Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também
sábado, 26 de noviembre de 2005
Apenas antes de voltar ao caos...
Apesar da pressa e da pressão,
Do cansaço e de alguma dor,
Da preocupação e também de alguma preguiça,
Apesar de uma revolta ingênua que nunca aflorará,
E de um orgulho tímido,
Apesar da pilha de documentos que me espera
E do telefone que apenas espera tocar,
Ainda assim dou-me tempo em uma manhã de sábado,
Manhã de chuva e um friozinho bom,
Alguns espirros, calafrios,
Café, pães e frutas...
Dou-me tempo...
Porque o mundo tem tempo em abundância
(daí provêm a expressão todo tempo do mundo...)
E eu o tenho em escassez...
Dou-me então tempo. Não muito, mas algum...
Tudo é um questão de equidade...
Metade
Oswaldo Montenegro
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