Sim, eu sou um ranzinza, amargo, mal-humorado. Também sou implicante e cada vez mais difícil de conviver. Aliás, ontem o darío fez questao de me lembrar isso várias vezes, entre uma e outra cerveja... Quem mandou ter amigos que só te dizem a verdade? Fazer o quê? Simplesmente, nao suporto pessoas que levantam felizes, dao bom dia ao sol, aos pássaros, à vida, se olham no espelho e dizem: eu te amo, te encontram fazendo café e soltam comentários do tipo: nao é um lindo dia hoje? Talvez eu tenha herdado isso da minha mae, o estereótipo do mau humor matutino. Em sa (cadê o til, porra?) consciência, ninguém se atreveria a dirigir a palavra à minha mae enquanto ela realiza o trajeto cama-banheiro-cozinha. Só depois de tomar café, fumar um cigarro, respirar tranquila algumas vezes, é que ela se torna um ser minimamente tratável. Antes disso, bem, é como eu na maior parte do tempo...
Na verdade, nao sou assim tao insuportável. Adoro piadas, sou super pateta e nada me deixa mais feliz do que falar merda em boa companhia. Depois de duas tacas de vinho, entao, sou incontrolável. Há, inclusive, provas materiais dos vários vexames públicos protagonizados por este que vos escreve. E cada um de meus amigos tem um extenso arquivo que, seguramente, será de muita utilidade se algum dia eu tiver um futuro brilhante (o que, ultimamente, tem muito pouca importância...).
Eis que me levanto esta manha, no meu estado natural de benevolência (nula), quando tive aquela visao. Analizando retrospectivamente, acho que me detive, pelo menos, dois ou três minutos tentando entender, imóvel diante daquela figura, transtornado por tal realidade.
Nao é novidade que Miss Perfection está deixando a casa (sim, tive que me controlar para nao colocar um pronome possessivo na primeira pessoa antes do último substantivo). Mais precisamente, até sexta-feira próxima, espera-se (pelo menos, eu espero) que ela tenha realizado sua mudanca à casa do candidato a Mr Perfection. Confesso que tal perspectiva nao me desagrada, em absoluto. Permite-me, inclusive, tentar reestabelecer alguma (mínima) base de convivência social. "Como vai?", "Tudo bem?", "Quer tomar sopa?", "Como andam as coisas na faculdade?" sao frases que se podiam escutar ontem à noite entre Miss Perfection e eu. Estamos avancando, pensei. Com sorte, conseguiria apagar qualquer tipo de ressentimento até o dia de sua partida e, quem sabe, nutrir uma saudade, algo de nostalgia obviamente irracional, que me confortaria quando, anos mais tarde, me pusesse a recordar os primeiros dias da minha volta a Buenos Aires.
Pois bem... Caminhava eu pela casa abandonada - Miss Perfection deve ter ido para a casa do futuro Mr. Perfection ou entao passeia com seus pais, recém-chegados de Perfectionland - preocupado com coisas banais: trocar a areia do Haroldo, lavar a louca, tirar me roupa do varal, acabar o capítulo do Malinowsky, nao perder a hora para o trabalho, quando, subitamente, vi, sobre a estante de livros que fica na sala, aquele objeto.
Aproximados vinte centímetros de altura, formado por duas madeiras pintadas de verde escuro, de formato triangular, que se cortavam/encaixavam pelo centro, dividindo-se assim em quatro semiplanos perpendiculares. Embora auto-sustentáveis, apoiavam-se sobre uma estreita base cilíndrica, que dava ao conjunto a impressao de que flutuava no ar. Em cada semiplano, uma série de perfuracoes me diâmetro considerável criavam vaos circulares dos quais pendiam bibelôs os mais diversos: cubos e esferas coloridos, miniaturas de animais e humanos, sempre sorridentes... Sim, sobre a estante de livros da sala, acima daquele depósito (inútil, é verdade) de conhecimento acadêmico, Miss Perfection, em um derradeiro átimo de sua presenca naquela casa, havia colocado nada menos que uma pequena e singela árvore de Natal. "Feliz Navidad", se podia ler. Feliz Navidad.
Atônito - nao poderia haver outra palavra para descrever meu estado. Perdido entre o riso e o desalento...
Um dia antes, presenciara uma situacao similar. Na cozinha do Ministério, entre restos de frango e xícaras sujas de café, uma minúscula árvore de festao verde, salpicada com alguma gosma branca, recordava-me o imperativo de, nos próximos trinta dias, ser bom, tolerante, piedoso, etc, etc, etc. De guardar meu mau humor no fundo do ármario e vestir o feliz dominó do bem-aventurado. Dei de ombros, naturalmente.
E, entao, aquilo. Dentro de minha casa (nao pude evitar o possessivo), em plena manha, como um post-it na tela do computador ou um recado no alarme do celular, aquele lembrete. De que é Natal. E que é preciso perdoar.
Ok, I give in. Mesmo porque o Darío, como sempre, tem razao...
Só para que fique registrado: descobri que a árvore roda e toca música. Sim, no fundo do poco e cavando, meus caros...
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