O texto abaixo chegou por meio de uma amiga e colega de trabalho. Assim, anônimo. Não é a primeira vez que o leio. E ainda assim, vem como um soco na boca do estômago. À distinção do autor, seria normal pensar que me restam muitas jabuticabas a chupar. Mas isso é indiferente porque, apesar da idade, sei o valor de cada uma delas... Inclusive, talvez a idade mesmo, essa juventude ansiosa e sedente, seja responsável pela avidez com que me entrego a cada caroço.
É impossível viver sem ideais. Mesmo quando eles são abstratos, quase etéreos. Mesmo quando sobre eles pesam o rótulo da ingenuidade, do afã pueril. Simplesmente não posso abrir mão de tê-los. Já me falta o Deus. A que me apegar senão ao Homem, senão ao Bem?
Não quero grandes conferências, cúpulas, reuniões, metas irreais sem respaldo de culhões. O surreal cabe bem em meus devaneios, mas não é isso que me ergue cada dia. Quero sim é empenhar cada minuto para a realização do bem. Devotar a minha força à concretização daquilo que alguns, por preguiçosos ou covardes, consideram quimeras.
Quero poder chegar ao final da minha bacia e ver que os sonhos não existem. Que (quase) tudo está ao alcance das mãos - basta aproximar o corpo.
Não quero mais me dedicar a planos em que não acredito e, forçado, ter que chamá-los "estratégicos".
Ando cansado de formalidades e relatórios vãos.
Mas um alento reside nas pequenas coisas que vão brotando e, apesar de tudo, logram crescer.
Tempo que foge...*
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a "última hora"; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados e deseja andar humildemente com Deus.
Caminhar perto delas nunca será perda de tempo.
No hay comentarios.:
Publicar un comentario