jueves, 29 de diciembre de 2005

Fugindo da bancarrota...

Chamem o FMI. A situação está séria. Não, não é como México em 1982 ou 1994, nem Rússia em 1998 ou Argentina em... enfim, melhor evitar polêmicas. Mas é que responsabilidade fiscal é um princípio muito mais premente na vida de pobres indivíduos mortais do que no mundo surreal da esfera estatal. E, ainda assim, é difícil cumprir...

Sim, estou declarando default. Mas não é um default irresponsável. Tampouco irrestrito. Não. Eu tenho princípios! Talvez sequer pudesse chamá-lo default. Rolagem de dívida, renegociação ou qualquer outro termo menos traumático. Mas se eu por acaso tenho alguma dívida com você, não se preocupe: se ainda não entrei em contato com você ou seu representante, você não está incluído na exclusiva lista dos que receberão o calote. Pelo menos, não por enquanto. O fato é: I cannot make ends meet... Portanto, reajuste estrutural já! Na prática: voltar para a cozinha! Pobre Michelle - ou perde a companhia de almoço ou vai ter que vir comer aqui em casa. Mas tem que ser assim.

A outra opção seria cortar minhas sessões de cinema. Imaginem só! Não, não é uma possibilidade.

Poderia cortar ainda a academia - bem, isso não é uma opção tão ruim. Na realidade, é uma ótima maneira de reduzir despesas (sem falar que não me encaixo ultimamente no perfil de cliente assíduo... detalhes...).

Menos agradável é cortar minha lista de livros... Ai... Mas acho que vão ter que esperar um pouco mesmo. Ainda mais porque janeiro é definitivamente o mês menos humanista do ano: é uma indecência o número de contas que chegam na caixa de correios ao longo de ínfimos trinta e um dias. IPTU, IPVA, IRPF, seguro do carro. E minha conta bancária: quem segura???

É, é melhor eu mesmo segurar minha onda. E esquecer todos os cartões dentro da gaveta.

Ainda bem que eu gosto de cozinhar...

domingo, 18 de diciembre de 2005

Nada realmente importante...

Não é nada realmente importante. Nenhum fato inédito ou pensamento revolucionário. Não é um turning point ou um momento a ser eternamente lembrado.

Apenas um domingo, um início de tarde que ainda parece manhã... Um dia com livros, café quente, omelete. Lembrança de amigos, um ou outro telefonema.

Mais um domingo. E, ainda assim, vale o registro. Cada dia vale...

 

******

 

Na vida, a epifania é o que menos importa. Na vida, o que mais vale é a própria vida.

 

******

 

Saudades

Florbela Espanca

 

Saudades! Sim... talvez... e por que não?...

Se o nosso sonho foi tão alto e forte

Que bem pensara vê-lo até à morte

Deslumbrar-me de luz o coração!

 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!

Que tudo isso, Amor, não nos importe.

Se ele deixou beleza que conforte

Deve-nos ser sagrado como o pão.

 

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,

Para mais doidamente me lembrar

Mais doidamente me lembrar de ti!

 

E quem me dera que fossem sempre assim:

Quanto menos quisesse recordar

Mais saudade andasse presa a mim!

domingo, 11 de diciembre de 2005

Sistemas complexos...

Daria uma ótima crônica, não fosse minha própria vida... É simplesmente impossível levar a cabo um plano aparentemente consistente... Tanto esforço para avaliar as alternativas, preparar os cenários, tomar as decisões, comunicá-las e toda essa parafernárlia... e, no fim, não há mais passagem de volta de Buenos Aires para Brasília... Conclusão: devo passar o fim do ano por aqui mesmo. Nessas horas, eu tento acreditar em destino. Foi o destino. O destino que deseja que eu seja padrinho do casamento de uma amiga. No dia 31 de dezembro, no fim do mundo, interior do Goiás... Talvez eu realmente tenha um papel a desempenhar lá. Um papel mais importante do que naquela que acredito ser a cena principal da minha própria comédia... Talvez esteja o destino a conduzir-me, por caminhos estreitos e sinuosos, rumo a uma felicidade mais duradoura. Talvez menos, apenas desviando-me de uma rota que inevitavelmente sempre leva a ilusões... Gosto dessa idéia do destino. É cômoda. Se eu não tenho mesmo o controle de todas as variáveis e se não consigo sequer controlar coisas tão simples como uma passagem de avião... Prefiro mesmo o destino...

Pelo menos meu mau humor deu uma trégua... E eu estou bem... Realmente bem.

Ontem recebi amigos. Chá, bolo, panetone, pão-de-queijo, caldo-verde, sorvete... E aquela sensação gostosa de estar entre amigos... É isso o que vale...

jueves, 1 de diciembre de 2005

Rainy days...

 

Dispensa comentários, não? Ainda mais considerando meu estado de humor ultimamente...


 


Aos que me toleram: desculpem, eu prometo melhorar!!! Aos que não me toleram: leck mich am Arsch!


 


 


Pelo menos consertei meu carro! E juro que vou nadar hoje!!!

Escutando Jamie Cullum e tentando me salvar...

Dias cansativos estes... I'm about to crack down... Meus esforços se dirigem a melhorar o meu humor - há muito não me via tão amargo... tem sido difícil evitar odiar-me a mim mesmo neste estado... Enfim... as coisas vão melhorar. Todo es cíclico, no? ;-)

Transcrevo abaixo algumas linhas, nascidas há alguns poucos dias...

E continuo escutando um novo jazz - Jamie Cullum.

 

 

 

Olhei para o relógio e decidi parar. Não havia muito tmepo e eu devia guardar alguma margem para eventuais atrasos. Não muitos, pois era preciso algo de pressa para evitar a ansiedade - uma estratégia que mantivesse minha atenção sempre nos quinze minutos seguintes, nada muito além disso.

Era portanto hora de parar. Tempo suficiente para sair, comer algo com alguma calma, voltar, arrumar minha mala, tomar um banho, deixar a casa minimamente habitável, dispensar as últimas atenções ao meu gato e partir. Partir cedo, não como de costume: outras pessoas também dependeriam de mim e, o que é mais preocupante, eu dependeria de outras.

Foi assim que parei e saí. Uma fome imprecisa, sem desejos ou particularidades. Talvez servisse mais bem como pretexto. Algo que me levasse à rua, à livraria. Eu sabia que precisava levar-lhe alguma coisa. Não se pode chegar assim, de mãos vazias. Haveria que levar um testemunho, um marco, um objeto concreto que tornasse mais físico algo tão simbólico, tão amorfo, tão unergreifbar. E, assim sendo, haveria de ser um livro. Quiçás um CD - eu que tanto em notas como em versos me componho e descomponho. Seria um CD ou um livro. Mas o CD poderia não cumprir seu objetivo. Tão f'acil nos fala a música, tão direta e pervasively que seriam demasiado grandes as chances de não lograssem mostrar de mim o mais importante.

Foi um livro. O livro. Poucas páginas de crônicas que tanto me marcaram. Sequências de palavras tantas vezes tão confusas que em idade semelhante à sua me tomaram de arrebalde e me levaram a mim. Desatando laços e atando-me à vida, ao plasma... Sim, aquele livro seria apropriado.

DEixei-o aberto, sem embrulho. Pensei em dedicatórias mas não ousei escrevê-las. Eu já sabia, eu acho. E, ademais, não sabia que palavras escolher... Restaram as páginas imaculadas.

Retorno à casa, entre novas notas que me invadem e me ajudam a manter-me dentro do eterno e confortável horizonte de quarto de hora. A mala, as camisas, as meias - mais tarde perceberia que, uma vez mais, havia me esquecido do cinto... Documentos, pente, post-its... A comida para o gato, o telefonema à Fabiana, a chave do carro, a porta, a rua. Sempre a música e meus quinze minutos.

Ela não veio. Eu já sabia. O atraso do vôo, o silêncio do celular, minha falta de assunto, a falta do que ler. O livro que, dentro de minha bagagem, se oferecia de maneira atrevida para que o tomasse em mâos e reabrisse suas páginas. Eu já sabia e talvez por isso não me houvera acometido a tradicional dor de barriga. Sim, eu estava ansioso. Mas apenas como quem anseia a janta.

Não veio a dor, não veio a angústia, o livro não saiu de minha pasta.

Ela não veio. Eu o sabia quando a mala tardava a aparecer na esteira e, no entreabrir de portas automáticas, não via seu rosto curioso, um olhar que procura o que não sabe.

Ela não veio. Talvez eu já esperasse. Acredito que sim, eu já o sabia. Não desses saberes claros, certos. Um pressentimento, algo tão sutil como o medo...

Ela não poderia vir. Sendo como é, conhecendo-a, eu já esperava que não viesse. Não, eu não a conheço tão bem. Ela tampouco a mim. A não ser poucas partes - como profundos cortes, de precisão cirúrgica, que pouco revelam em amplitude, mas ainda assim mostram da essência. Suficiente para que eu intuisse, soubesse, que ela não viria.

Eu não a esperava. Não. Não naquele momento. Não naquelas circunstâncias. Há coisas que não podem ser assim.

Eu não a esperava. Ainda a espero. Como quem espera o que certamente virá.

sábado, 26 de noviembre de 2005

Apenas antes de voltar ao caos...

Apesar da pressa e da pressão,

Do cansaço e de alguma dor,

Da preocupação e também de alguma preguiça,

Apesar de uma revolta ingênua que nunca aflorará,

E de um orgulho tímido,

Apesar da pilha de documentos que me espera

E do telefone que apenas espera tocar,

Ainda assim dou-me tempo em uma manhã de sábado,

Manhã de chuva e um friozinho bom,

Alguns espirros, calafrios,

Café, pães e frutas...

Dou-me tempo...

Porque o mundo tem tempo em abundância

(daí provêm a expressão todo tempo do mundo...)

E eu o tenho em escassez...

Dou-me então tempo. Não muito, mas algum...

Tudo é um questão de equidade...

 

 

Metade

Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também

domingo, 20 de noviembre de 2005

Da vergonha

Se Deus existisse - e, embora eu não creia, suponhamos que exista - eu Lhe pediria que me proteja da vergonha. A vergonha é certamente um dos piores sentimentos que pode acometer uma pessoa.

Quisera eu postergar por tempo indefinido a chegada do dia em que me envergonharei de algum ato meu. Distingua-se aqui a vergonha do arrependimento, do reconhecimento do erro e coisas similares. Acredito que a vergonha tem algo muito próprio, algo que vai além da culpa. Envergonhar-se é não apenas reconhecer a responsabilidade, mas revelar uma traição à própria consciência.

Ninguém pode se envergonhar por errar. Erro constantemente e quero eu errar até o fim dos meus dias. O erro é um dos mais eficazes caminhos em direção ao aprendizado e ao aperfeiçoamento. É inerente à imperfeição humana e tão sinônimo da própria vida que não errar sugeriria que vivo já não estaria eu... Assim que, por amar a vida, erro e seguirei errando, sendo o meu desejo apenas não cometer os mesmos erros, ser criativo na arte de errar - que presunçosamente poderia ser chamado de "ser ousado no viver"...

Mas estes erros, que aceito e aprecio, diferem-se de outros atos. Refiro àqueles que ao perpetrá-los, agimos contrariamente à nossa consciência. É o erro previamente concebido e corretamente executado e que, portanto, como erro não se caracteriza (pois o verdadeiro erro, neste caso, em involuntário acerto se haveria convertido). É a ação que se pretende imperativa ou natural, embora imbuída de perversa superficialidade. É o contrariar voluntariamente os princípios mais profundos da justiça e da humanidade. É o mal. Daí provém a vergonha.

Proteja-me Deus disto. Proteja-me desta dor interna e avassaladora, à qual eu não conseguiria resistir.

E dê-me forças para sustentar, perante quem seja, e com Razão e sabedoria, o peso de meus atos - talvez pouco acertados, alguns provavelmente muito errôneos - mas, ainda assim, meus.

martes, 15 de noviembre de 2005

Corrigendum... ou nota pátria

Na verdade, na comemoração da República, faltou-me sensibilidade para escolher o poema... É que às vezes nos esquecemos de pensar mais além...

Em tal data, quiçás devesse colocar alguns versos do Castro Alves. Não I-Juca Pirama. Antes, Navio Negreiro... "Existe um povo que a bandeira empresta/P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!.../E deixa-a transformar-se nessa festa/Em manto impuro de bacante fria!..." Quando daremos um fim à escravidão? Não só dos negros, mas dos nordestinos, dos analfabetos, dos que se vendem por qualquer pedaço de pão, por uma camisa, por um nada... A escravidão dos nossos miseráveis, cuja maior miséria não é a falta de dinheiro, mas a falta de consciência...

País meu que tanto amo, pátria amada de lindo povo... Possa eu não me esquecer da minha grande dívida para com essa mãe gentil e para com nossos irmãos, a quem haveremos tantas vezes negado a liberdade, sem sequer dar-nos conta da perversa engrenagem...

A República tem que ser para todos. Ou de ninguém será, pois a ninguém pertence aquilo que não existe...

Não comemoremos o aniversário da República - lembremo-nos, sim, deste projeto, em constante, embora lenta, construção...

Augusto dos Anjos...

Adoro Augusto dos Anjos.

Ele, Clarice, José Régio, Guimarães... Todos eles já sabiam que o que importa é somente o plasma...

Ai... dia cansado... Últimas horas de mais um dia... O corpo já limpo, buscando a calma... A alma que vai se entregando ao sono, que lento vem...

Extraño a mi negra...

También a algunos amigos...

 


BUDISMO MODERNO


Tome, Doutor, esta tesoura, e... corte


Minha singularíssima pessoa.


Que importa a mim que a bicharia roa


Todo o meu coração, depois da morte?!


 


Ah! Um urubu pousou na minha sorte!


Também, das diatomáceas da lagoa


A criptógama cápsula se esbroa


Ao contato de bronca destra forte!


 


Dissolva-se, portanto, minha vida


Igualmente a uma célula caída


Na aberração de um óvulo infecundo;


 


Mas o agregado abstrato das saudades


Fique batendo nas perpétuas grades


Do último verso que eu fizer no mundo!

domingo, 13 de noviembre de 2005

O que é Brasília?

Ressaca... Nossa, acho que nem me lembrava como é ruim essa sensação. Minha cabeça parece estourar. Todos os movimentos são lentos... É, acho que estava precisando. É preciso às vezes lembrar-se de certas coisas - da vida que vai além da rotina, da responsabilidade, do mundo limitado das pessoas conhecidas. É preciso se abrir para o lugar, é preciso se abrir.

Festa em uma casa no Lago Sul. Cinco espanhóis que chegaram ao Brasil há um mês decidiram estreiar a casa. Encarregaram um par de pessoas a passar para a frente o convite, com o objetivo de reunir em um mesmo lugar o maior número de pessoas possível.

Não havia tantas pessoas assim. E ainda assim eram tantas... Salvo três ou quatro, todos eram para mim rostos desconhecidos. Uma verdadeira babilônia: americanos, italianos, ioguslavos, espanhóis, brasileiros de várias partes, algumas pessoas de Brasília...

Pessoas que, como eu, não vêem em Brasília razões suficientes para um grande amor. O consenso toca a excelente qualidade de vida, a comodidade, a amplitude. Em muitos casos, contudo, parece também alcançar o desejo de partir. Brasília é assim, eu acho... Talvez seja culpa do horizonte rasgado que convida a vista a mirar sempre o mais além...

Mas, ainda assim, aquela para mim era uma outra Brasília. A mesma Brasília de pessoas que vêm e vão, que estão aqui de passagem... Mas, ainda assim... Uma outra Brasília... Uma na qual as pessoas se abrem para conhecer os outros. Trocam telefones realmente pensando em ligar e combinar outras coisas. Uma na qual o que você diz só é relevante no contexto em que é dito. O mundo... O mundo ficou lá fora. Naquele momento, o mundo não importa. Naquele momento, só o momento vale.

Será isso o que me encanta nos lugares que mais amo?

Ontem, durante a festa, não fossem as mudanças sempre imprevisíveis que o destino impõe aos nossos planos, estaria chegando a Buenos Aires. (Certamente hoje eu também estaria de ressaca...) Mas, por alguma razão, isso não me fez triste. Ouso quem sabe até uma felicidade discreta... Porque, de alguma maneira, ontem eu também deixei a minha Brasília. Em direção, quem sabe, a uma outra mesma cidade...

 

 

(Mas, enfim, talvez sejam tudo apenas ilusões... )

viernes, 11 de noviembre de 2005

Por dónde se escapa del purgatorio?

Semana larga esta...

Mucho trabajo, algunos pasos adelante - pese a otros que siempre terminan por dejarnos en algun lugar entre el comienzo y el fin del camino... De todas maneras, es más blanda la sensación de angustia. Tanto más que me hace pensar si algun día la sentí (al mismo tiempo en que me pregunto cuando volveré a sentirla...).

La vida que siempre cambia, vueltas cada vez más cortas. Cortos circuitos...

Tantas decisiones por tomar y tantas ganas. Pero todo son dudas, todo es incertidumbre. Todo menos la conciencia de que sigo a procura de algo más que respirar...

En las páginas de los libros, en las charlas con los amigos, en cada nueva cosa que se me presenta y que intento aprender, en los momentos solitarios de mi cocina o en las canciones de mi radio todo lo que busco es el camino que me aleje del purgatorio de sobrevivir hasta el día siguiente...

Hoy estaré quizás algunos pasos más distante...

 

 

 

La vida moderna

Letra: Joaquín Sabina

Canta: Paez

 

Una gota de sangre en MTV,
un cadáver conectado a Internet,
Mona Lisa llorando en el jardín,
un licor de cianuro,
muera el futuro,
pasado mañana es ayer.
La enfermedad del corazón
tan mortal, tan eterna,
tiñe de amargura la aventura del yo,
peligros de la vida moderna.
Una secta de hermanos de Caín,
una lágrima por ordenador,
aguafuertes del muro de Berlín,
pasarelas de hielo,
para modelos
violadas por Christian-Dior.
Tragicomedia musical,
cementerio de besos,
hoy, a la deriva, por la General Paz,
naufraga el galeón de los excesos.
Filosofías de arrabal,
mártires del rock and roll
discutiendo, entre las piernas
del dolor
el álgebra de la vida moderna.
Y al final
nunca sé como empezar
a decirte a gritos
que necesito
más que respirar,
que necesito
escapar
del purgatorio de sobrevivir,
hasta el año dos,
hasta el año tres,
hasta el año diez,
hasta el año cien mil.
La soledad
es la ecuación
de la vida moderna.

sábado, 5 de noviembre de 2005

Herr Keuner


Me encanta Brecht...


Massnahmen gegen die Gewalt... Así es...


 


 


Bert Brecht
Maßnahmen gegen die Gewalt


Als Herr Keuner, der Denkende, sich in einem Saale vor vielen gegen die Gewalt aussprach, merkte er, wie die Leute vor ihm zurückwichen und weggingen. Er blickte sich um und sah hinter sich stehen - die Gewalt.
"Was sagtest du?" fragte ihn die Gewalt. "Ich sprach mich für die Gewalt aus", antwortete Herr Keuner.


Als Herr Keuner weggegangen war, fragten ihn seine Schüler nach seinem Rückgrat.
Herr Keuner antwortete: "Ich habe kein Rückgrat zum Zerschlagen. Gerade ich muß länger leben als die Gewalt."


Und Herr Keuner erzählte folgende Geschichte: In die Wohnung des Herrn Egge, der gelernt hatte, nein zu sagen, kam eines Tages in der Zeit der Illegalität ein Agent, der zeigte einen Schein vor, welcher ausgestellt war im namen derer, die die Stadt beherrschten, und auf dem Stand, daß ihm gehören soll jede Wohnung, in die er seinen Fuß setzte, ebenso sollte ihm auch jedes Essen gehören, das er verlange; ebenso sollte ihm auch jeder Mann dienen, den er sähe.
Der Agent setzte sich in einen Stuhl, verlangte Essen, wusch sich, legte sich nieder und fragte mit dem Gesicht zur Wand vor dem Einschlafen: "Wirst du mir dienen?"
Herr Egge deckte ihn mit einer Decke zu, vertrieb die Fliegen, bewachte seinen Schlaf, und wie an diesem Tage gehorchte er ihm sieben Jahre lang. Aber was immer er für ihn tat, eines zu tun hütete er sich wohl: das war, ein Wort zu sagen.
Als nun die sieben Jahre herum waren und der Agent dick geworden war vom vielen Essen, Schlafen und Befehlen, starb der Agent.
Da wickelte ihn Herr Egge in die verdorbene Decke, schleifte ihn aus dem Haus, wusch das Lager, tünchte die Wände, atmete auf und antwortete: "Nein."


 

martes, 1 de noviembre de 2005

Nem tudo é preto, nem tudo é branco, nem tudo é cinza...

O dia hoje foi interessante. Bom? Ruim? Não sei. Interessante, acho que isso. Várias fases, menos que as de toda uma vida, mas talvez mais que as que costumam caber em uma semana. Foi um dia vivo... Sim, acho que foi isso. Engraçado, porque vem justo depois de um dia morto, estancado.

Pode ser o início de uma nova fase. De fato, várias coisas já prenunciavam tal início. É que, às vezes, não basta o prenúncio. Somos todos meio São Tomé mesmo... Eu, sobretudo, ando precisado de chão e de pão, porque de sonhos e promessas... Tantas são em mim que já ocuparam o espaço que havia disponível... E também porque mesmo a alma precisa de alimentar de concreto para seguir se dedicando ao abstrato, ao superior...

Foi um dia de enfrentamentos. Amanhã, talvez depois, virão as consequências, além de outros enfrentamentos, é claro. Veremos o desenrolar das coisas. Não tenho medo.

O que me mata não é a dor, não é a tristeza, não é a derrota. O que me mata é a inércia, a impotência, a conformidade. O que me mata é não me sentir vivo. Vivo como o dia, como as horas.

 

Enfim. Muito trabalho pela frente. Muita força... Vou precisar de muita força. E pouco sono... Combinação arriscada... Mas, e daí? Viver... é... é muito perigoso...

 

Um pouco mais de Guimarães Rosa...

 

"De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas a cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadâo, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! - é o que eu digo. O senhor aprova? (...) Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças - eu digo. Pois não é ditado: "menino - trem do diabo"? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho..."

 

Trecho de Grande sertão: Veredas, logo nas primeiras páginas...

lunes, 31 de octubre de 2005

Para um dia apenas, um pouco de poesia...

"Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu"...


Nem partir, nem morrer. Estancado, talvez. Mas há realmente dias em que melhor quiças fosse, realmente, não ceder ao tocar insistente do dspertador, não se meter forçosa e mecanicamente em baixo do chuveiro, não empurrar goela abaixo goles grandes de café espesso... Há dias em que talvez fosse melhor ficar em casa e dormir. E acordar, e ler um bom livro... Para, assim, sentir que, sim, o tempo passa - vagaroso, nas folhas das árvores, no gato que se espreita à beirada da cama...


Há dias em que a vida parece não ter sentido. Mas não é que falte sentido à vida. É que o sentido é tão simples que não precisa de todos os dias para caber... O sentido da vida é ser. É estar vivo. Aqui estou, cumprindo-o... Hoje, somente isso. Amanhã, talvez, algo mais.


 



Natal na Ilha do Nanja


Cecília Meireles



Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos próprios" e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim.
 
Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.
 
Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: "Boas Festas! Boas Festas!"
 
E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!
 
Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.
 
Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com. pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.
 
É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.

domingo, 23 de octubre de 2005

Decepção...

Estou bastante chateado... Acabo de descobrir que a quase totalidade da minha família votou Não no referendo sobre a proibição do comércio de armas... Nunca pensei que isso fosse ser assim... Talvez mostre o quanto estivemos distantes ultimamente. Talvez reflita um fosso ainda maior na maneira como vemos o mundo... Enfim, fico triste... Acho que o Não vai ganhar e acho que isso é um sinal de como os brasileiros temos a violência, a força, internalizada, banalizada... Preservar o direito de tirar a vida de alguém em " legítima defesa"... Eu acreditava que essa questão já estivesse resolvida quando decidimos formar uma sociedade... Mas parece que voltamos ao estado de natureza hobbesiano, de vida curta, bruta e pobre...

Fico triste também porque não votei. Meu título sendo de BH, tive que justificar. Aproveitei para voltar à UnB e rever os prédios onde costumava ter aulas... Justifiquei o voto na FA, onde passava a maior parte do tempo. Do lado de fora, no estacionamento, havia uma faixa amarela indicando local de votação (na verdade, incitando os faltosos a justificarem ali sua ausência...) De dentro do carro, o retrovisor me sugeria uma, não contradição, mas, pelo menos, polêmica... Um dos bancos de concreto tinha pintado um anúncio publicitário de uma loja de pára-brisas... O "garoto-propaganda" era o Che... E, no meu enquadramento, o Che aparecia ao lado da faixa amarela, tão ligada ao referendo, à "democracia"... Achei interessante... Registrei...

 

A manhã passou tranquila, entre "mates y recuerdos", revisitas a lugares tão conhecidos, pensamentos tâo soltos, sorrisos que lembravam risadas... Depois, Poço Azul com uns amigos do Henrique, colegas da faculdade... Mato, cachoeira, trilha... Descobrir os medos, lutar com eles... Pensar nas limitações do corpo... E naquelas que a alma impõe.

Ao cair da tarde, a chuva vem refrescar a noite... Comida de ontem, requentada, gostosa... Dentes e língua que formam o pão e me renovam as forças para a semana que começa... com prenúncios de tormenta...

sábado, 22 de octubre de 2005

Receita de sábado

Hoje é um sábado de preguiça, de vontade de ficar em casa... Levantei cedo, fui ao curso, que, finalmente, se aproxima do final... Na volta pra casa, passei no supermercado... Vontade de comer carninha com quiabo. Coisa de mineiro... Enfim, não era o meu dia. Um velhinho simpático comprou o último pacote de quiabo... É, aqui em Brasília quiabo é vendido em pacote... Olhei em volta, pensei, pensei... Vontade então de comer abobrinha... E não é que abobrinha aqui também é vendida em pacote? A brasileira, porque a japonesa tem a granel mesmo... Mas como nunca comi abobrinha japonesa... Mas não tem nada não. Comprei o pacote de abobrinha brasileira... De lambuja, acabei levando uma beringela, cebola e cenoura... Não é que a coisa deu certo? Quem se animar, copia:

Refoguei meia cebola picada no azeite. Joguei a abobrinha cortada em meia rodela. Não pode ser pouca abobrinha não. Piquei quatro pequenininhas, mas acho que uma de tamanho decente daria... Comecei a reforgar a aborbrinha. Depois que ela soltou bastante da baba, joguei a beringela, que eu tinha cortado em cubos de deixado na salmoura por uns trinta minutos. Comecei a temperar com uma coisinha que tenho aqui que tem pimenta e limão. Muito bom. Joguei sal também... Quando a beringela já tinha soltado bastante água, joguei a cenoura, cortada em cubinhos pequenos. Acrescentei meio quilo de carne moída, joguei shoyu e então foi aquilo de mexer, deixar descansar um pouco, mexer de volta, deixar, tornar a mexer, enfim. Olhei o tempero... Tava faltando alguma coisa... Duas malaguetas pá' dentro... Hummm, agora sim esse troço fica bom... Começou a secar muito sem a carne ter cozinhado direitinho, coloquei um pouco de água e voltei ao processo mexe, remexe... Um tempinho depois... Bom demais da conta... Com um arrozinho - com bastante cebola, que o bobão aqui deixou quemar um pouco... Humm... Tudo bem que a vontade da carninha com quiabo e angú não passou... Mas esse mexidão ficou bom... To registrando que é para passar pra Mariângela depois... Ah: podia ter acrescentado alho, ou no arroz ou na carne... mas meu alho tava muito velho... fica pra próxima...

Sobrou bastante... Acho que tenho comida até segunda... hehehe

 

jueves, 20 de octubre de 2005

Drummond e o desarmamento

O poeta morreu, mas ainda bem que os versos continuam. Não é segredo que não sou nenhum grande admirador de Drummond, mas há coisas simplesmente belas... Um dos meus favoritos é "Os Ombros Suportam o Mundo"... Mas este que recebi hoje é também fabuloso... Muito pertinente, considerando o momento surreal pelo qual estamos passando no país. Um momento em que grande parte da população parece indiferente ao valor simbólico das armas. Infelizmente, não estarei em BH para votar no referendo. Mas meu voto é, sem dúvida, SIM.É, antes de tudo, um ato simbólico. Um voto de confiança à construção da paz e um voto de rejeição da violência, da destruição niilista, da morte...

Acho que Drummond foi feliz em seus versos...

 


A Morte do Leiteiro


 


Carlos Drummond de Andrade


(a Cyro Novaes)


 


Há pouco leite no país,


é preciso entregá-lo cedo.


Há muita sede no país,


é preciso entregá-lo cedo.


Há no país uma legenda,


que ladrão se mata com tiro.


Então o moço que é leiteiro


de madrugada com sua lata


sai correndo e distribuindo


leite bom para gente ruim.


Sua lata, suas garrafas


e seus sapatos de borracha


vão dizendo aos homens no sono


que alguém acordou cedinho


e veio do último subúrbio


trazer o leite mais frio


e mais alvo da melhor vaca


para todos criarem força


na luta brava da cidade.


 


Na mão a garrafa branca


não tem tempo de dizer


as coisas que lhe atribuo


nem o moço leiteiro ignaro,


morados na Rua Namur,


empregado no entreposto,


com 21 anos de idade,


sabe lá o que seja impulso


de humana compreensão.


E já que tem pressa, o corpo


vai deixando à beira das casas


uma apenas mercadoria.


 


E como a porta dos fundos


também escondesse gente


que aspira ao pouco de leite


disponível em nosso tempo,


avancemos por esse beco,


peguemos o corredor,


depositemos o litro...


Sem fazer barulho, é claro,


que barulho nada resolve.


 


Meu leiteiro tão sutil


de passo maneiro e leve,


antes desliza que marcha.


É certo que algum rumor


sempre se faz: passo errado,


vaso de flor no caminho,


cão latindo por princípio,


ou um gato quizilento.


E há sempre um senhor que acorda,


resmunga e torna a dormir.


 


Mas este acordou em pânico


(ladrões infestam o bairro),


não quis saber de mais nada.


O revólver da gaveta


saltou para sua mão.


Ladrão? se pega com tiro.


Os tiros na madrugada


liquidaram meu leiteiro.


Se era noivo, se era virgem,


se era alegre, se era bom,


não sei,


é tarde para saber.


 


Mas o homem perdeu o sono


de todo, e foge pra rua.


Meu Deus, matei um inocente.


Bala que mata gatuno


também serve pra furtar


a vida de nosso irmão.


Quem quiser que chame médico,


polícia não bota a mão


neste filho de meu pai.


Está salva a propriedade.


A noite geral prossegue,


a manhã custa a chegar,


mas o leiteiro


estatelado, ao relento,


perdeu a pressa que tinha.


 


Da garrafa estilhaçada,


no ladrilho já sereno


escorre uma coisa espessa


que é leite, sangue... não sei.


Por entre objetos confusos,


mal redimidos da noite,


duas cores se procuram,


suavemente se tocam,


amorosamente se enlaçam,


formando um terceiro tom


a que chamamos aurora.


 


 


Fonte: Antologia Poética - Editora Record, 40ª edição,


página 134

Para empezar...

Me envió hoy un querido amigo unos versos de Salvador Luis, un poeta de Perú que yo desconocía, pero que de pronto pasé a admirar... Los versos destacados por mi amigo son el cuento "el señor riberyo", que copio abajo...

La identificación fue inevitable... Me hizo acordar además de José Régio, otro de mis poetas favoritos.

A quienes les plazca, visiten www.salvadorluis.net.

 

 



el señor ribeyro


 


--------Presiento que la ausencia del señor Ribeyro no fue planeada con antelación. Me lo indica el estado en que se encuentra su casa. Su máquina de escribir todavía conserva una hoja inconclusa y el cenicero de cristal permanece sobre su escritorio atestado de colillas y cerillos consumidos. Todo esto me da mala espina.


- "Avanzo, libre, hacia el río, con mi cabeza de oso en la mano, decapitado, feliz. Atrás, sólo la tienda iluminada del circo. En el circo, Marcial, Max, Irma, Kong, los soldados meones, todo enterrado, todo olvidado. Avanzo hacia el agua, sereno al fin, a hundirme en ella, a cruzar la selva, tal vez a construir una ciudad. Merezco todo eso por mi fuerza. No me arrepiento de nada. Soy el vencedor."
- ¿Hasta cuándo piensas recitar ese párrafo?
- No lo sé. Tal vez hasta que te canses.
- Bueno, si de mí depende, entonces ya tuve suficiente.
- ¿Te sangran las orejas?
- Por supuesto que no.
- Entonces todavía no has tenido suficiente, pedazo de mierda... "Si esas luces de atrás son antorchas, si esos ruidos que cruzan el aire son ladridos, tanto peor. Los llevo hacia la violencia, es decir, hacia su propio..."



A pesar de que el señor Ribeyro es un fumador contumaz, sé que es un hombre muy quisquilloso cuando se trata de la limpieza de su cenicero; me niego a pensar que pudo partir sin siquiera arrojar los restos de su vicio al cesto de la basura. No es usual en él. Simplemente, no es su estilo.



- ¿Me permites fumar?
- Ya te dije que no. Este no es uno de tus cuentos, ¿está claro? Aquí se hace lo que a mí me parece.
- Sí, ya lo entendí. Pero hasta el momento no sé qué cosa quieres.
- "Si esas luces de atrás son antorchas, si esos ruidos que cruzan el aire son..."
- ¡Basta!
- "¡Si esas luces de atrás son antorchas! ¡Si esos ruidos que cruzan el aire son ladridos, tanto peor! ¡Los llevo hacia la violencia, es decir, hacia su propio exterminio! ¡Yo avanzo! ¡Rodeado de insectos, de raíces, de fuerzas de la naturaleza! ¡Yo mismo soy una fuerza y avanzo aunque no haya camino! ¡Me hago un camino avanzando!" ¡Me hago un camino avanzando!
- Repítela un millón de veces si quieres. No, mejor aún, un billón. Quizá para ese momento ya me sangren los tímpanos.
- Qué gracioso, imbécil.



Además, ese ventilador portátil gira persistentemente, revolución tras revolución, como si le urgiese un breve respiro. Y hay una taza llena de café sobre el tablero, también tostadas endurecidas en el horno, y si no me equivoco, me pareció ver la ventana del baño abierta. Definitivamente, el televisor está encendido, de eso no me cabe la menor duda porque ese comercial de dentífrico lo conozco como si fuera mi palma.



- La verdad, no sé por qué vine a buscarte.
- Claro que lo sabes. Me buscas porque me tienes miedo. No soportas que yo ande suelto por ahí.
- Será mejor que me vaya. Ya me aburriste.
- Como tú quieras, pero te prometo que no te vas a librar de mí. No te vas a librar de mí hasta que hagas lo justo.
- Sabes perfectamente que no puedo hacer eso.
- ¡Claro que puedes! Si puedes hacer que Irma aguante el peso de Marcial todas las noches, si puedes hacer que el oso agonice en su jaula, que el teniente Sordi olvide su pistola en el cuartel, entonces puedes matarme, una y mil veces si te da la gana.



Otra razón que me lleva a especular acerca de su partida es la ostensible molestia de Madame Pichot. La pobre mujer lleva dos días esperando al señor Ribeyro, pues éste le prometió merendar con ella y echarle un vistazo a una carta que, según la regordeta señora, el mismísimo Guy de Maupassant le envió a su abuelo materno allá por el siglo XIX. No sé si será cierto, pero tampoco me incumbe. En todo caso, lo que es verdaderamente preponderante es el intempestivo viaje del señor Riberyo.



- ¿Viniste solamente para pedirme que te mate?
- Vine porque quiero que se haga justicia. ¡Yo no pienso pudrirme en esa selva para siempre! ¡Tú me vas a matar!
- Ya te dije que no.
- ¡Tienes que hacerlo! ¡Ya no aguanto más ese lodazal, ni el calor, ni toda esa vida de mierda!
- Me largo de aquí. Déjame pasar.
- ¡Tú no sabes lo que es estar en esa selva, Ribeyro! ¡No lo sabes! ¡Cada vez que alguien lee esas páginas Irma se compadece a sí misma! ¡Y es tan hermosa! ¿Por qué la hiciste así de bella? ¡Y Max, y Kong, y todos esos soldados inútiles! ¡Tú dices que yo soy una fuerza, que soy el vencedor, y es a mí al que vencieron! ¡Es a mí! ¡Pero mi sufrimiento nunca acaba, se repite cada vez que abren el libro, se repetirá por siempre, y todo porque no quisiste matarme!



¿Por qué se fue sin cargar equipaje? Monsieur Baruch dice que el martes pasado lo vio tomar un taxi con las manos vacías. ¿A dónde pudo haber ido el señor Ribeyro? La sobria hoja que dejó en su máquina de escribir solamente muestra una decena de efes y enes y repetidas equis.



- No seas melodramático, Fénix. Es sólo un cuento.
- ¡Tú sabes que no es así! ¡Tú sabes que no es sólo un cuento porque yo estoy vivo! ¡Necesito morir, Ribeyro! ¡Cambia el final!
- No. El cuento se va a quedar tal y como está. Muerto no me sirves.
- ¡Mátame, hijo de puta! ¡Di que una serpiente me mordió en el río! ¡Que Sordi me pegó un balazo!
- ¡El cuento se queda tal y como está, Fénix!
- ¡Si pudiera partirte el pescuezo, lo haría sin pensarlo dos veces!



No sé si deba dar parte a la policía. Los vecinos están un poco intrigados, pero el casero todavía no da por desaparecido al señor Ribeyro. Tal vez ya esté por regresar y me preocupo sin razón. ¿Qué son unas cuantas colillas en el cenicero, unos cerillos? Voy a esperarlo hasta las cinco. Francamente, no quisiera irme sin el autógrafo que le prometí a Gilda y sin que me responda un par de interrogantes que tengo acerca de ese cuento llamado Fénix.



- Tú eres mi creación y puedo hacer contigo mi antojo.
- Sí. Pero de aquí no saldrás vivo.
- Fénix, no me amenaces. Sabes muy bien que no puedes levantar un solo dedo en mi contra. Eso no está escrito.
- Tal vez yo no pueda hacer eso, pero él sí.
- ¿Él? ¿Quién es él?
- El autor de este cuento te va a matar.
- No sé de qué autor me hablas. Además, si yo muero, tú jamás podrás salir de la selva. Eso no te conviene, Fénix.
- Te equivocas. Si tú mueres, yo continuaré exactamente en el mismo tiempo y espacio donde me encuentro ahora.
- ¿De qué hablas?
- Yo no soy Fénix. Y tú tampoco eres el verdadero señor Ribeyro. Nosotros somos los personajes del cuento número V. Tu nombre es Alfa. Yo me llamo Beta. Cuando Gamma se haga presente, el cuento concluirá.
- ¿Gamma?
- Gamma es tu auténtica Némesis. Por cierto, Alfa, ya no tardas en pedirle por tu vida.




*Basado en Fénix de Julio Ramón Ribeyro