Eu devia ter uns quinze anos, naquela época. Lia O Menino no Espelho (ou seria do Espelho? Nao me lembro...), do Fernando Sabino. Havíamos lido o Encontro Marcado no colégio e alguém comentara que O Menino também era meio autobiográfico, mas correspondia à infância do autor. Como costuma acontecer no meu caso, nao me lembro muito bem, mas lembro que gostei. Muito. E lembro de uma passagem em que colocavam bolsas de pano em suas maos para que ele nao pudesse se arranhar até sangrar. Um menino caprichoso, cheio de vontades, histérico. Eu me identificava completamente com ele...
Lembro-me perfeitamente de uma noite, alguns anos antes, em que tive uma terrível briga com minha avó. Ela tinha me negado alguma coisa, acho... Foi o bastante para que o escândalo comecasse... Lembro de vê-la do alto da escada, mexendo na parte superior do guarda-roupa e dizendo que já nao me deixaria usar a máquina de escrever... Hoje, nao saberia dizer se essas cenas eram constantes... Discussoes, sim, mas nao sei bem em que nível... Coisas que o tempo foram apagando... O certo é que eu era – e, certamente, ainda sou – um menino mimado. Nao me arranhava até sangrar como o menino de Sabino – nao era meu estilo – mas tinha meus meios de conseguir o que queria. E acreditava merecê-lo: tinha boas notas, portava-me bem diante dos demais, era querido por professores e amigos... Eu nao fazia a minha aprte? Pois entao, que cumprissem com a sua. E assim cheguei onde cheguei...
Mas muita coisa mudou desde entao. E talvez seja possível determinar quando aconteceu esse ponto de inflexao. Eu tinha dezesseis anos, acho, quando fui passar um fim de semana com meu pai em Juiz de Fora. Nao foram dois dias, mas tres ou quatro horas de conversa, em um quarto de um hotel simpático mas que fedia a mofo, as persianas baixas... Entre o jogo de futebol e o jantar e acho que chovia... Tres ou quatro horas de simples verdade. Nelson Rodrigues nao poderia ter feito melhor...
A mudanca nao comecou ali – vinha-se processando ao longo dos anos anteriores – e nao terminou ali – prossegue hoje ainda – mas aquele ponto foi decisivo.
Carregava em mim a tristeza do mundo. Que nao era mais que a angústia de saber que a vida nao era como eu gostaria que fosse. Sofria, desgracado, diante dos infortúnios do destino. Trazia com ar martírico minha cruz, mostrando-a com orgulho – mas com olhos baixos, fingindo humildade – aos que passavam ao meu lado. E via-me, sem querer, a imagem e semelhanca de minha avó, que nao se esquecia de repetir, às vezes com humor, às vezes pungente, seu bordao: Que mal eu fiz a Deus? Era também minha mae, cada um com seu estilo, é claro. Dentro de cada um, estávamos convencidos de que a culpa nao era nossa, nao apenas. Eram os males do mundo, os nossos incluidos. O único exclusivo era a dor de cada um. Sofrê-la dava sentido à existência.
Até que me cansei. Depois daqueles dias, daquelas horas – nao sei se dias, semanas, meses ou anos depois – percebi que dor nao era algum comum a todos. Havia quem nao sofresse, ou que sim sofresse, mas sem sofreguidao. Esse era o ponto: a dor era comum, mas nao sua manifestacao, nao o seu impacto sobre a vida de cada um. Comecei ademais a desconfiar de que a piedade alheia estava longe de encontrar-se entre os bens mais valiosos (até colocá-la no top ten das mais odiáveis, confesso...).
Tirei a cruz dos ombros. Anistiei aqueles que por tanto tempo havia acreditado serem meus algozes. Abandonei utopias e projecoes de uma vida ideal. Parei de buscar sentidos. E deixei o palco. Para dar-me conta – meio aliviado, meio surpreso – de que o espetáculo seguiria sem mim.
Agarrei a vida com as maos e procurei sorver o que ela podia me dar. Confesso que isso está muito aquém do que eu gostaria – talvez porque eu nao saiba aproveitá-la, talvez porque a vida seja apenas isso... Mas é melhor do que a prisao que implica ver o mundo com olhos pedintes, sempre tristes.
Ainda há dor e eu a sinto. Mas é tudo muito mais leve. E eu prefiro que seja assim.
Sim, outras coisas ficaram para trás... mas valha-me o clichê... love is not an easy thing, it is the only bagage that you can bring... it is all that you can't leave behind...
Omnia mea mecum porto.
Este sou eu. E é a única coisa que posso oferecer.
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