescentei meio quilo de carne moída, joguei shoyu e então foi aquilo de mexer, deixar descansar um pouco, mexer de volta, deixar, tornar a mexer, enfim. Olhei o tempero... Tava faltando alguma coisa... Duas malaguetas pá' dentro... Hummm, agora sim esse troço fica bom... Começou a secar muito sem a carne ter cozinhado direitinho, coloquei um pouco de água e voltei ao processo mexe, remexe... Um tempinho depois... Bom demais da conta... Com um arrozinho - com bastante cebola, que o bobão aqui deixou quemar um pouco... Humm... Tudo bem que a vontade da carninha com quiabo e angú não passou... Mas esse mexidão ficou bom... To registrando que é para passar pra Mariângela depois... Ah: podia ter acrescentado alho, ou no arroz ou na carne... mas meu alho tava muito velho... fica pra próxima...

Sobrou bastante... Acho que tenho comida até segunda... hehehe

 

jueves, 20 de octubre de 2005

Drummond e o desarmamento

O poeta morreu, mas ainda bem que os versos continuam. Não é segredo que não sou nenhum grande admirador de Drummond, mas há coisas simplesmente belas... Um dos meus favoritos é "Os Ombros Suportam o Mundo"... Mas este que recebi hoje é também fabuloso... Muito pertinente, considerando o momento surreal pelo qual estamos passando no país. Um momento em que grande parte da população parece indiferente ao valor simbólico das armas. Infelizmente, não estarei em BH para votar no referendo. Mas meu voto é, sem dúvida, SIM.É, antes de tudo, um ato simbólico. Um voto de confiança à construção da paz e um voto de rejeição da violência, da destruição niilista, da morte...

Acho que Drummond foi feliz em seus versos...

 


A Morte do Leiteiro


 


Carlos Drummond de Andrade


(a Cyro Novaes)


 


Há pouco leite no país,


é preciso entregá-lo cedo.


Há muita sede no país,


é preciso entregá-lo cedo.


Há no país uma legenda,


que ladrão se mata com tiro.


Então o moço que é leiteiro


de madrugada com sua lata


sai correndo e distribuindo


leite bom para gente ruim.


Sua lata, suas garrafas


e seus sapatos de borracha


vão dizendo aos homens no sono


que alguém acordou cedinho


e veio do último subúrbio


trazer o leite mais frio


e mais alvo da melhor vaca


para todos criarem força


na luta brava da cidade.


 


Na mão a garrafa branca


não tem tempo de dizer


as coisas que lhe atribuo


nem o moço leiteiro ignaro,


morados na Rua Namur,


empregado no entreposto,


com 21 anos de idade,


sabe lá o que seja impulso


de humana compreensão.


E já que tem pressa, o corpo


vai deixando à beira das casas


uma apenas mercadoria.


 


E como a porta dos fundos


também escondesse gente


que aspira ao pouco de leite


disponível em nosso tempo,


avancemos por esse beco,


peguemos o corredor,


depositemos o litro...


Sem fazer barulho, é claro,


que barulho nada resolve.


 


Meu leiteiro tão sutil


de passo maneiro e leve,


antes desliza que marcha.


É certo que algum rumor


sempre se faz: passo errado,


vaso de flor no caminho,


cão latindo por princípio,


ou um gato quizilento.


E há sempre um senhor que acorda,


resmunga e torna a dormir.


 


Mas este acordou em pânico


(ladrões infestam o bairro),


não quis saber de mais nada.


O revólver da gaveta


saltou para sua mão.


Ladrão? se pega com tiro.


Os tiros na madrugada


liquidaram meu leiteiro.


Se era noivo, se era virgem,


se era alegre, se era bom,


não sei,


é tarde para saber.


 


Mas o homem perdeu o sono


de todo, e foge pra rua.


Meu Deus, matei um inocente.


Bala que mata gatuno


também serve pra furtar


a vida de nosso irmão.


Quem quiser que chame médico,


polícia não bota a mão


neste filho de meu pai.


Está salva a propriedade.


A noite geral prossegue,


a manhã custa a chegar,


mas o leiteiro


estatelado, ao relento,


perdeu a pressa que tinha.


 


Da garrafa estilhaçada,


no ladrilho já sereno


escorre uma coisa espessa


que é leite, sangue... não sei.


Por entre objetos confusos,


mal redimidos da noite,


duas cores se procuram,


suavemente se tocam,


amorosamente se enlaçam,


formando um terceiro tom


a que chamamos aurora.


 


 


Fonte: Antologia Poética - Editora Record, 40ª edição,


página 134

Para empezar...

Me envió hoy un querido amigo unos versos de Salvador Luis, un poeta de Perú que yo desconocía, pero que de pronto pasé a admirar... Los versos destacados por mi amigo son el cuento "el señor riberyo", que copio abajo...

La identificación fue inevitable... Me hizo acordar además de José Régio, otro de mis poetas favoritos.

A quienes les plazca, visiten www.salvadorluis.net.

 

 



el señor ribeyro


 


--------Presiento que la ausencia del señor Ribeyro no fue planeada con antelación. Me lo indica el estado en que se encuentra su casa. Su máquina de escribir todavía conserva una hoja inconclusa y el cenicero de cristal permanece sobre su escritorio atestado de colillas y cerillos consumidos. Todo esto me da mala espina.


- "Avanzo, libre, hacia el río, con mi cabeza de oso en la mano, decapitado, feliz. Atrás, sólo la tienda iluminada del circo. En el circo, Marcial, Max, Irma, Kong, los soldados meones, todo enterrado, todo olvidado. Avanzo hacia el agua, sereno al fin, a hundirme en ella, a cruzar la selva, tal vez a construir una ciudad. Merezco todo eso por mi fuerza. No me arrepiento de nada. Soy el vencedor."
- ¿Hasta cuándo piensas recitar ese párrafo?
- No lo sé. Tal vez hasta que te canses.
- Bueno, si de mí depende, entonces ya tuve suficiente.
- ¿Te sangran las orejas?
- Por supuesto que no.
- Entonces todavía no has tenido suficiente, pedazo de mierda... "Si esas luces de atrás son antorchas, si esos ruidos que cruzan el aire son ladridos, tanto peor. Los llevo hacia la violencia, es decir, hacia su propio..."



A pesar de que el señor Ribeyro es un fumador contumaz, sé que es un hombre muy quisquilloso cuando se trata de la limpieza de su cenicero; me niego a pensar que pudo partir sin siquiera arrojar los restos de su vicio al cesto de la basura. No es usual en él. Simplemente, no es su estilo.



- ¿Me permites fumar?
- Ya te dije que no. Este no es uno de tus cuentos, ¿está claro? Aquí se hace lo que a mí me parece.
- Sí, ya lo entendí. Pero hasta el momento no sé qué cosa quieres.
- "Si esas luces de atrás son antorchas, si esos ruidos que cruzan el aire son..."
- ¡Basta!
- "¡Si esas luces de atrás son antorchas! ¡Si esos ruidos que cruzan el aire son ladridos, tanto peor! ¡Los llevo hacia la violencia, es decir, hacia su propio exterminio! ¡Yo avanzo! ¡Rodeado de insectos, de raíces, de fuerzas de la naturaleza! ¡Yo mismo soy una fuerza y avanzo aunque no haya camino! ¡Me hago un camino avanzando!" ¡Me hago un camino avanzando!
- Repítela un millón de veces si quieres. No, mejor aún, un billón. Quizá para ese momento ya me sangren los tímpanos.
- Qué gracioso, imbécil.



Además, ese ventilador portátil gira persistentemente, revolución tras revolución, como si le urgiese un breve respiro. Y hay una taza llena de café sobre el tablero, también tostadas endurecidas en el horno, y si no me equivoco, me pareció ver la ventana del baño abierta. Definitivamente, el televisor está encendido, de eso no me cabe la menor duda porque ese comercial de dentífrico lo conozco como si fuera mi palma.



- La verdad, no sé por qué vine a buscarte.
- Claro que lo sabes. Me buscas porque me tienes miedo. No soportas que yo ande suelto por ahí.
- Será mejor que me vaya. Ya me aburriste.
- Como tú quieras, pero te prometo que no te vas a librar de mí. No te vas a librar de mí hasta que hagas lo justo.
- Sabes perfectamente que no puedo hacer eso.
- ¡Claro que puedes! Si puedes hacer que Irma aguante el peso de Marcial todas las noches, si puedes hacer que el oso agonice en su jaula, que el teniente Sordi olvide su pistola en el cuartel, entonces puedes matarme, una y mil veces si te da la gana.



Otra razón que me lleva a especular acerca de su partida es la ostensible molestia de Madame Pichot. La pobre mujer lleva dos días esperando al señor Ribeyro, pues éste le prometió merendar con ella y echarle un vistazo a una carta que, según la regordeta señora, el mismísimo Guy de Maupassant le envió a su abuelo materno allá por el siglo XIX. No sé si será cierto, pero tampoco me incumbe. En todo caso, lo que es verdaderamente preponderante es el intempestivo viaje del señor Riberyo.



- ¿Viniste solamente para pedirme que te mate?
- Vine porque quiero que se haga justicia. ¡Yo no pienso pudrirme en esa selva para siempre! ¡Tú me vas a matar!
- Ya te dije que no.
- ¡Tienes que hacerlo! ¡Ya no aguanto más ese lodazal, ni el calor, ni toda esa vida de mierda!
- Me largo de aquí. Déjame pasar.
- ¡Tú no sabes lo que es estar en esa selva, Ribeyro! ¡No lo sabes! ¡Cada vez que alguien lee esas páginas Irma se compadece a sí misma! ¡Y es tan hermosa! ¿Por qué la hiciste así de bella? ¡Y Max, y Kong, y todos esos soldados inútiles! ¡Tú dices que yo soy una fuerza, que soy el vencedor, y es a mí al que vencieron! ¡Es a mí! ¡Pero mi sufrimiento nunca acaba, se repite cada vez que abren el libro, se repetirá por siempre, y todo porque no quisiste matarme!



¿Por qué se fue sin cargar equipaje? Monsieur Baruch dice que el martes pasado lo vio tomar un taxi con las manos vacías. ¿A dónde pudo haber ido el señor Ribeyro? La sobria hoja que dejó en su máquina de escribir solamente muestra una decena de efes y enes y repetidas equis.



- No seas melodramático, Fénix. Es sólo un cuento.
- ¡Tú sabes que no es así! ¡Tú sabes que no es sólo un cuento porque yo estoy vivo! ¡Necesito morir, Ribeyro! ¡Cambia el final!
- No. El cuento se va a quedar tal y como está. Muerto no me sirves.
- ¡Mátame, hijo de puta! ¡Di que una serpiente me mordió en el río! ¡Que Sordi me pegó un balazo!
- ¡El cuento se queda tal y como está, Fénix!
- ¡Si pudiera partirte el pescuezo, lo haría sin pensarlo dos veces!



No sé si deba dar parte a la policía. Los vecinos están un poco intrigados, pero el casero todavía no da por desaparecido al señor Ribeyro. Tal vez ya esté por regresar y me preocupo sin razón. ¿Qué son unas cuantas colillas en el cenicero, unos cerillos? Voy a esperarlo hasta las cinco. Francamente, no quisiera irme sin el autógrafo que le prometí a Gilda y sin que me responda un par de interrogantes que tengo acerca de ese cuento llamado Fénix.



- Tú eres mi creación y puedo hacer contigo mi antojo.
- Sí. Pero de aquí no saldrás vivo.
- Fénix, no me amenaces. Sabes muy bien que no puedes levantar un solo dedo en mi contra. Eso no está escrito.
- Tal vez yo no pueda hacer eso, pero él sí.
- ¿Él? ¿Quién es él?
- El autor de este cuento te va a matar.
- No sé de qué autor me hablas. Además, si yo muero, tú jamás podrás salir de la selva. Eso no te conviene, Fénix.
- Te equivocas. Si tú mueres, yo continuaré exactamente en el mismo tiempo y espacio donde me encuentro ahora.
- ¿De qué hablas?
- Yo no soy Fénix. Y tú tampoco eres el verdadero señor Ribeyro. Nosotros somos los personajes del cuento número V. Tu nombre es Alfa. Yo me llamo Beta. Cuando Gamma se haga presente, el cuento concluirá.
- ¿Gamma?
- Gamma es tu auténtica Némesis. Por cierto, Alfa, ya no tardas en pedirle por tu vida.




*Basado en Fénix de Julio Ramón Ribeyro