Bastante tempo que não escrevo. Poderia tê-lo feito. Não faltaram temas, tampouco motivações. Faltou empenho. E sobrou racionalidade.
No último dia 26, faleceu meu tio. Tio e padrinho. Um dos pais que a vida me deu. Pensei escrever sobre isso. E deixar registrado aqui o sentimento de perda. Mas não o fiz. Seria vão. Ele descansou. E me deixou o desafio de jamais tombar o Rei. A vida, há que vivê-la até o fim. Lance a lance. Até a última pedra. Essa lição, aprendo-a. Ao menos essa, já que fui insensível a tantas outras - quiçás mais importantes... Nova partida. Peão-4-Rei.
No último dia 26, faleceu meu tio. Tio e padrinho. Um dos pais que a vida me deu. Pensei escrever sobre isso. E deixar registrado aqui o sentimento de perda. Mas não o fiz. Seria vão. Ele descansou. E me deixou o desafio de jamais tombar o Rei. A vida, há que vivê-la até o fim. Lance a lance. Até a última pedra. Essa lição, aprendo-a. Ao menos essa, já que fui insensível a tantas outras - quiçás mais importantes... Nova partida. Peão-4-Rei.
***
Keep walking.
***
Ainda estou pasmo. Acho que tenho medo.
Fui ontem ao teatro - a segunda peça do fim de semana. A primeira foi A Obscena Senhora D. Uma adaptação do texto da Hilda Hilst, muito bem feita, por sinal. As atuações... Bem, não eram más. Mas irritou-me o exagerado tormento impresso pela atriz à personagem principal. Um tormento externo que não condizia à imensa dor e angústia contida na personagem real. Ao menos não como eu a imagino. A voz embriagada, chorosa, por vezes raivosa, o peso exagerado nos gestos... Tornavam o tormento real - interno, íntimo, infindável - menos verossímil. Eu, se ainda me coubessem tais atos, o teria feito mais leve. As piores dores são silenciosas. O outro ator, por outro lado, era simplesmente fantástico.
Mas não é esse meu ponto. Meu ponto foi a segunda peça, a de ontem. Bakulo: os Bem Lembrados. Uma companhia do Rio, acho. Não sei. Uma companhia de negros. Animei-me com a idéia. Imaginava assistir quase uma versão brasileira de Porgy and Bess. Ingênua esperança a minha. Gerschwin era branco, judeu. Atreveu-se a escrever uma peça apenas com personagens negros. E, embora seja definitivamente meu musical favorito, provavelmente está longe de ser autêntica. Bakulo não. Eram os negros falando por suas próprias bocas. Não produzindo espetáculos para os brancos, como um dos atores criticava em uma parte do texto, mas trazendo a baila uma questão que está longe de ser óbvia, evidente.
Dei-me conta da minha ignorância, da minha falta de informação e da total carência de pensamento crítico. Não me considero preconceituoso - embora, talvez por causa da criação, possa me surpreender por vezes com pensamentos que já não reconheço como humanos. Mas a tolerância, o respeito ou admiração à diversidade é algo muito pequeno próximo do que realmente é necessário, uma compreensão mais ampla... Frente às questões de racismo, minhas opiniões se revelam superficiais, quase cosméticas. Sou a favor de políticas inclusivas, mas não sei o que seriam de fato tais políticas. Não sei diferenciar uma ação afirmativa de uma política discriminatória. Não sei diferenciar uma abordagem de direitos de um sistema segregador, quem sabe facista.
Não sei. Não tenho opinião. Não sei como atuar. E me sinto completamente impotente.
Queria aprender. Queria poder fazer alguma coisa. Mas será possível? O que é o correto? O que é o errado? Haverá em algum lugar esta resposta? Como chegar a ela?
Como? Como?
Bakulo, na minha burra interpretação, parece sugerir que não há uma resposta. Não há consensos. Não há certezas. O que há então?
O que não pode haver é a indiferença.
Fui ontem ao teatro - a segunda peça do fim de semana. A primeira foi A Obscena Senhora D. Uma adaptação do texto da Hilda Hilst, muito bem feita, por sinal. As atuações... Bem, não eram más. Mas irritou-me o exagerado tormento impresso pela atriz à personagem principal. Um tormento externo que não condizia à imensa dor e angústia contida na personagem real. Ao menos não como eu a imagino. A voz embriagada, chorosa, por vezes raivosa, o peso exagerado nos gestos... Tornavam o tormento real - interno, íntimo, infindável - menos verossímil. Eu, se ainda me coubessem tais atos, o teria feito mais leve. As piores dores são silenciosas. O outro ator, por outro lado, era simplesmente fantástico.
Mas não é esse meu ponto. Meu ponto foi a segunda peça, a de ontem. Bakulo: os Bem Lembrados. Uma companhia do Rio, acho. Não sei. Uma companhia de negros. Animei-me com a idéia. Imaginava assistir quase uma versão brasileira de Porgy and Bess. Ingênua esperança a minha. Gerschwin era branco, judeu. Atreveu-se a escrever uma peça apenas com personagens negros. E, embora seja definitivamente meu musical favorito, provavelmente está longe de ser autêntica. Bakulo não. Eram os negros falando por suas próprias bocas. Não produzindo espetáculos para os brancos, como um dos atores criticava em uma parte do texto, mas trazendo a baila uma questão que está longe de ser óbvia, evidente.
Dei-me conta da minha ignorância, da minha falta de informação e da total carência de pensamento crítico. Não me considero preconceituoso - embora, talvez por causa da criação, possa me surpreender por vezes com pensamentos que já não reconheço como humanos. Mas a tolerância, o respeito ou admiração à diversidade é algo muito pequeno próximo do que realmente é necessário, uma compreensão mais ampla... Frente às questões de racismo, minhas opiniões se revelam superficiais, quase cosméticas. Sou a favor de políticas inclusivas, mas não sei o que seriam de fato tais políticas. Não sei diferenciar uma ação afirmativa de uma política discriminatória. Não sei diferenciar uma abordagem de direitos de um sistema segregador, quem sabe facista.
Não sei. Não tenho opinião. Não sei como atuar. E me sinto completamente impotente.
Queria aprender. Queria poder fazer alguma coisa. Mas será possível? O que é o correto? O que é o errado? Haverá em algum lugar esta resposta? Como chegar a ela?
Como? Como?
Bakulo, na minha burra interpretação, parece sugerir que não há uma resposta. Não há consensos. Não há certezas. O que há então?
O que não pode haver é a indiferença.
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