jueves, 20 de octubre de 2005

Drummond e o desarmamento

O poeta morreu, mas ainda bem que os versos continuam. Não é segredo que não sou nenhum grande admirador de Drummond, mas há coisas simplesmente belas... Um dos meus favoritos é "Os Ombros Suportam o Mundo"... Mas este que recebi hoje é também fabuloso... Muito pertinente, considerando o momento surreal pelo qual estamos passando no país. Um momento em que grande parte da população parece indiferente ao valor simbólico das armas. Infelizmente, não estarei em BH para votar no referendo. Mas meu voto é, sem dúvida, SIM.É, antes de tudo, um ato simbólico. Um voto de confiança à construção da paz e um voto de rejeição da violência, da destruição niilista, da morte...

Acho que Drummond foi feliz em seus versos...

 


A Morte do Leiteiro


 


Carlos Drummond de Andrade


(a Cyro Novaes)


 


Há pouco leite no país,


é preciso entregá-lo cedo.


Há muita sede no país,


é preciso entregá-lo cedo.


Há no país uma legenda,


que ladrão se mata com tiro.


Então o moço que é leiteiro


de madrugada com sua lata


sai correndo e distribuindo


leite bom para gente ruim.


Sua lata, suas garrafas


e seus sapatos de borracha


vão dizendo aos homens no sono


que alguém acordou cedinho


e veio do último subúrbio


trazer o leite mais frio


e mais alvo da melhor vaca


para todos criarem força


na luta brava da cidade.


 


Na mão a garrafa branca


não tem tempo de dizer


as coisas que lhe atribuo


nem o moço leiteiro ignaro,


morados na Rua Namur,


empregado no entreposto,


com 21 anos de idade,


sabe lá o que seja impulso


de humana compreensão.


E já que tem pressa, o corpo


vai deixando à beira das casas


uma apenas mercadoria.


 


E como a porta dos fundos


também escondesse gente


que aspira ao pouco de leite


disponível em nosso tempo,


avancemos por esse beco,


peguemos o corredor,


depositemos o litro...


Sem fazer barulho, é claro,


que barulho nada resolve.


 


Meu leiteiro tão sutil


de passo maneiro e leve,


antes desliza que marcha.


É certo que algum rumor


sempre se faz: passo errado,


vaso de flor no caminho,


cão latindo por princípio,


ou um gato quizilento.


E há sempre um senhor que acorda,


resmunga e torna a dormir.


 


Mas este acordou em pânico


(ladrões infestam o bairro),


não quis saber de mais nada.


O revólver da gaveta


saltou para sua mão.


Ladrão? se pega com tiro.


Os tiros na madrugada


liquidaram meu leiteiro.


Se era noivo, se era virgem,


se era alegre, se era bom,


não sei,


é tarde para saber.


 


Mas o homem perdeu o sono


de todo, e foge pra rua.


Meu Deus, matei um inocente.


Bala que mata gatuno


também serve pra furtar


a vida de nosso irmão.


Quem quiser que chame médico,


polícia não bota a mão


neste filho de meu pai.


Está salva a propriedade.


A noite geral prossegue,


a manhã custa a chegar,


mas o leiteiro


estatelado, ao relento,


perdeu a pressa que tinha.


 


Da garrafa estilhaçada,


no ladrilho já sereno


escorre uma coisa espessa


que é leite, sangue... não sei.


Por entre objetos confusos,


mal redimidos da noite,


duas cores se procuram,


suavemente se tocam,


amorosamente se enlaçam,


formando um terceiro tom


a que chamamos aurora.


 


 


Fonte: Antologia Poética - Editora Record, 40ª edição,


página 134

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