O dia hoje foi interessante. Bom? Ruim? Não sei. Interessante, acho que isso. Várias fases, menos que as de toda uma vida, mas talvez mais que as que costumam caber em uma semana. Foi um dia vivo... Sim, acho que foi isso. Engraçado, porque vem justo depois de um dia morto, estancado.
Pode ser o início de uma nova fase. De fato, várias coisas já prenunciavam tal início. É que, às vezes, não basta o prenúncio. Somos todos meio São Tomé mesmo... Eu, sobretudo, ando precisado de chão e de pão, porque de sonhos e promessas... Tantas são em mim que já ocuparam o espaço que havia disponível... E também porque mesmo a alma precisa de alimentar de concreto para seguir se dedicando ao abstrato, ao superior...
Foi um dia de enfrentamentos. Amanhã, talvez depois, virão as consequências, além de outros enfrentamentos, é claro. Veremos o desenrolar das coisas. Não tenho medo.
O que me mata não é a dor, não é a tristeza, não é a derrota. O que me mata é a inércia, a impotência, a conformidade. O que me mata é não me sentir vivo. Vivo como o dia, como as horas.
Enfim. Muito trabalho pela frente. Muita força... Vou precisar de muita força. E pouco sono... Combinação arriscada... Mas, e daí? Viver... é... é muito perigoso...
Um pouco mais de Guimarães Rosa...
"De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas a cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadâo, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! - é o que eu digo. O senhor aprova? (...) Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças - eu digo. Pois não é ditado: "menino - trem do diabo"? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho..."
Trecho de Grande sertão: Veredas, logo nas primeiras páginas...
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