Pois, entao. É claro que eu estava surtando. Para piorar tudo, final de semestre, fim de semana chegando. Seis resenhas para entregar. E eu – ai, ai – lendo García Canclini... Um saco... Caríssimos, todos sabemos que eu adoro estudos culturais. Adoro essa coisa de discurso, construcao, hegemonia, etc, etc. Realmente, curto isso. E vivo isso. Talvez alguns estejam pensando: bullshit... Mas falo sério. Sou um liberal de esquerda. Too much leftist, indeed, in Mariani´s opinion. Mas realmente acredito nessas coisas e vivo em uma eterna utopia...
Mas o ponto é: é claro que eu estava surtando. E já nao podia continuar lendo. Já nao queria ler. Pelo menos, nao aquilo. Nem queria escrever. Por mais que tivesse as idéias claras, soubesse como comecar, desenvolver e concluir. Talvez, exatamente por isso. Eu nao queria escrever. Nao sobre aquilo. Nao naquele momento.
E o peso das regras, dos prazos... Internamente, eu só pensava: se, no fim das contas, faco isso para mim... Por que essa culpa? E por que essa cobranca?
Eu estava surtando. Ficando azul e morrendo, sem ar.
Nao queria ligar o computador. Seria abrir as possibilidades para a escrita. E eu nao queria escrever. Nao podia escrever. E nao queria fugir.
Foi entao que liguei para ela. Mas e se ela estiver com o namorado? E se ela estiver estudando? E se ela nao puder sair? E, se puder sair, devo realmente falar tudo o que penso? O que falar? Ligo?
Ela atende. Nao havia visto minha mensagem. Concedo o benefício da dúvida. Tomamos uma cerveja? Dale. Dale. Simples.
Um pouco de ar.
Banho rápido. Qualquer roupa – hum... essa calca jeans precisa ser lavada... Cabelo molhado, ouvindo música – Almost Famous – pela ampla avenida até a estacao de metrô. O trem demora. Vagao cheio às 21h40. Atravesso o parque, chego à sua porta. Bato a campainha, mas acho qeu está quebrada. Jessi? Ela sai. Vamos comer.
Ar, ar, ar, ar...
Como é bom respirar. Como é bom conversar. Como é bom poder dizer o que se sente, o que se pensa, sem ter que medir palavras... Como é bom interessar-se pelo que a outra pessoa te conta e sentir-se ouvido, independetemente do assunto.
Agradabilíssimas horas. O mundo continua girando. Nao há por que surtar. Sim, eu sou normal. E ela também é normal. Nao estamos fechados ao mundo. E nem o mundo se acabou. Apenas uma questao e sintonia. De escolhas. E de afinidades.
Volto à casa aliviado, feliz. No MP3, Fito Páez. E nem dá vontade de mudar.
Acordo hoje atrasado. Banho, café e rua.
Muito mais tranquilo.
Fodam-se os pseudo estudos culturais.
Vou acabar de ler Malinowski. E, depois, Tristes Trópicos. E vou abandonar essa merda logo.
Se é pra ralar, que seja com Economia. E a esquerdar continuará sendo um deleite, nao um sacrifício. Eterno diletante. Eterna poesia.
Qual o problema de abandonar alguma coisa pela metade? Primeiro, a monografia. Agora, isso. E virao outras. A vida é feita de tentativas e erros. E descobertas... Sempre.