Se Deus existisse - e, embora eu não creia, suponhamos que exista - eu Lhe pediria que me proteja da vergonha. A vergonha é certamente um dos piores sentimentos que pode acometer uma pessoa.
Quisera eu postergar por tempo indefinido a chegada do dia em que me envergonharei de algum ato meu. Distingua-se aqui a vergonha do arrependimento, do reconhecimento do erro e coisas similares. Acredito que a vergonha tem algo muito próprio, algo que vai além da culpa. Envergonhar-se é não apenas reconhecer a responsabilidade, mas revelar uma traição à própria consciência.
Ninguém pode se envergonhar por errar. Erro constantemente e quero eu errar até o fim dos meus dias. O erro é um dos mais eficazes caminhos em direção ao aprendizado e ao aperfeiçoamento. É inerente à imperfeição humana e tão sinônimo da própria vida que não errar sugeriria que vivo já não estaria eu... Assim que, por amar a vida, erro e seguirei errando, sendo o meu desejo apenas não cometer os mesmos erros, ser criativo na arte de errar - que presunçosamente poderia ser chamado de "ser ousado no viver"...
Mas estes erros, que aceito e aprecio, diferem-se de outros atos. Refiro àqueles que ao perpetrá-los, agimos contrariamente à nossa consciência. É o erro previamente concebido e corretamente executado e que, portanto, como erro não se caracteriza (pois o verdadeiro erro, neste caso, em involuntário acerto se haveria convertido). É a ação que se pretende imperativa ou natural, embora imbuída de perversa superficialidade. É o contrariar voluntariamente os princípios mais profundos da justiça e da humanidade. É o mal. Daí provém a vergonha.
Proteja-me Deus disto. Proteja-me desta dor interna e avassaladora, à qual eu não conseguiria resistir.
E dê-me forças para sustentar, perante quem seja, e com Razão e sabedoria, o peso de meus atos - talvez pouco acertados, alguns provavelmente muito errôneos - mas, ainda assim, meus.
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