martes, 23 de enero de 2007

Déjà vu, mais jamais comme ça (não, isso não é uma crítica do filme...)


É patético. Ele é patético.


Disse que perdeu meu telefone. E calou.


Que o conseguiu com outra pessoa. E calou.


E calou.


Depois, perguntou se dessa vez eu não iria ao Rio. E calou.


E eu entendi. Engraçado, não imaginei que ele pudesse chegar a esse ponto.


Sinceramente, não esperava que ele chegasse à necessidade da desculpa para encontrar um rodeio que o permitisse aproximar-se o máximo, sem tocar a barreira, o campo.


Não... Seu calar, de alguma maneira, me surpreedeu.


E, então, pediu o endereço. Entrecortado de silêncios, em uma escrita demorada, anotou-o.


Quando chega? Até quando? Novos entrecortes, ao ritmo da mão que acreditava enganar, sorrateira.


E… sim… o dia será muito corrido… eu vou ver…


Eu já vi.


Mas, ainda assim, devo confessar que não acreditava que ele chegasse tão longe.


Sim, é patético. Mas também tem um quê de corajoso.

lunes, 22 de enero de 2007

¡Hablemos de poronga!


No, chicos, nos estamos poniendo demasiado serios. Hablemos de poronga.


Acho que esta é uma boa síntese do meu fim de semana.


Tal como previsto, saí mais cedo na sexta-feira e me dirigi à casa da Emi. No carro, Emi, Sof, Mechi, Andy e eu íamos escutando uma coletânea de escatologías cuidadosamente selecionada pelo Andy. De Chupa Chichi a Mirta Legrand... E dá-lhe conversa de poronga... Assim seria a maioria dos momentos que se seguiram.


Macarrao a la putanesca – todos comeram obedientemente – litros e litros de cerveja, vinho, fernet, areia nos sapatos, cerveja na bolsa - ¡quizás porque sea de noche y no veas porque estás borracho! Kkkkkk – milhoes de mensagens aos que estavam longe (nao minhas, pois, estrategicamente, esqueci o celular na mochila), asadito para outro imigrante duplamente perdido, enfim... Também a surpresa de uma ligacao do Henrique, infelizmente cortada ao meio.


E, ainda que aqueles nao fossem meus melhores amigos, mesmo sabendo que eu nao pertencia àquela relacao, ainda que nao soubesse o que dizer ou sobre o que conversar... ainda assim, senti-me bem. E melhor.


Agarrar-se ao que a vida nos dá. Despretensiosa e serenamente.


Gracias, chicos. La pasé lindo. Hagámoslo más veces.

jueves, 18 de enero de 2007

Devir constante

 

Dizem que os trinta dias que antecedem o dia do seu aniversário correspondem ao seu inferno astral. Como todos sabem, nunca acreditei muito nessas coisas… De qualquer forma, tratando-se deste que vos escreve, a idéia de inferno não é lá das piores, afinal, é conhecimento público que tenho carteirinha de sócio do mundo lá de baixo e que o dono da casa é uma das minhas companhias prediletas - ao lado de mus amigos, naturalmente, para tomar um bloody mary. Com pimenta, claro.


 


Pois bem, inferno astral ou não, o fato é que o meu já inconstante estado de existência anda oscilando a níveis ainda mais impressionantes, criando o ambiente propício para atitudes drásticas e impulsivas.


 


Não, não se desesperem: não pedi demissão do meu emprego. Ainda. Mas devo confessar que foi imensa minha alegria em voltar para casa hoje depois de ter encontrado a porta do escritório trancada… Inocentemente, eu havia combinado de ir mais cedo hoje, às nove, para poder sair mais cedo daquele latifúndio improdutivo e poder dirigir-me mais rapidamente às terras férteis… Esqueci-me que, às nove da manhã, sobretudo durante a ausência da chefe, absolutamente nenhum funcionário público digno do cargo se encontra em sua respectiva repartição. Dei meia volta e fui lavar roupas. Volto às 10h30. E claro que sairei mais cedo.


 


Mas, voltando ao inferno astral… Pois bem, até que provem o contrário, considerando tratar-se de inferno, dou por sentado que é divertido. Pois assim seja. Tenho me divertido bastante no meu trabalho free lance. Também tenho me divertido espiando os vizinhos do frente em frente ao meu. Ao sol da manhã, me divirto lendo o jornal e tomando meu café. Parece pouco? Pois bem: nesta sexta embarco em muito boa companhia rumo a San Nicolás, para um fim de semana entre amigos. Não sei o que me espera exatamente, mas estou louco para descobrir.


 


Além do mais, voltar a freqüentar as salas de cinema, ler filosofia política e economia política, arriscar novas receitas na cozinha, fumar um beck relaxado em casa são coisas que podem parecer insignificantes. Mas que melhoram significativamente minha qualidade de vida.


 


E nada me faz mais feliz do que mudar subitamente de planos. E duas margueritas, é claro.


 


(pensei em postar Metamorfose Ambulante, que combina bem com meu estado atual. Contudo, como minha antipatia por Raul Seixa é pública e notória, em nome da coerência, vai Herbert Vianna - e Bi Ribeiro)


 


Dos Margaritas


 


Fazer um desenho nas costas da mão


Despir a consciência das dores morais


Jogar uma vaca do décimo andar


Viajar sob a lua que varre os sertões


Uma ostra chilena, um beijo em Paris


Se cortasse o cabelo e mudasse o nariz


Se Vital escrevesse a constituição


Se eu nunca quisesse quem nunca me quis


Ser dois e ser dez e ainda ser um


Se a vingança apagasse a dor que eu senti


Ser seco, ser reto, isento, amoral


Se eu nunca lembrasse o estrago que eu fiz


Tudo isso me faria feliz


Absurdos me fariam feliz


Pero nada me hará tan feliz


Como dos margaritas

martes, 16 de enero de 2007

Segunda-feira

Tomar férias do trabalho chato para dedicar-se ao trabalho legal. Discutir idéias com quem pensa. Rever aquele amigo que você não sabe muito bem o motivo que os fizeram amigos, mas, ainda assim, faz falta. Cozinhar para pessoas queridas. A vida podia ser sempre assim...

Por essas e outras coisas, eu amo segundas...

Agora, já para a cama.

jueves, 11 de enero de 2007

Balanca, mas nao cai!

É, a gente delira, cria fantasias e finge que vai jogar tudo para o alto. Depois, volta à realidade, firma os pés no chao e escuta a voz - tanto interna como a das pessoas a sua volta - que diz: com isso se paga o pao. Entao, humildemente, você coloca o rabinho entre as pernas, toma o seu café e segue como se nada... Afinal de contas, a situacao nem é tao ruim assim...

E, nos demi-temps, vamos aproveitando as coisas boas que há. Cerveja barata em boa companhia, por exemplo. Um filminho leve aqui, uma comidinha gostosa ali... E, se tudo der certo, alguns dias de viagem a algum lugar nem tao longe, nem tao perto... Mas, no fim das contas, nem isso é muito importante.

O importante é saber que nada tem tanto valor assim. E que a vida segue.

Vem a tristeza, mas depois passa. Vem a solidao, mas depois passa.

Nao há com que se preocupar.

E, no final, os amigos... esses sempre ficam.

martes, 9 de enero de 2007

Balançando

Me encontro com um amigo - que talvez não merecesse esse título, mas que é muito querido para ser apenas um conhecido - e ele me conta que, há três semanas, nasceu sua segunda filha. Me manda o link da página com suas fotos. Lucie terá que dividir espaço com Violette...

E então a gente se lembra das coisas que têm realmente importância...

Não, a vida não é fácil, nem para ele, nem para mim e talvez para ninguém.

Mas vale a pena.

 

Enquanto isso, pensando no que vale mais: se fazer o que se gosta e assumir os riscos ou contentar-se com uma estabilidade precária e se matar cada manhã. Mais um pouco e peço demissão... Seria a primeira loucura concreta do ano...

lunes, 8 de enero de 2007

Volte a si imediatamente!!!!!!!!!!

Mas o que é uma segunda depois de um domingo, não é mesmo, minha gente?

Amo muito tudo isso. Viva a rotina e as estruturas.

A insônia? Enfim, nada é perfeito.

E escutemos um pouquinho de pop, porque nada melhor para levantar o astral

(e vou tratar de esconder o CD do Jéremie Kiesling...)

 

domingo, 7 de enero de 2007

Week-end. End. Weekendend.

E há dias que são tristes. E se está só.

Tu deviens résponsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé.

Simples verdade.

E todos nos esquecemos.

viernes, 5 de enero de 2007

I me mine

Eu devia ter uns quinze anos, naquela época. Lia O Menino no Espelho (ou seria do Espelho? Nao me lembro...), do Fernando Sabino. Havíamos lido o Encontro Marcado no colégio e alguém comentara que O Menino também era meio autobiográfico, mas correspondia à infância do autor. Como costuma acontecer no meu caso, nao me lembro muito bem, mas lembro que gostei. Muito. E lembro de uma passagem em que colocavam bolsas de pano em suas maos para que ele nao pudesse se arranhar até sangrar. Um menino caprichoso, cheio de vontades, histérico. Eu me identificava completamente com ele...


Lembro-me perfeitamente de uma noite, alguns anos antes, em que tive uma terrível briga com minha avó. Ela tinha me negado alguma coisa, acho... Foi o bastante para que o escândalo comecasse... Lembro de vê-la do alto da escada, mexendo na parte superior do guarda-roupa e dizendo que já nao me deixaria usar a máquina de escrever... Hoje, nao saberia dizer se essas cenas eram constantes... Discussoes, sim, mas nao sei bem em que nível... Coisas que o tempo foram apagando... O certo é que eu era – e, certamente, ainda sou – um menino mimado. Nao me arranhava até sangrar como o menino de Sabino – nao era meu estilo – mas tinha meus meios de conseguir o que queria. E acreditava merecê-lo: tinha boas notas, portava-me bem diante dos demais, era querido por professores e amigos... Eu nao fazia a minha aprte? Pois entao, que cumprissem com a sua. E assim cheguei onde cheguei...


Mas muita coisa mudou desde entao. E talvez seja possível determinar quando aconteceu esse ponto de inflexao. Eu tinha dezesseis anos, acho, quando fui passar um fim de semana com meu pai em Juiz de Fora. Nao foram dois dias, mas tres ou quatro horas de conversa, em um quarto de um hotel simpático mas que fedia a mofo, as persianas baixas... Entre o jogo de futebol e o jantar e acho que chovia... Tres ou quatro horas de simples verdade. Nelson Rodrigues nao poderia ter feito melhor...


A mudanca nao comecou ali – vinha-se processando ao longo dos anos anteriores – e nao terminou ali – prossegue hoje ainda – mas aquele ponto foi decisivo.


Carregava em mim a tristeza do mundo. Que nao era mais que a angústia de saber que a vida nao era como eu gostaria que fosse. Sofria, desgracado, diante dos infortúnios do destino. Trazia com ar martírico minha cruz, mostrando-a com orgulho – mas com olhos baixos, fingindo humildade – aos que passavam ao meu lado. E via-me, sem querer, a imagem e semelhanca de minha avó, que nao se esquecia de repetir, às vezes com humor, às vezes pungente, seu bordao: Que mal eu fiz a Deus? Era também minha mae, cada um com seu estilo, é claro. Dentro de cada um, estávamos convencidos de que a culpa nao era nossa, nao apenas. Eram os males do mundo, os nossos incluidos. O único exclusivo era a dor de cada um. Sofrê-la dava sentido à existência.


Até que me cansei. Depois daqueles dias, daquelas horas – nao sei se dias, semanas, meses ou anos depois – percebi que dor nao era algum comum a todos. Havia quem nao sofresse, ou que sim sofresse, mas sem sofreguidao. Esse era o ponto: a dor era comum, mas nao sua manifestacao, nao o seu impacto sobre a vida de cada um. Comecei ademais a desconfiar de que a piedade alheia estava longe de encontrar-se entre os bens mais valiosos (até colocá-la no top ten das mais odiáveis, confesso...).


Tirei a cruz dos ombros. Anistiei aqueles que por tanto tempo havia acreditado serem meus algozes. Abandonei utopias e projecoes de uma vida ideal. Parei de buscar sentidos. E deixei o palco. Para dar-me conta – meio aliviado, meio surpreso – de que o espetáculo seguiria sem mim.


Agarrei a vida com as maos e procurei sorver o que ela podia me dar. Confesso que isso está muito aquém do que eu gostaria – talvez porque eu nao saiba aproveitá-la, talvez porque a vida seja apenas isso... Mas é melhor do que a prisao que implica ver o mundo com olhos pedintes, sempre tristes.


Ainda há dor e eu a sinto. Mas é tudo muito mais leve. E eu prefiro que seja assim.


Sim, outras coisas ficaram para trás... mas valha-me o clichê... love is not an easy thing, it is the only bagage that you can bring... it is all that you can't leave behind...


Omnia mea mecum porto.


Este sou eu. E é a única coisa que posso oferecer.

martes, 2 de enero de 2007

Walk on

Jornais trazem estampadas fotos dos verdugos iraquianos preparando o condenado para sua derradeira queda. Depois, fotos de familiares e seguidores chorando diante de seu túmulo.

Uma segunda testemunha das torturas cometidas durante a ditadura militar desaparece. Mas, desta vez, reaparece antes de terminar o ano e saúda efusivamente ao presidente argentino por seu compromisso e dedicação.

Em Brasília, o vermelho que marca a noite de líderes governistas não mais remete à história soviética, mas à Coca-Cola. Que, por sinal, mandou fazer 5.000 simpáticas garrafinhas com rótulos em verde-amarelo.

Coisas estranhas acontecem.

Mas eu deixo que outras tantas marquem meu dia.

Como por exemplo a imagem da pequena multidão que invade o Monumentos aos Espanhóis, em Buenos Aires, buscando refrescar-se do tremendo calor que ameaça derreter tudo. Os jornais advertem o risco de alta tensão. Mas a água alivia e os sorrisos são mais convincentes.

Ou o e-mail de uma antiga correspondente que decidiu abandonar tudo e buscar sonhos em uma terra distante.

Ou uma música que parecia esquecida e volta, trazendo consigo lembranças de amigos que o tempo jamais entregará ao olvido.

No primeiro dia do ano - que, não fosse o feriado, seria como uma segunda-feira qualquer - eu descubro que tocar U2 no violão é fácil.

 

Walk On

U2 - All you can leave behind

 

And love is not the easy thing
The only baggage you can bring...
And love is not the easy thing....
The only baggage you can bring
Is all that you can't leave behind

 

And if the darkness is to keep us apart
And if the daylight feels like it's a long way off
And if your glass heart should crack
And for a second you turn back
Oh no, be strong

 

Walk on, walk on
What you got they can't steal it
No they can't even feel it
Walk on, walk on...
Stay safe tonight

 

You're packing a suitcase for a place none of us has been
A place that has to be believed to be seen
You could have flown away
A singing bird in an open cage
Who will only fly, only fly for freedom

 

Walk on, walk on
What you've got they can't deny it
Can't sell it, can't buy it
Walk on, walk on
Stay safe tonight

 

And I know it aches
And your heart it breaks
And you can only take so much


Walk on, walk on

 

Home… hard to know what it is if you've never had one
Home… I can't say where it is but I know I'm going home
That's where the hurt is

 

I know it aches
How your heart it breaks
And you can only take so much


Walk on, walk on

 

Leave it behind
You've got to leave it behind


All that you fashion
All that you make
All that you build
All that you break
All that you measure
All that you steal
All this you can leave behind
All that you reason
All that you sense
All that you speak
All you dress up
All that you scheme
All you created...

 

Dedicated to Aung San Suu Kyi