sábado, 26 de noviembre de 2005

Apenas antes de voltar ao caos...

Apesar da pressa e da pressão,

Do cansaço e de alguma dor,

Da preocupação e também de alguma preguiça,

Apesar de uma revolta ingênua que nunca aflorará,

E de um orgulho tímido,

Apesar da pilha de documentos que me espera

E do telefone que apenas espera tocar,

Ainda assim dou-me tempo em uma manhã de sábado,

Manhã de chuva e um friozinho bom,

Alguns espirros, calafrios,

Café, pães e frutas...

Dou-me tempo...

Porque o mundo tem tempo em abundância

(daí provêm a expressão todo tempo do mundo...)

E eu o tenho em escassez...

Dou-me então tempo. Não muito, mas algum...

Tudo é um questão de equidade...

 

 

Metade

Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também

domingo, 20 de noviembre de 2005

Da vergonha

Se Deus existisse - e, embora eu não creia, suponhamos que exista - eu Lhe pediria que me proteja da vergonha. A vergonha é certamente um dos piores sentimentos que pode acometer uma pessoa.

Quisera eu postergar por tempo indefinido a chegada do dia em que me envergonharei de algum ato meu. Distingua-se aqui a vergonha do arrependimento, do reconhecimento do erro e coisas similares. Acredito que a vergonha tem algo muito próprio, algo que vai além da culpa. Envergonhar-se é não apenas reconhecer a responsabilidade, mas revelar uma traição à própria consciência.

Ninguém pode se envergonhar por errar. Erro constantemente e quero eu errar até o fim dos meus dias. O erro é um dos mais eficazes caminhos em direção ao aprendizado e ao aperfeiçoamento. É inerente à imperfeição humana e tão sinônimo da própria vida que não errar sugeriria que vivo já não estaria eu... Assim que, por amar a vida, erro e seguirei errando, sendo o meu desejo apenas não cometer os mesmos erros, ser criativo na arte de errar - que presunçosamente poderia ser chamado de "ser ousado no viver"...

Mas estes erros, que aceito e aprecio, diferem-se de outros atos. Refiro àqueles que ao perpetrá-los, agimos contrariamente à nossa consciência. É o erro previamente concebido e corretamente executado e que, portanto, como erro não se caracteriza (pois o verdadeiro erro, neste caso, em involuntário acerto se haveria convertido). É a ação que se pretende imperativa ou natural, embora imbuída de perversa superficialidade. É o contrariar voluntariamente os princípios mais profundos da justiça e da humanidade. É o mal. Daí provém a vergonha.

Proteja-me Deus disto. Proteja-me desta dor interna e avassaladora, à qual eu não conseguiria resistir.

E dê-me forças para sustentar, perante quem seja, e com Razão e sabedoria, o peso de meus atos - talvez pouco acertados, alguns provavelmente muito errôneos - mas, ainda assim, meus.

martes, 15 de noviembre de 2005

Corrigendum... ou nota pátria

Na verdade, na comemoração da República, faltou-me sensibilidade para escolher o poema... É que às vezes nos esquecemos de pensar mais além...

Em tal data, quiçás devesse colocar alguns versos do Castro Alves. Não I-Juca Pirama. Antes, Navio Negreiro... "Existe um povo que a bandeira empresta/P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!.../E deixa-a transformar-se nessa festa/Em manto impuro de bacante fria!..." Quando daremos um fim à escravidão? Não só dos negros, mas dos nordestinos, dos analfabetos, dos que se vendem por qualquer pedaço de pão, por uma camisa, por um nada... A escravidão dos nossos miseráveis, cuja maior miséria não é a falta de dinheiro, mas a falta de consciência...

País meu que tanto amo, pátria amada de lindo povo... Possa eu não me esquecer da minha grande dívida para com essa mãe gentil e para com nossos irmãos, a quem haveremos tantas vezes negado a liberdade, sem sequer dar-nos conta da perversa engrenagem...

A República tem que ser para todos. Ou de ninguém será, pois a ninguém pertence aquilo que não existe...

Não comemoremos o aniversário da República - lembremo-nos, sim, deste projeto, em constante, embora lenta, construção...

Augusto dos Anjos...

Adoro Augusto dos Anjos.

Ele, Clarice, José Régio, Guimarães... Todos eles já sabiam que o que importa é somente o plasma...

Ai... dia cansado... Últimas horas de mais um dia... O corpo já limpo, buscando a calma... A alma que vai se entregando ao sono, que lento vem...

Extraño a mi negra...

También a algunos amigos...

 


BUDISMO MODERNO


Tome, Doutor, esta tesoura, e... corte


Minha singularíssima pessoa.


Que importa a mim que a bicharia roa


Todo o meu coração, depois da morte?!


 


Ah! Um urubu pousou na minha sorte!


Também, das diatomáceas da lagoa


A criptógama cápsula se esbroa


Ao contato de bronca destra forte!


 


Dissolva-se, portanto, minha vida


Igualmente a uma célula caída


Na aberração de um óvulo infecundo;


 


Mas o agregado abstrato das saudades


Fique batendo nas perpétuas grades


Do último verso que eu fizer no mundo!

domingo, 13 de noviembre de 2005

O que é Brasília?

Ressaca... Nossa, acho que nem me lembrava como é ruim essa sensação. Minha cabeça parece estourar. Todos os movimentos são lentos... É, acho que estava precisando. É preciso às vezes lembrar-se de certas coisas - da vida que vai além da rotina, da responsabilidade, do mundo limitado das pessoas conhecidas. É preciso se abrir para o lugar, é preciso se abrir.

Festa em uma casa no Lago Sul. Cinco espanhóis que chegaram ao Brasil há um mês decidiram estreiar a casa. Encarregaram um par de pessoas a passar para a frente o convite, com o objetivo de reunir em um mesmo lugar o maior número de pessoas possível.

Não havia tantas pessoas assim. E ainda assim eram tantas... Salvo três ou quatro, todos eram para mim rostos desconhecidos. Uma verdadeira babilônia: americanos, italianos, ioguslavos, espanhóis, brasileiros de várias partes, algumas pessoas de Brasília...

Pessoas que, como eu, não vêem em Brasília razões suficientes para um grande amor. O consenso toca a excelente qualidade de vida, a comodidade, a amplitude. Em muitos casos, contudo, parece também alcançar o desejo de partir. Brasília é assim, eu acho... Talvez seja culpa do horizonte rasgado que convida a vista a mirar sempre o mais além...

Mas, ainda assim, aquela para mim era uma outra Brasília. A mesma Brasília de pessoas que vêm e vão, que estão aqui de passagem... Mas, ainda assim... Uma outra Brasília... Uma na qual as pessoas se abrem para conhecer os outros. Trocam telefones realmente pensando em ligar e combinar outras coisas. Uma na qual o que você diz só é relevante no contexto em que é dito. O mundo... O mundo ficou lá fora. Naquele momento, o mundo não importa. Naquele momento, só o momento vale.

Será isso o que me encanta nos lugares que mais amo?

Ontem, durante a festa, não fossem as mudanças sempre imprevisíveis que o destino impõe aos nossos planos, estaria chegando a Buenos Aires. (Certamente hoje eu também estaria de ressaca...) Mas, por alguma razão, isso não me fez triste. Ouso quem sabe até uma felicidade discreta... Porque, de alguma maneira, ontem eu também deixei a minha Brasília. Em direção, quem sabe, a uma outra mesma cidade...

 

 

(Mas, enfim, talvez sejam tudo apenas ilusões... )

viernes, 11 de noviembre de 2005

Por dónde se escapa del purgatorio?

Semana larga esta...

Mucho trabajo, algunos pasos adelante - pese a otros que siempre terminan por dejarnos en algun lugar entre el comienzo y el fin del camino... De todas maneras, es más blanda la sensación de angustia. Tanto más que me hace pensar si algun día la sentí (al mismo tiempo en que me pregunto cuando volveré a sentirla...).

La vida que siempre cambia, vueltas cada vez más cortas. Cortos circuitos...

Tantas decisiones por tomar y tantas ganas. Pero todo son dudas, todo es incertidumbre. Todo menos la conciencia de que sigo a procura de algo más que respirar...

En las páginas de los libros, en las charlas con los amigos, en cada nueva cosa que se me presenta y que intento aprender, en los momentos solitarios de mi cocina o en las canciones de mi radio todo lo que busco es el camino que me aleje del purgatorio de sobrevivir hasta el día siguiente...

Hoy estaré quizás algunos pasos más distante...

 

 

 

La vida moderna

Letra: Joaquín Sabina

Canta: Paez

 

Una gota de sangre en MTV,
un cadáver conectado a Internet,
Mona Lisa llorando en el jardín,
un licor de cianuro,
muera el futuro,
pasado mañana es ayer.
La enfermedad del corazón
tan mortal, tan eterna,
tiñe de amargura la aventura del yo,
peligros de la vida moderna.
Una secta de hermanos de Caín,
una lágrima por ordenador,
aguafuertes del muro de Berlín,
pasarelas de hielo,
para modelos
violadas por Christian-Dior.
Tragicomedia musical,
cementerio de besos,
hoy, a la deriva, por la General Paz,
naufraga el galeón de los excesos.
Filosofías de arrabal,
mártires del rock and roll
discutiendo, entre las piernas
del dolor
el álgebra de la vida moderna.
Y al final
nunca sé como empezar
a decirte a gritos
que necesito
más que respirar,
que necesito
escapar
del purgatorio de sobrevivir,
hasta el año dos,
hasta el año tres,
hasta el año diez,
hasta el año cien mil.
La soledad
es la ecuación
de la vida moderna.

sábado, 5 de noviembre de 2005

Herr Keuner


Me encanta Brecht...


Massnahmen gegen die Gewalt... Así es...


 


 


Bert Brecht
Maßnahmen gegen die Gewalt


Als Herr Keuner, der Denkende, sich in einem Saale vor vielen gegen die Gewalt aussprach, merkte er, wie die Leute vor ihm zurückwichen und weggingen. Er blickte sich um und sah hinter sich stehen - die Gewalt.
"Was sagtest du?" fragte ihn die Gewalt. "Ich sprach mich für die Gewalt aus", antwortete Herr Keuner.


Als Herr Keuner weggegangen war, fragten ihn seine Schüler nach seinem Rückgrat.
Herr Keuner antwortete: "Ich habe kein Rückgrat zum Zerschlagen. Gerade ich muß länger leben als die Gewalt."


Und Herr Keuner erzählte folgende Geschichte: In die Wohnung des Herrn Egge, der gelernt hatte, nein zu sagen, kam eines Tages in der Zeit der Illegalität ein Agent, der zeigte einen Schein vor, welcher ausgestellt war im namen derer, die die Stadt beherrschten, und auf dem Stand, daß ihm gehören soll jede Wohnung, in die er seinen Fuß setzte, ebenso sollte ihm auch jedes Essen gehören, das er verlange; ebenso sollte ihm auch jeder Mann dienen, den er sähe.
Der Agent setzte sich in einen Stuhl, verlangte Essen, wusch sich, legte sich nieder und fragte mit dem Gesicht zur Wand vor dem Einschlafen: "Wirst du mir dienen?"
Herr Egge deckte ihn mit einer Decke zu, vertrieb die Fliegen, bewachte seinen Schlaf, und wie an diesem Tage gehorchte er ihm sieben Jahre lang. Aber was immer er für ihn tat, eines zu tun hütete er sich wohl: das war, ein Wort zu sagen.
Als nun die sieben Jahre herum waren und der Agent dick geworden war vom vielen Essen, Schlafen und Befehlen, starb der Agent.
Da wickelte ihn Herr Egge in die verdorbene Decke, schleifte ihn aus dem Haus, wusch das Lager, tünchte die Wände, atmete auf und antwortete: "Nein."


 

martes, 1 de noviembre de 2005

Nem tudo é preto, nem tudo é branco, nem tudo é cinza...

O dia hoje foi interessante. Bom? Ruim? Não sei. Interessante, acho que isso. Várias fases, menos que as de toda uma vida, mas talvez mais que as que costumam caber em uma semana. Foi um dia vivo... Sim, acho que foi isso. Engraçado, porque vem justo depois de um dia morto, estancado.

Pode ser o início de uma nova fase. De fato, várias coisas já prenunciavam tal início. É que, às vezes, não basta o prenúncio. Somos todos meio São Tomé mesmo... Eu, sobretudo, ando precisado de chão e de pão, porque de sonhos e promessas... Tantas são em mim que já ocuparam o espaço que havia disponível... E também porque mesmo a alma precisa de alimentar de concreto para seguir se dedicando ao abstrato, ao superior...

Foi um dia de enfrentamentos. Amanhã, talvez depois, virão as consequências, além de outros enfrentamentos, é claro. Veremos o desenrolar das coisas. Não tenho medo.

O que me mata não é a dor, não é a tristeza, não é a derrota. O que me mata é a inércia, a impotência, a conformidade. O que me mata é não me sentir vivo. Vivo como o dia, como as horas.

 

Enfim. Muito trabalho pela frente. Muita força... Vou precisar de muita força. E pouco sono... Combinação arriscada... Mas, e daí? Viver... é... é muito perigoso...

 

Um pouco mais de Guimarães Rosa...

 

"De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas a cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadâo, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! - é o que eu digo. O senhor aprova? (...) Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças - eu digo. Pois não é ditado: "menino - trem do diabo"? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho..."

 

Trecho de Grande sertão: Veredas, logo nas primeiras páginas...