lunes, 24 de enero de 2011

Furtado y el arte contemporáneo

Cada vez que vuelvo sobre este livro, encuentro algo que me deja pensando...

Qué diría Furtado de las obras destruidas de Minujín? De todos modos, vale el paseo al Malba. Hasta el 14 de febrero.
"A história das artes no século XX, particularmente das artes visuais, constitui quiçá o mais rico filão para sondar as chances de sobrevivência do homem dentro das engrenagens em que ele hoje se move. A incorporação do objeto artístico e do artista ao processo de acumulação é demasiado evidente e já não requer elaboração suplementar: a notoriedade do artista é condição necessária para que suas obras alcancem um elevado valor de troca, e a posse de um objeto artístico de alto preço pretende exprimir o seu valor de uso. Como a influência do artista - a eficácia da mensagem que ele transmite - depende de seu prestígio, e este é inseparável do mecanismo do mercado, o impacto do artista na sociedade está estritamente canalizado. Por mais audaciosa que pretenda ser certa mensagem, o seu efeito se confina numa área preestabelecida, pois o "público" é antes advertido de que se lhe vai apresentar algo inusitado, extraordinário, fabuloso. A reação dos artistas a essa transformação do objeto artístico em algo transcendente, com uma significação em si mesmo independentemente de quem o vê, assumiu a forma de destruição das fronteiras da arte. Foi o aparecimento da não-arte com o dada. A arte pobre, a arte mínima, o collage, os readymade de Marcel Duchamp são a manifestação de uma revolta contra a sacralização dos objetos de arte para fins de marketing. Mas a reação não se fez esperar. Essa ampliação das fronteiras da arte também abria novas possibilidades ao negócio artístico, que agora cobria uma superfície muito mais ampla. Se "arte é o que os artistas dizem que é arte", o que se necessita é de artistas de grande celebridade. A assinatura de um grande artista é suficiente para fazer surgir de qualquer coisa objetos artísticos de alto valor de troca. Mas alguns artistas, na ânsia de preservar sua autonomia criadora, transferiram a luta para um outro plano. Foi o que fizeram, por exemplo, Lygia Clark e Keith Arnatt ao negar totalmente o objeto e assumir a arte em suas próprias pessoas como criaturas humanas. O artista retoma, assim, a tradição do sábio antigo, do santo, que encarnava a sua autêntica criação. Elimina-se a fronteira entre o criar artístico e o criar a vida. Abandonando o velho conceito de objeto único, nos diz Pierre Restany, o artista inventa uma nova linguagem. Ao mesmo tempo, ele rompe uma peça mestra na engrenagem da civilização industrial."

Furtado, Celso, 2008 [1978]. Criatividade e dependência na civilização industrial. São Paulo, Companhia das Letras. Pp.220-221.

2 comentarios:

  1. Marcelo, estive em Bs As em janeiro. Fui ao MALBA. Não conhecia Minujín e fiquei espantado com a quantidade de coisas fabulosas que ela realizou, e, principalmente, com o quanto nós brasileiros nos encontramos apartados da arte e da cultura argentina. Não arrisco uma explicação e acho que a simples fronteira da língua não dá conta de tanto desinteresse. Fico feliz em saber que você está morando aí, nessa cidade tão linda, e que mantem esse blog, tão simpático.
    Entro em contato caso volte aí um dia.
    Um abraço, do seu antigo colega.
    Borges.

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  2. Há quanto tempo, Borges! Que boa surpresa encontrar o teu comentário aqui, apesar do tempo e da distância.
    Eu também não conhecia muito o trabalho de Minujín. Achei muito interessante a proposta dela também, com os Happennings e a destruição das obras. Outra coisa que atravessa sua produção é o sentido de humor, muito importante.
    Compartilho o assombro sobre nossa falta de conhecimento sobre essa artista do país vizinho e concordo: acho que as barreiras vão além da língua. Mas quais?
    Um abraço!

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