viernes, 21 de diciembre de 2007

Fechando para abrir novo.

Essas coisas de fechar o ano. Sabe como é. Inevitável nao fazer um balanço. Talvez, se não houvesse as férias no meio de tudo, eu nem faria nada disso. Mas com a perspectiva de embarcar no sábado e aproveitar três semanas no Brasil, a ruptura na rotina acabou me levando a realizar esse exercício de revista de auto-ajuda...
E não sei se são as medidas que eu uso para pesar o mundo, mas a verdade é que o prato sempre pende claramente para o lado positivo.
Custo a aceitar a pecha de pollyanna, tanto como me recuso a acreditar em todas outras síndromes. Há tantos nomes que se podem atribuir ao que não é nada mais que ser humano... E sou assim. Por um lado, completamente obsessivo. Por outro, mais etéreo que o próprio ar. A mesma massa que vai definindo meus rituais, determina o que relevar e o que, simplesmente, deixar que exista, porque um dia foi... Nunca o olvido - porque isto nunca se escolhe - resignação, talvez. E tratar de seguir adiante. Keep walking, eu já disse e volto a repetir. Eu realmente acredito nisso.
Em todo o resto, sei lá. Não sei se devo saber. Só não quero deixar de sentir.

Pd: o balanço do cartão tá bem mais vermelho que o da vida, mas enfim, de alguma maneira tem que acontecer o equilíbrio, não? E estou convencido de que uma barraca, uma mochila e um saco de dormir sao excelentes investimentos a curto, médio e longo prazo.

Immerse your soul in love.

viernes, 14 de diciembre de 2007

Estou para divagações...

Eu te disse que este era um mundo estranho... É que eu fico pensando nas palavras. Depois que elas já deixaram de ser o que um dia, talvez, tenham sido. Foram? Enfim, eu fico assim... Divago. E digo coisas sem sentido. Mentira. Coisas que são apenas sentido. O que não há que buscar são significados. Não existe nada além da mera sensação, efêmera, equívoca, única.

Não creio em significações. Acho que é por isso que depois, pensando, repetindo, pensei que seria mesmo bom patinar. E cair. Uma vez - mais de uma, mas uma vez parece que soa melhor - patinei. Meu corpo tem guardado em si o gozo da queda. Do movimento e da intensidade do atrito. Do calor que produz a superfície fria em contato com o equilíbrio desfeito. Mas melhor é andar a cavalo. Cavalgar. Saltar. Sinto falta disso, sabe.

Sei lá. Fiquei aqui pensando. Deve ter sido a música. O rock. O fato de estar sozinho e não ter nada além da música. O rock... E que boa música. Eu acho que eu queria compartilhar. E não encontrei melhor maneira que as palavras.

Patinei.

Acho que também foi o choripan. E o chimichurri... Enfim. Fui tudo.

Que bobagem a minha, achar que essas coisas podem ser ditas. Que bobagem a minha, insistir na busca do fim da minha idiotez. Resigna, marcelo. Cala.

 

Ps: adorei o show do Fito & los Fitipaldis. Viva España!

martes, 11 de diciembre de 2007

Blow me up

É preciso escrever. Porque os dias vao passando e as coisas vao passando e, no final, tudo já passou. É preciso escrever para que tudo fique registrado. Eternizar. ?. Sao também as palavras expressoes efêmeras. Sao e, logo, des-sao. Eu já escrevi isso, alguna vez, em algum lugar. Alguém leu?
É preciso escrever mesmo assim. Porque ao fazê-lo, sinto-me mais humano. Com tudo o que isto implica.
É mentira. Eu sei. Mas quem disse que a humanidade está composta de verdades? O contrário. Desconfio. Sou mineiro, você sabe.
Escrevo porque preciso respirar. Preciso de um momento. Nem que seja para colocar essas coisas soltas, desconexas, desconectadas. Eu, que já nao sei muito bem a quê estou conectado. Se é que existe algo.
Sao de volta tudo perguntas. E milhoes de respostas que soam tao certas como o cair da noite, que, no verao, chega mais tarde. E, às vezes, parece nao chegar nunca.
E vou me revezando entre noites de desesperante insônia com outras de profundo sono. Igualmente desesperantes. É que já nao sei se há quem fechar ou abrir os olhos. Para olhar para quê? Dentro? Fora?
Às vezes, mesmo essa fronteira parece desdibujada. Sei que nao se diz isso em português, mas eu gosto da palavra. É bonita, nao é? Desdesenhar. Que nao é outra coisa que formar um novo desenho...
Desdesenhado. Acho que estou me desdesenhando. E nao tenho a mínima idéia do que é isso.

 

E, no meio de tudo isso, me incomoda profundamente o seu olhar. Ela que me olha com juízo, com desprezo. Quase pena? Quase raiva? Preferiria ser olhado com os olhos de blow-up. Amplia-me. Escreve-me. Nao necessariamente em algo legível. Nao necessariamente em algo comprenssível. Sensível, talvez, apenas. Crível. Simplesmente porque existe.

 

Escrevo.

domingo, 2 de diciembre de 2007

Mineirinho

De Clarice Lispector

 

"É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que esta doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que muita gente que não matou'.

Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais - vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.

Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho - essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar 'feito doido' de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador - em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porquê adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime . Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.

Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo - uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.

Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno".

jueves, 29 de noviembre de 2007

Congresso de Bruxaria

Ela me responde: “immerse your soul in love”. Desconfio a deliciosa ironia em sua resposta, embora também exista a possibilidade de que esta seja uma referência a algo que, como tantas outras coisas, desconheço.
Mas é que eu contei para ela de ontem. Centro Cultural Recoleta. Mesa Redonda sobre Clarice Lispector. Todo mundo sabe que é minha autora preferida (junto com Guimaraes Rosa). Mais de um amigo veio comentar comigo: “lembrei de você”. E, claro, lá fui eu. Nao estava tao interessado nas conferências, mas haviam prometido leituras... E eu estou lendo, pela n-ésima vez, Uma Aprendizagem. Também tá lá, na minha peça. Enfim, como diria o outro: “objetos trobados”. (ps. Outro dia tive um orgasmo quando pensei que, no livro, c.l. trocou Ulisses e Lorelei de lugar: amarrou a sereia no mastro e fez Ulisses cantar... nao que seja um achado, mas, enfim, cada um bate punheta conforme lhe convén, nao é mesmo?). O ponto é: lá fui eu.
Legalzinho, tudo. Distribuiram uns contos traduzidos, escreveram umas frases na parede, enfim... Já inventaram a roda, nao é mesmo. Na platéia, cinqüenta pessoas, mais ou menos. E, eu, me sentindo mulher, negra e pobre: um homem, com menos de cinqüenta anos e que nao tem nem doutorado, nem mestrado, nem especializaçao, nem bacharelado e, na verdade, nem um cursinho rápido em Clarice Lispector ou qualquer coisa do gênero.
Na mesa, Yudith Rosenbaum e Laura Hana. Aquela, brasileira, de fala doce, calma. Um vestido preto, simples, verao. Cabelos anelados, soltos, curtos. Óculos para ler. A otra, enfim, prefiro chamá-la bicho loiro. Argentina, poderosa, tailleur impecável, as madeixas douradas minuciosamente penteadas. Olhar firme no horizonte. Pediu que a anfitria repetisse a apresentaçao. E se enfureceu, sem perder a pose, naturalmente, quando a amiga se esqueceu de apresentá-la. Sua raiva aumentava a cada conto que a primeira citava, roubando-lhe uma a uma as cartas na manga... Enfim. Tem gente que confunde glamour com exu-berância... Depois falou uma tradutora de c.l.. Rápida, concisa, direta. Nenhuma palabra pouco interessante, nenhuma palavra fora de propósito.
Talvez porque eu me sentisse acuado. Talvez porque eu achasse que aquele incômodo que eu sentia nao merecesse muita psicoanálise. Talvez simplesmente porque eu nao sei ficar calado. Falei. Uma pregunta, que tentou ser o mais breve possível, dentro dos meus limites de prolixidade... E perguntei se elas nao achavam que dizer que os conflitos das personagens de Clarice eram conflitos femininos nao era dizer algo que a autora jamais havia suposto... Que, eu achava, inclusive, que ela jogava com esses mesmos conflitos em seus personagens masculinos (e só pensava em Ulisses. E em mim, que nao sou personagem, muito menos de Clarice, mas bem que poderia ser...). Foi o suficiente para o que mundo viesse abaixo. Eu havia despertado o ódio da confraria de velhas cultas e ricas da Recoleta. “Parece que há uma confusao entre feminino e feminidade, aquí”, sugeria uma, esclarecendo minha confusao conceitual e explicitando minha inferioridade ante a intelectualidade literária. “É um fato que homens têm mais dificuldade para entender Clarice”, dizia outra, supostamente referindo-se a algum estudo quantitativo no campo da cogniçao que eu, burro, desconheço. “Os homens nao estao dispostos a ter a sensibilidade que requer ler Clarice” – me informou uma bicha louquésima, deixando-me sem muitas opçoes: ou eu nao era homem ou nao tinha sensibilidade suficiente. E outra, a curadora, de cara repuxada, tentando me salvar: “mas é claro, Clarice é um gênio! Tanto que seus personagens masculinos soam tao verdadeiramente masculinos”. Ok, me calo.
A mesa já era redonda. Eu nao ia ficar para ser o banquete.
I´d rather immerse my body in a swimming pool.

martes, 27 de noviembre de 2007

Parturiente

Ele acordou o bicho e, desde entao, nao pode dormir.

Pensa que é o calor. Talvez sejam os mosquitos. Ou o vento que entra, tornando impossível decidir-se entre cobrir e se mostrar.

Nao é nada disso. Ele sabe. A verdade é que ele acordou o bicho e por isso nao pode dormir.

Ouve sua respiraçao quente, a roçar-lhe as paredes do intestino. Agitado, inquieto. Quer sair.

Um cavalo?

Nao.

Desconfia.

Que o seu bicho é mais deforme. Mais violento. Mais negro.

Ele deseja, exige. Agora.

Ele está desperto e quer sair.

Tomar tudo. Em um só gole. Em um só jato. Em um só gozo.

E, entao, só entao, poderá, ele, voltar a dormir.

E, quem sabe, nao estará sozinho.

 

Quando, seu moço, nasceu meu rebento

Nao era o momento dele rebentar

 

Alguém me empresta algo de Sarah Kane?

sábado, 24 de noviembre de 2007

Me lo dijo ella

Ela confirma quando eu lhe pergunto se estou falando muito alto.

E então eu percebo que ser querido não requer protagonismo. E que protagonisto é diferente de pavoaria.

domingo, 18 de noviembre de 2007

Elocubração precoce

Lendo poesia antes de ir para a cama.

O fim de semana parece ter acabado antes do tempo, precoce.

Como o sexo da noite passada.

Como o amor que não pôde ser.

 

(e esse romantismo adolescente? quando passa?)

viernes, 16 de noviembre de 2007

Parando la pelota

Nunca joguei futebol. Na verdade, quando eu era bem pequeno - antes da segunda série... - tive algumas tentativas frustradas. Meus sonhos terminaram com um terrível frango, entre as pernas, de uma bola "recuada"... ou seja, gol contra... Mas isso nao me impede entender a força dessa metáfora. Você recebe o passe, perfeitamente trabalhado pelo seu companheiro, dribla um, dois, três, fura a defesa, está na boca do gol. A torcida prende a respiraçao. Os atacantes do time adversário, longe de você, têm os olhos arregalados. O goleiro do teu time aperta o pulsos, enquanto o do outro lado trava o cú (perdao, mas futebol sem palavrao nao é futebol). Neste momento, o que você faz? Chuta? Claro que nao. Até o mais ingênio e inepto dos jogadores sabe o que fazer neste momento: você pára a bola e olha. Só depois, chuta.

Pois bem. Dai concluimos que me encontro aquém do umbral que separa os mais ingênuos e ineptos desta categoria a que pertenço... ;-)

Afoito, sempre chuto. Chamemos isso ansiedade, impaciência, imaturidade, ignorância, arrogância ou teimosia. Também poderiamos dizer romanticismo,  incurável otimismo... Enfim. O ponto é: eu tendo a chutar. E, claro, erro.

Mas, às vezes, a gente aprende um pouquinho. E hoje, pelo menos, eu vou parar a bola. E ver se vale a pena chutar pro gol ou passar adiante.

Cada um escolhe o jogo que joga.

sábado, 10 de noviembre de 2007

Wherever I hang

E naquele livro amarelo, achei uma linda adaptação do poema abaixo. A adaptação (e o livro) é de Jan de Jager. O poema é de Grace Nichols. Onde ela deixa os sapatos, onde ele deixa as cuecas. Omnia mea mecum porto. Mas onde deixo os meus livros?

Totalmente perdido. Mas, pelo menos, terminei de escrever a peça. A primeira versão dela.

 

Wherever I Hang

 

I leave me people, me land, me home
For reasons I not too sure
I forsake de sun
And de humming-bird splendour
Had big rats in de floorboard
So I pick up me new-world-self
And come to this place call England
At first I feeling like I in a dream -
De misty greyness
I touching the walls to see if they real
They solid to de seam
And de people pouring from de underground system
Like beans
And when I look up to de sky
I see Lord Nelson high - too high to lie.

And is so I sending home photos of myself
Among de pigeons and de snow
And is so I warding off de cold
And is so, little by little
I begin to change my calypso ways
Never visiting nobody
Before giving them clear warning
And waiting me turn in queue
Now, after all this time
I get accustom to de English life
But I still miss back-home side
To tell you de truth
I don't know really where I belaang
Yes, divided to de ocean
Divided to de bone
Wherever I hang me knickers - that's my home.

jueves, 8 de noviembre de 2007

Ta gueule, salope!

Tempestade de surrealismo... Congresso veta exposicao intitulada "Heróis" por causa de um nu - frustrantemente discreto e elegante, devemos admitir - de Rogéria. Muito mais vergonhosa deve ser a foto do ACM, que também compoe a mostra. Eu vetava por absoluto mau gosto e atentado à ética... Além do mais, vai que o bicho se anima e resolve reencarnar bem no meio da vernissage... Nao sobra Exu, com medo da concorrência...

E a coisa continua com o mais novo lançamento da Folha, que ensina as bichas a se comunicarem em oito idiomas diferentes, no maior estilo bibas of the world, unite. Mas duvido que aqueles que leiam a nota na internet compre o livro. Culpa da Folha, que, na pequena amostra grátis, já revela o essencial: "ta gueule, salope!". A-D-O-R-O! Depois dessa, para quê mais? Cala a boca e beixa, bem bagaceira mesmo. Em francês, que é mais chique. Ai, desculpa, chic.

Mas, o bom mesmo, é o outro lançamento deles (o governo brasileiro só pode estar subsidiando a indústria gráfica para justificar essa intensidade editorial): A Maconha, por (ninguém menos que) Fernando Gabeira. Esse sim deve vender horrores. Nada de pais comprando leitura didática para os filhos. Baseando-nos (oops) no primeiro capítulo - amostra grátis é política editorial agora - o mais provável é que o livro seja consumido pelo imenso exército de maconheiros enrustidos (sim, eles existem) que, até o momento, dependiam de uma voz legitimada e imparcial (me refiro à Folha, obviamente. hahaha) para expiar a culpa com muita fumaça branca. (Cá entre nós, adorei as digressoes sobre Shiva. Mas que dá um medinho interno de terminar igual ao Gabeira, ah, isso dá.)

Para fechar, hoje, às 21h30, em Acevedo, 460, aumenta a probabilidade de falhas no projeto de luz da peça "La sonrisa de los siervos". É que o que lhes escreve vai ajudar a operar alguns pins e spots, marcando sua volta oficial ao mundo espetáculo. Queixas, com a direçao.

lunes, 5 de noviembre de 2007

Safena

O rolo do Pato mandou essa música para ele. Não connheço a música, nem o rolo e o Pato tá lá no Japão. Mas adorei. E ponho aqui. Que o mate!

 

 

Sabe o que é um coração
Amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
Aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
Comecem a obra!
Por favor, mestre de horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
Comece você primeiro passando verniz nos móveis e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, oxum, afrodite, vênus e nossa senhora
Apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
Aticem as velas
Que lá vou de novo na solteirice
Exposta ao mar da mulatice
À honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
Lustrem as superfícies
Aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
De amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.

 

Elisa Lucinda

 

miércoles, 31 de octubre de 2007

Für dich

"De manhã cedo

Já está pintada

Só vive suspirando

Sonhando acordada.

 

O pai leva ao doutor

A filha adoentada

Não come nem estuda

Não dorme nem quer nada.

 

Mas o doutor nem examina

Chamando o pai de lado

Lhe diz logo, em surdina:

 

- O mal é da idade!

E que para a tal menina

Não há um só remédio

Em toda a medicina."

 

Luiz Gonzaga, Xote das Meninas.

viernes, 26 de octubre de 2007

Y, bueno, nada...

E porque há sol. E faz um calor de matar. Mesmo que ontem tenha chovido. Muito. Tanto que o Pedro teve que trocar as pedras do Haroldo. E deu aquela preguica de sair de casa. E quando o Henrique chegou, decidimos que ficaríamos em casa mesmo. Nem fomos assistir os reincidentes. E o Pedro e o Henrique acabaram dormindo, enquanto eu me maravilhava com a fotografia de O Passageiro...

E porque é primavera e os plátanos - quando se chamam em português? - enchem o ar com essa coisa que faz espirrar e cocar os olhos... Embora talvez esse seja o único rastro de primavera. Lá na minha cidade, isso é verao. Mas lá na minha cidade é diferente - os ônibus às sete da manha já estao abarrotados de gente e nem daria para ir a Belgrano tranquilo como hoje...

E porque amanha é sábado. E nem importa se terei que passar o dia trabalhando - promessa que venho renovando há duas semanas, sempre sem cumprir. E por isso me vejo cada vez mais forcado a cumpri-la a todo custo. Mas nem é tao dramático assim. Nada é tao dramático assim. No fim, tem até teatro. Tem até ela.

E porque eu comprei esse livro de capa amarela sem nada escrito. Cheio de textos misturados em milhares de línguas, sem referências precisas. Que quando ia passando as suas páginas ia me enchendo disso que nao se pode explicar. E como comentar isso em análise? Eu que nem fui nessa semana. Vou na próxima. Gostei tanto que comprei dois. Um para presente. Que é quase um porta-retrato. Algum dia terei que pagar. Essas coisas. Enfim.

E porque, algum dia, tudo isso será borrosa lembranca. Só por isso. Escrevo.

Nada mais.

 





Beija Eu
Arnaldo Antunes, Marisa Monte

 

Seja eu!
Seja eu!
Deixa que eu seja eu
E aceita
O que seja seu
Então deita e aceita eu...

 

Molha eu!
Seca eu!
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu
Anoiteça e amanheça eu...

 

Beija eu!
Beija eu!
Beija eu, me beija
Deixa
O que seja ser...

Então beba e receba
Meu corpo no seu
Corpo eu, no meu corpo
Deixa!
Eu me deixo
Anoiteça e amanheça...

 

Seja eu!
Seja eu!
Deixa que eu seja eu
E aceita
O que seja seu
Então deita e aceita eu...

 

Molha eu!
Seca eu!
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu
Anoiteça e amanheça eu...

 

Beija eu!
Beija eu!
Beija eu, me beija
Deixa
O que seja ser...

Então beba e receba
Meu corpo no seu
Corpo eu, no meu corpo
Deixa!
Eu me deixo
Anoiteça e amanheça...

 

miércoles, 17 de octubre de 2007

Krishna

Te vi em Buenos Aires ontem. Era igual a você. Subiu ao ônibus com uma mochila pequenininha nas costas. Óculos retangulares de armações grossas, escuras, contra a pele clara. Cabelo castanho em uma grossa trança, que descia até o meio das costas. Levava um blaser beige, bem cortado, lindo, perfeito para ela. Na roupa, algumas coisas rosinha. E a mesma expressão no rosto. De quem pensa enquanto se dirige a algum lugar. O corpo está cansado, mas a cabeça dá mil voltas.

Te vi ontem em Buenos Aires. No ônibus 29, em direção à Boca. Você subiu na avenida Luis M. Campos, mas não sei quando desceu. Te perdi olhando pela janela.

 

02-10-07_000402

lunes, 15 de octubre de 2007

Não há motivos para que soe triste

Time

 

Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an off hand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way

 

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun

 

And you run and you run to catch up with the sun, but its sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in the relative way, but youre older
Shorter of breath and one day closer to death

 

Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the english way
The time is gone, the song is over, thought Id something more to say

 

Home, home again
I like to be here when I can
And when I come home cold and tired
Its good to warm my bones beside the fire

Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells.

 

 

lunes, 8 de octubre de 2007

Sobre mantras, verdades e contradicoes

JOSÉ

Carlos Drummond de Andrade
 
          E agora, José?
          A festa acabou,
          a luz apagou,
          o povo sumiu,
          a noite esfriou,
          e agora, José?
          e agora, você?
          você que é sem nome,
          que zomba dos outros,
          você que faz versos,
          que ama, protesta?
          e agora, José?

          Está sem mulher,
          está sem discurso,
          está sem carinho,
          já não pode beber,
          já não pode fumar,
          cuspir já não pode,
          a noite esfriou,
          o dia não veio,
          o bonde não veio,
          o riso não veio
          não veio a utopia
          e tudo acabou
          e tudo fugiu
          e tudo mofou,
          e agora, José?

          E agora, José?
          Sua doce palavra,
          seu instante de febre,
          sua gula e jejum,
          sua biblioteca,
          sua lavra de ouro,
          seu terno de vidro,
          sua incoerência,
          seu ódio - e agora?

          Com a chave na mão
          quer abrir a porta,
          não existe porta;
          quer morrer no mar,
          mas o mar secou;
          quer ir para Minas,
          Minas não há mais.
          José, e agora?

          Se você gritasse,
          se você gemesse,
          se você tocasse
          a valsa vienense,
          se você dormisse,
          se você cansasse,
          se você morresse...
          Mas você não morre,
          você é duro, José!

          Sozinho no escuro
          qual bicho-do-mato,
          sem teogonia,
          sem parede nua
          para se encostar,
          sem cavalo preto
          que fuja a galope,
          você marcha, José!
          José, para onde?

 

Há frases que se repetem uma e outra vez. "Eu nao sou fa de CDA." Heresia que poderia custar a vida a um mineiro. Ou render-lhe glórias entre os pretensos poetas livres. "Eu nao gosto de CDA". Quase um mantra em meu rosário ateu. E entretanto, mais uma vez o cito. Porque há coisas que sao assim. Você pode repeti-las um milhao de vezes. E, por mais que você esteja certo da veracidade daquela afirmacao, sabe, de algum modo, que a maior verdade nao é livre de contradicoes.

Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?

Para onde, José? Para onde marcho?

Uma e outra vez. Sem que nunca haja importado realmente a resposta.

Adelante, siempre adelante.

Que los abismos sólo se revelan de muy cerca.

domingo, 7 de octubre de 2007

After saturday

Domingo, 21hs. Esperando o Henrique para ir comer uma pizza imunda no Continental.

Às vezes, a comida é o que menos importa.

E essas festas ainda vão acabar comigo.

sábado, 29 de septiembre de 2007

Ítaca

Conheci o poema abaixo em uma versão espanhola, enviada pela Jéssica... Algumas pessoas sabem que, desde então, tem me corroido os pensamentos. Não conhecia Cavaky e, agora, depois de breves incursões por algumas coisas suas, acho-o parecido a Pessoa, parecido a José Régio... Filhos do mesmo tempo? Quem se animar, aí vai um link, onde podem encontrar a obra poética completa, taduzida ao inglês: www.cavafy.com. Como não sei grego - quem sabe o Digo ou a Jose me ajudassem a sair desse imbróglio - ofereço duas traduções contrastantes.

Estou me organizando para escrever sobre isso. Comentários, impressões e desaforos são, portanto, muito bem-vindos.

Saudades aumentadas pelo silêncio de muitos.

Marcelo

 

 

 

Ithaka
Constatine Petrou Cavafy


As you set out for Ithaka
hope the voyage is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians and Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians and Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.
 
Hope the voyage is a long one.
May there be many a summer morning when,
with what pleasure, what joy,
you come into harbors seen for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to gather stores of knowledge from their scholars.
 
Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you are destined for.
But do not hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you are old by the time you reach the island,
wealthy with all you have gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.
 
Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you would not have set out.
She has nothing left to give you now.
 
And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you will have understood by then what these Ithakas mean.

 
 
Translated by Edmund Keeley/Philip Sherrard
www.cavafy.com






Ithaka
Constatine Petrou Cavafy


When you set out for distant Ithaca,
fervently wish your journey may be long, —
full of adventures and with much to learn.
Of the Laestrygones and the Cyclopes,
of the angry god Poseidon, have no fear:
these you shall not encounter, if your thought
remains at all times lofty, — if select
emotion touches you in body and spirit.
Not the Laestrygones, not the Cyclopes,
nor yet the fierce Poseidon, shall you meet,
unless you carry them within your soul, —
unless your soul should raise them to confront you.
 
Fervently wish your journey may be long.
May they be numerous — the summer mornings
when, pleased and joyous, you will be anchoring
in harbours you have never seen before.
Stay at the populous Phoenician marts,
and make provision of good merchandise;
coral and mother of pearl; and ebony
and amber; and voluptuous perfumes
of every kind, in lavish quantity.
Sojourn in many a city of the Nile,
and from the learned learn and learn amain.
 
At every stage bear Ithaca in mind.
The arrival there is your appointed lot.
But hurry not the voyage in the least:
’twere better if you travelled many years
and reached your island home in your old age,
being rich in riches gathered on the way,
and not expecting more from Ithaca.
 
Ithaca gave you the delightful voyage:
without her you would never have set out:
and she has nothing else to give you now.
 
And though you should find her wanting, Ithaca
will not surprise you; for you will arrive
wise and experienced, having long since perceived
the unapparent sense in Ithacas.

 
 
Translated by John Cavafy

sábado, 8 de septiembre de 2007

Começando um sábado

Há pouco, o La Nación lançou um caderno de cultura novo, ADN. Ainda não tomei a oportunidade de debruçar-me nele e ver se cumpre com a promessa... Na verdade, tenho sincero medo de que seja o pedantismo elevado à quinta potência. Mas, como sempre, fui dar uma olhadinha lá hoje, antes de começar minha rotina que envolve lavanderia, supermercado e macroeconomia. E encontrei essa crônica do Leavitt, uma bicha americana simplesmente hilária. A quem interessar possa: http://adncultura.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=941139. E confesso: entre os infinitos futuros possíveis, esse poderia muito bem ter sido um dos meus. Me refiro ao personagem narrador, obviamente.  

lunes, 3 de septiembre de 2007

Segunda-feira...

Segunda-feira. Dia de reunião com seu chefe.  Ele viaja de férias para o Caribe na quinta. Volta dez dias depois. E você tem que terminar o seu capítulo, que já vai lá pela quinta versão preliminar... Você senta frente a ele. E a cabeça explodindo. Porque na sexta, você decidiu comer aquele doce de mamão comprado lá naquela feira do interior de Minas com gosto de infância, cujos restos se encontravam estratégicamente guardados há uns bons meses (três, pelo menos) no fundo da sua geladeira. Abriu, cheirou, não franziu o nariz... prá dentro. E pronto: a sensação é de que, enroladinho no mamão, vinha a Timbalada em aquecimento de Carnaval... Sábado e domingo na cama. Ou melhor, entre a cama e o banheiro. E agora, com Carlinhos Brown bombando na testa, ele te olha com aquela cara: não se preocupe, mas está uma merda. E dá uma risada cúmplice. Mas você só pensa no quão rápido pode sair dali e pergunta para que serve tanta farmoquímica que ainda não foi capaz de inventar algo para calar a batucada...

Decide: saindo daqui, passo pelo hospital. Afinal, aquele doutor de escovinha e gravata descombinante que informava seu diagnóstico com a determinação (e altura) de um tenor em pleno solo, bem, aquele doutor não te convenceu. Onde já se viu diagnosticar gastroenteritis por causa de uma dor de cabeça? Dor de cabeça, ouviu? E pior: onde já se viu ir embora e deixar o moribundo padecendo com todo o axé-afoxé-ileaiê??? Nem uma aspirina... Não... eu tenho é meningite e esse senhor vai me deixar morrer. Depois da reunião, passo pelo hospital e vão me diagnosticar bem. Aposto que nem vão me deixar sair. Meningite. Gravíssimo. Mata até. Mas o seu chefe ainda está te explicando como redigir pelo parágrafo... 

Novamente, ele não passou da terceira página. De vinte. Outras vinte são anexos. Quadros e mais quadros. Você não sabe para quê, mas pediram, enfim, estão ali. Uma pequena seleção dos pelos menos 200 que pagaram suas contas nos últimos dois meses... E ele não passou da terceira página. Mas já preparou um novo índice. Cinco ou seis páginas somente. Sem quadros. (???). Mas se são vinte, não há problema. Também podem ser duas. Com economia de linguagem. O essencial. Análise entre pontas. Mudanças estruturais, somente. Quem é você para argumentar. Se ele pedisse a Bíblia em versos para daqui a duas semanas, acho que topava. Você nem tenta um sorriso. Há muito já se convenceu da sua pouca capacidade de dissimular... E o tun-tis-tun a pleno...

Você respira. Em poucos minutos, vão te diagnosticar meningite. Ou algo mais sério. Mais grave. Tudo, menos uma dor de barriga. Nada menos digno que uma dor de barriga. Por causa de um doce de mamão? E desde quando um mineiro passa mal com doce de mamão??? Você faz as contas. Olha os comentários nas três primeiras páginas. Escrever para um leitor inteligente é a consigna. Tá, não deve ser tão difícil... E você tem dez dias. Apaga o computador e vai para o hospital.

A doutora conversa. É mais simpática. Pergunta o que aconteceu. Você conta tudo. Dor de cabeça, muita, muita, muita. Frontal, latente, aguda. Não vai embora? Não, com nada. Febre? Muita, sábado e domingo. Hoje, não. Um pouco de diarréia. Ontem. Hoje não. Ê eu até já fui ao banheiro. Você, tentando escapar da humilhação... Não conta sobre o engomadinho que gritava. Ela pede para você deitar. Pega o estetoscópio e coloca sobre sua barriga. E você começa a desconfiar que perdeu. Ela pergunta: comeu alguma coisa fora de casa ou comprada? Você tenta salvar o pouco da dignidade que lhe resta: não. Ela dá o veredito: é gastroenteritis. Seu intestino está um pouco acelerado... E quase oferece como consolo: é muito comum, por algo que você comeu ou tomou. Vou te prescrever uma dieta, algo para a infecção, algo para diarréia (mas eu já não disse que voltou tudo ao normal, cacete?) e algo para a dor-de-cabeça (vitória!!!).

E aqui estou eu. A Timbalada tá fazendo um intervalo. O analgésico é mesmo forte, mas ainda assim tenho que mover a cabeça com cuidado (pelo visto, deixaram os tabaques soltos lá dentro). O remedinho para a gastroenteritis promete cefaléia... To pensando aqui se tomo... E o da diarréia... algo parecido a leite de magnésia. Mas esse eu só tenho que tomar em situações de crise.

Acho que vou dar de presente para meu chefe. Para ele levar para o Caribe...

sábado, 25 de agosto de 2007

Não digas nada: sê!

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

 
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias. 

 

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.  

 

É Fernando Pessoa, em Cancioneiro.

E é ainda mais lindo na voz do Ney Matogrosso, com os Secos e Molhados.

 

E no meio de tudo isso, encontrar esse poema aí embaixo. Justamente daquela a quem nada preciso dizer para que tudo me entenda. Eu, torpe, teimoso, esquecido... Mas que não esqueço jamais do quanto a amo. Invisível se vê.

 

Saudadites.

sábado, 11 de agosto de 2007

"Guess I'll start it up again"

Recovering the Satellites

Counting Crows

 

Gonna get back to basics
Guess I'll start it up again
I'm falling from the ceiling
You're falling from the sky now and then
Maybe you were shot down in pieces
Maybe I slipped in between
But we we're gonna be the wildest people they ever hoped to see
Just you and me
So why'd you come home to this sleepless town
It's a lifetime commitment
Recovering the satellites
All anybody really wants to know is...
When you're gonna come down
Your mother recognizes all your desperate displays
And she watches as her babies drift violently away
til they see themselves in telescopes
Do you see yourself in me?
We're such crazy babies, little monkey
We're so fucked up, you and me
So why'd you come home to this faithless town
Where we make a lifetime commitment
To recovering the satellites
And all anybody really wants to know is...
When are you gonna come down
She sees shooting stars and comet tails
She's got heaven in her eyes
She says I don't need to be an angel
But I'm nothing if I'm not this high
But we only stay in orbit
For a moment of time
And then you're everybody's satellite
I wish that you were mine
So why'd you come home to this angels' town
It's a lifetime decision
Recovering the satellites
Everybody really knows for sure...
That you're gonna come down
That you're gonna come down

 

domingo, 5 de agosto de 2007

O vento me trouxe um beijo

Há pessoas que são capazes de ver além do invisível.

E cujo carinho, discreto, sempre chega no momento mais exato.

Obrigado por estar aí.

 

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
Será tão loura, e clara, e vagarosa e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem pela janela,
trazer luz e calor a esta alma escura e fria.
 
E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração que vela...
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz.. .Tudo isso eu me dizia,
 
quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste...
 
e falou-me de longe : "Eu passei a tu lado,
mas ias perdido, em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!

 

Guilherme de Almeida 

sábado, 4 de agosto de 2007

Electrocardiograma. Vivo. Demasiado humano.

E quando tudo parecia começar a desabar, ele imaginou que as coisas poderiam ser simples.

 

"Show me how you do that trick
The one that makes me scream" she said
"The one that makes me laugh" she said
And threw her arms around my neck
"Show me how you do it
And I promise you I promise that
I'll run away with you
I'll run away with you"

Spinning on that dizzy edge
I kissed her face and kissed her head
And dreamed of all the different ways I had
To make her glow
"Why are you so far away?" she said
"Why won't you ever know that I'm in love with you
That I'm in love with you"

You
Soft and only
You
Lost and lonely
You
Strange as angels
Dancing in the deepest oceans
Twisting in the water
You're just like a dream

 

"- Ya sentiste como si padecieras poesía? Hay días enteros así... De pronto todo se vuelve verso, desproveído de la razón ordinaria de las cosas."

 

Recolheu os livros e saiu.

 

"- Guau... Puede ser... Pero es tan difícil encontrar las palabras para describirlo."

 

As nuvens caíam pesadas no chão. Brancos pedaços de éter espalhados pelo quarto.

 

"- Qué buena onda este Mickey..."

 


Daylight licked me into shape
I must have been asleep for days
And moving lips to breathe her name
I opened up my eyes
And found myself alone alone
Alone above a raging sea
That stole the only girl I loved
And drowned her deep inside of me

You
Soft and only
You
Lost and lonely
You
Just like heaven

 

(The Cure, Just Like Heaven, Kiss me, Kiss Me, Kiss Me, 1987)

martes, 17 de julio de 2007

Credo

Eu nao acredito na penitencia como caminho para a ressurreicao. Nao acredito na culpa como expiacao do pecado. Nao acredito na razao como salvacao da alma.

Eu acredito na poesia dos seus olhos. E na leveza do ar.

miércoles, 11 de julio de 2007

Bajo cero en Buenos Aires

Vamos juntos?
A dónde vamos?
En los días fríos hay que tener coraje para levantarse. Hay que tener coraje para despirse. Hay que tener coraje para entrar a la ducha. Hay que tener coraje para salir de la ducha. Hay que tener coraje para vestirse. Hay que tener coraje para abrir las ventanas. Y para cerrarlas. Hay que tener coraje para salir a la calle. Hay que tener coraje para salir.
Vamos? A dónde vamos? Vamos juntos?
En los días fríos hay que tener coraje para ir solos.
Porque en todos los demás días mucho más coraje se necesita para ir juntos.

 

En los días fríos es más facil hacerse el corajoso cuando uno no lo es.

lunes, 9 de julio de 2007

Alle Lust will Ewigkeit

O Mensch! Gib acht!
Was spricht die tiefe Mitternacht?
"Ich schlief, ich schlief -,
Aus tiefem Traum bin ich erwacht: -
Die Welt ist tief,
Und tiefer als der Tag gedacht.
Tief ist ihr Weh -,
Lust - tiefer noch als Herzeleid:
Weh spricht: Vergeh!
Doch alle Lust will Ewigkeit -,
- will tiefe, tiefe Ewigkeit!"

 

Also sprach Friedrich...

domingo, 29 de abril de 2007

Grab your coat and get your hat

Enfim me levanto, depois de rolar algumas horas na cama. Hoje é um dia claro. No céu, não há nuvens e o sol convida a sair.

Dissimulo os vestígios do jantar da noite anterior. Os físicos, apenas, pois como diz a publicadade de uma revista daqui, há manchas que valem mais que a camisa... E vou pensando que há algo místico no ato de comer...

Supostamente, eu iria a um café e veria aí o chegar da noite, entre fórmulas e números. Mas há sol. Portanto, separo alguns textos e saio. A buscar o meu lugar ao sol.

Life can be complete on the sunny side of the street.

(A K lê meus posts e me pergunta se estou ficando com alguém. Eu gostaria de abraçá-la. Mas apenas rio...)

viernes, 27 de abril de 2007

Placing my bet

Eu ia escrever. Um montao de coisas. Porque há muito nao escrevo. E, nao obstante, transbordo epifania.

Mas acontece que o dia foi avancando, devagarzinho, de vagar... E nao ficou nada, senao a vaga sensacao de felicidade.

Faz frio, mas o sol brilha solitário no céu. Outono fingindo primavera. Eu finjo estar apaixonado, arriscando, numa dessas, apaixonar-me.

jueves, 26 de abril de 2007

listen to the blues when fall comes

It seems fall has finally come and in this almost cold city I let the blues play. It must be this season when leaves and I are supposed to fall.

 

Tom Waits and Bette Midler in I never talk to strangers - as good as it gets

 

 

[B:] "Bartender, I'd like a Manhattan, please."

 

[T:] Um, stop me if you've heard this one,
but I feel as though we've met before.
Perhaps I am mistaken.


[B:] But it's just that I remind you of
someone you used to care about.
Oh, but that was long ago.
Now tell me, do you really think
I'd fall for that old line?
I was not born just yesterday.
Besides, I never talk to strangers anyway.

 

[T:] Hell, I ain't such a bad guy
once you get to know me.
Just thought there ain't no harm.


[B:] Hey-e-yeh, just try minding your own business, bud.
Who asked you to annoy me
with your sad, sad repartee?
Besides, I never talk to strangers anyway.

Your life's a dime store novel.
This town is full of guys like you.
And you're looking for someone
to take the place of her.

 

[T:] You must be reading my mail.
'N' you're bitter 'cause he left you.
That's why you're drinkin' in this bar.


[B&T:] Well, only suckers fall in love
with perfect strangers.

 

[B:] It always takes one to know one, stranger.


[T:] Maybe we're just wiser now.


[B:] Yeah, 'n' been around the block
so many times


[T:] that we don't notice


[B&T:] that we're all just perfect strangers
as long as we ignore
that we all begin as strangers
just before we find
we really aren't strangers
anymore.

 

[B:] "Aw, you don't look like such a chump."

 

[T:] "Aw, hey babe."

viernes, 20 de abril de 2007

Um pouco de Vinicius

Não é triste, ainda que chores. É belo. E vivo.

 

 

Ausencia

Vinicius de Moraes

 

Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

lunes, 16 de abril de 2007

Gris

Quando amanheceu, a névoa cobria a cidade. No rádio, um tango o despertava. Piazzollamente? Nao se lembrava. Mas eram similares os giros, os saltos. Oníricos. Sorriu-se. Saiu à varanda para buscar a toalha. Úmida em meio à névoa. Buscou a 9 de Julio e nao a viu. Tampouco as luzes vermelhas que costumavam piscar no alto dos edifícios. O gato veio dar-lhe os bons dias. E ele ronronou de volta bons dias. Na cozinha, a cafeteira jorrava o café espesso e amargo, que tomou a goles pequenos, sorvidos com algum ruído. Colocou na mochila algumas coisas. Uma muda de roupas, chinelos, sabonete, talco para os pés e lancou-se à cidade. À névoa densa. As gotículas cobriam seu rosto.

O sol nao havia aparecido, mas já iluminava em tons de cinza. Ele se sentia à vontade, como se, finalmente, em seu mundo. Nao que nao gostasse das cores – amava-as – mas elas guardavam qualquer coisa de irreal que, de alguma forma, o incomodava. A felicidade das cores. Seus tons absolutamente vivos. Desconfiava que os vivos eram menos intensos. Pálidos como nos dias cinza. Talvez se sentisse mais livre; ou mais conforme.

 

E quando preparava seu almoco, presenciou um pequeno milagre. Sobre a superfície da abóbora cortada, repousada sobre a bancada da cozinha, brotavam, como se de dentro viessem, bolhas minúsculas de água. Lenta e continuamente, incrustaram aquela superfície com pequenos cristais esféricos. E o laranja intenso da abóbora fez-se variável multicolorida.
Tentou tirar um retrato. Mas – que tolo – o essencial só é visível aos olhos. Aos olhos cinza.

 

***

No jornal, a previsao do tempo anunciava felicidade tranqüila.

Limbo

Devidamente extraído do seu contexto original, um trecho do artigo de Federico Gabriel Poliak, publicado no La Nación de hoje (16 de abril de 2007).

 

"Hubo un tiempo en que se difundía una leyenda urbana que afirmaba que a Buenos Aires arribaban misteriosos personajes, muchos de ellos famosos, incluso célebres, un día después de su muerte. Aquí se dedicaban a una suerte de vagabundeo inercial, sin rumbo fijo, hasta que les fuera otorgado el ticket de partida. El cuento decía que Buenos Aires era una ciudad fachada, un biombo apropiado para ocultar la verdad: no era la capital de la Argentina, sino El Limbo; para la imaginería popular, el lugar situado a medio camino entre el Cielo y el Infierno, donde esperan aquellos no admitidos de inmediato en uno u otro."

domingo, 15 de abril de 2007

Entendeu?

Eu deveria ler mais coisas do Vargas Llosa. Artigo publicado no La Nación de ontem, 14 de abril de 2007, reproduzido do El País...

 

¿Y el hombre dónde estaba?
Por Mario Vargas Llosa
El País

  

En el año 1944, en Dhaka, Bengala, entonces todavía parte de la India, un niño de once años vio llegar arrastrándose al jardín de su casa a un hombre malherido que pedía agua. Se llamaba Kader Mia y era un operario musulmán miserable que, pese a los desórdenes y las matanzas que ensangrentaban la ciudad, había salido a trabajar para poder alimentar a su familia. Lo lincharon en la calle fanáticos hinduistas por el único delito de ser musulmán, así como muchos musulmanes fanáticos degollaban en los barrios de Dakha a los hinduistas que encontraban en su camino. Kader Mia falleció en los brazos de aquel niño y su padre cuando éstos trataban de llevarlo a un hospital.

Amartya Sen, el niño de mi historia, nunca olvidó aquel episodio de su infancia ni las matanzas de cientos de miles de personas que ocurrieron aquellos días en la India por la guerra religiosa desatada entre hinduistas y musulmanes, que culminaría con el desmembramiento del país y el nacimiento de Paquistán, país que, años más tarde, se desmembraría a su vez por luchas despiadadas entre los propios musulmanes, por razones étnicas y regionales, a causa de las cuales nacería Bangladesh.

Desde aquel entonces, el futuro economista y filósofo, galardonado con el Premio Nobel de Economía y uno de los pensadores liberales más lúcidos de nuestro tiempo, aprendió a desconfiar de esas categorías colectivas -religión, raza, nación, lengua, etcétera- que pretenden definir de manera concluyente lo que es un individuo y a ver en esa "minimalización del ser humano", como la llama, a la corta o a la larga, una semilla de violencia y de crimen.

"¿Y el hombre dónde estaba?", dice uno de los versos del Canto general, de Neruda, que recuerdo desde la primera vez que lo leí, de adolescente. Es la pregunta que parece hacerse Amartya Sen en cada una de las páginas de su último libro, Identity and Violence. The Illusion of Destiny , recientemente publicado en una Inglaterra que he encontrado -vuelvo después de casi ocho meses- removida, desde las bombas terroristas de julio de 2005, con debates y dilemas sobre los temas del multiculturalismo y la existencia en el suelo británico de comunidades de razas, lenguas, culturas y credos diferentes.

En efecto, ¿dónde están el hombre y la mujer singulares y concretos, de carne y hueso, en esas abstracciones en que los disuelven los teorizadores, políticos y clérigos colectivistas para quienes la credencial definitiva y determinante de un individuo es su pertenencia a un colectivo? Disueltos, desaparecidos, regresados brutalmente a la condición tribal, a ser sólo piezas desechables del ente gregario, de modo que así puedan ser mejor odiados o endiosados.

Aunque su libro sea una refundición de conferencias y textos escritos para todos los rincones del mundo, y por momentos resulte algo repetitivo, se trata de un ensayo apasionante, valeroso y polémico, que trata de hacer prevalecer el análisis racional y la sensatez intelectual sobre los actos de fe, los prejuicios y las pasiones políticas que generalmente enturbian toda discusión sobre la identidad, el multiculturalismo, la globalización y la nacionalidad en nuestros días, en un mundo que, desde los terribles atentados terroristas de Nueva York, Washington, Madrid y Londres, se siente inseguro y confuso sobre aquellos asuntos y al que, sobre todo, el fenómeno de una inmigración creciente e inatajable de personas de confesión musulmana ha llenado de prevenciones y suspicacias.

Amartya Sen recuerda una y otra vez, con ejemplos al alcance de la inteligencia más elemental, que todo ser humano es muchas cosas a la vez y que tratar de encajonarlo en una "pequeña cajita" -por ejemplo, su religión, su raza o su lengua- es desnaturalizarlo totalmente y condenarse a no entenderlo. Todos pertenecemos a muchas colectividades y esa múltiple pertenencia, a la vez que nos acerca y emparienta con un vasto sector, nos va diferenciando y alejando de otros (de los que también somos parte). De este modo surge nuestra identidad, en razón de una combinación muy compleja, y en cada caso diferente, de circunstancias que nos son impuestas y elecciones libres con las que confirmamos o rechazamos lo que se nos viene dado por nacimiento, familia o educación, y optamos por algo distinto.

Las identidades colectivas suprimen mediante una reducción arbitraria aquellas matizaciones y ven en los seres humanos no criaturas soberanas, con derechos y deberes inherentes a su individualidad, sino productos seriales, idénticos entre sí, privilegiando una sola de sus características -por ejemplo, ser negro, musulmán, cristiano, blanco, budista, vasco, judío, etcétera- y aboliendo todas las demás.

Ese descuartizamiento de la humanidad en bloques rígidamente diferenciados es peligroso, porque alienta el fanatismo de quienes se consideran superiores -el pueblo elegido, la raza pura, la verdadera religión, la clase redentora, la nación ejemplar- y los autoriza a ejercer la violencia sobre los otros.

Es, además, una distorsión profunda de la realidad humana, sobre todo en la época moderna, uno de cuyos grandes logros es justamente haber abierto mucho el espectro de opciones entre las que el hombre y la mujer pueden, mediante un libre ejercicio de su libertad, decidir ser diferentes del grupo, secta, comunidad o colectivo del que proceden.

La identidad no es una condición metafísica, estática, sino una realidad viva y, por lo tanto, en permanente proceso de recreación.

Yo soy un buen ejemplo de ese crucigrama de pertenencias y rechazos que, como dice Amartya Sen, constituyen la identidad de un individuo, para mí la única aceptable. Peruano, latinoamericano, español, europeo, escritor, periodista, agnóstico en materia religiosa y liberal y demócrata en política, individualista, heterosexual, adversario de dictadores y constructivistas sociales -nacionalistas, fascistas, comunistas, islamistas, indigenistas, etcétera-, defensor del aborto, del matrimonio gay, del Estado laico, de la legalización de las drogas, de la enseñanza de la religión en las escuelas, del mercado y la empresa privada, con debilidades por el anarquismo, el erotismo, el fetichismo, la buena literatura y el mal cine, de mucho sexo y tiroteo.

¿Se agota lo que soy en esa pequeña enumeración en la que, a simple vista, abundan las incoherencias y contradicciones? No. Podría llenar todavía varias páginas más mencionando todo lo que creo ser y no ser y estoy seguro de que siempre se me quedarían muchas cosas en el tintero. Cada una de ellas me solidariza con buen número de personas y me enemista con otras tantas y de toda esa amalgama de tensiones y fraternidades, que nunca se aquieta, que está siempre rehaciéndose, resulta mi identidad, la única en que me reconozco. Todo el mundo podría decir otro tanto de sí mismo, si se examina con imparcialidad.

Amartya Sen reconoce, desde luego, que uno de los rasgos de una persona puede, en ciertas circunstancias, convertirse en esencial. Ser judío en la Alemania nazi, por ejemplo, o ser negro en la Africa del Sur del apartheid, reducía a una persona a ser sólo eso, a los ojos de los victimarios racistas, para poder matarla o discriminarla con buena conciencia. Ser gay entre homófobos o ateo entre creyentes fanáticos obliga a una persona a privilegiar esta condición sobre las otras, ya que ella lo convierte en un marginal y a veces en un perseguido. En todos estos casos son los otros, por su intolerancia y sus prejuicios, quienes imponen aquella reducción de la complejidad y diversidad que es todo ser humano, para hacerle sentir, al que se diferencia del rebaño, su rechazo o su odio. El profesor Sen -indio de nacimiento, inglés de formación, profesor a caballo de Harvard y de Cambridge, ciudadano del mundo por vocación- critica en su libro a los gobiernos que, como el británico y el francés, con las mejores intenciones, han convertido en personeros e interlocutores de las comunidades de inmigrantes musulmanes a los líderes religiosos.

¿No es ésta también, se pregunta, una manera de confinar a los inmigrantes en una de esas cajitas gregarias donde son desindividualizados y transformados en masa? Si se quiere que los inmigrantes se integren en las sociedades occidentales lo peor que se puede hacer es entregarlos atados de pies y manos a esos clérigos entre los que, a menudo, figuran los islamistas más intolerantes y opuestos a toda forma de asimilación. Estoy casi en todo de acuerdo con los sólidos argumentos de Amartya Sen. Salvo en uno. Para él, ni siquiera la cultura, en su vasta acepción -las tradiciones, la lengua, los usos y costumbres- constituye un obstáculo considerable para que una persona singular pueda elegir su soberanía optando por opciones totalmente ajenas a su comunidad. Sin duda, ése es el ideal, que la libertad pueda ejercitarse por todos y de modo tan radical. Pero me temo que no sea así y que, en muchos casos, el factor cultural constituya un obstáculo mayor para que un hombre o una mujer puedan romper con la tiranía de la tribu. No es imposible que lo consigan, pero el precio puede ser muy alto. Aconsejo a quien lo ponga en duda que lea la autobiografía de Ayaan Hirsi Ali, Infidel , donde narra la heroica aventura que fue para ella emanciparse de la opresión religiosa y cultural y conquistar su libertad. Me entusiasma que los dos ensayos más importantes recién aparecidos en Occidente sobre la cultura de la libertad los hayan escrito un indio y una somalí.

 

lunes, 26 de marzo de 2007

Gilt das für eine Antwort?

Könnte mein Atem

Federn in Schwebe halten

und einen Flaum steigen lassen,

  bis ihn der Wind davontrüge,

    wäre nicht viel,

      nur andeutungsweise

der Erde Schwerkraft widerlegt.

 

(Günter Grass - Fundsachen für Nichtleser)

viernes, 23 de marzo de 2007

Ela passeia pelas ruas

Ela passeia pelas ruas. Nao se sabe se foge ou se busca aproximar-se. De quê? Nao se sabe. Ela simplesmente vai migrando. E vai deixando atrás de si pedacos seus que já nao lhe servem. Despojando-se de si mesma. Depurando-se, reduzindo-se. Até chegar ao essencial. Ou até desaparecer.

 

O que vem antes do comeco? Nao sei se ela sabe. Eu tampouco sei. Só sei que ela vai migrando pelas ruas e dói vê-la dobrar cada esquina sabendo que nao pretende olhar para trás. Mas calo. Porque acredito que, de alguma forma, sempre acabamos voltando a algumas ruas. E porque algo meu segue com ela. E que talvez, quando eu dobre aquela esquina, ela estará vindo na direcao contrária.

 

(De tanto olhar para a roda, ela decidiu rodar. Mas a da bicleta gira sobre um mesmo eixo e, para seguir adiante, precisa aderir-se à dureza do chao.)

 

 

jueves, 22 de marzo de 2007

Out of service


This is an automated response. Marcelo is broken into pieces and will reply as soon as he manages to put some of them together again. He is waiting for redemption - whatever this might be. The brightest path has not led to a quieter place and he cannot manage to save himself from chaos (maybe he is not really willing to). For ultra urgent matters, please refer to Haroldo. Hugs accepted.

 

martes, 20 de marzo de 2007

Por causa de você, menina...

Por causa de você bate em meu peito
Baixinho, quase calado
Coração apaixonado por você

 

Menina... Menina que não sabe quem eu sou
Menina que não conhece o meu amor

 

Pois você passa e não me olha
Mas eu olho pra você

 

Você não me diz nada
Mas eu digo pra você

 

Você por mim não chora
Mas eu choro por você

 

A música, salvo equívoco, é do Jorge Ben. Da época em que ele se chamava Jorge Ben, mesmo, antes de culpar à numerologia pelo seu olvido... Quando ele resolveu voltar, nos anos 90, foi um desastre... Enfim, acho que ele nao tem a genialidade dos Mutantes... Felizmente, depois de alguns estrondosos fracassos com remixagens e um sucesso mais que efêmero (se é que Faustao e novela das seis podem ser considerados indicadores de sucesso), acho que ele renunciou ao "Jor" e voltou a ser o que era antes. E, diga-se de passagem: era muito bom. Nenhuma grande revolucao na música, mas, sem dúvida alguma, um marco na música negra brasileira dos anos 70, com uma deliciosa mistura de samba e funk... Cancoes que animariam muitas noites minhas em Brasília... e que me leva para um pouquinho mais próximo de casa quando as escuto nestas terras estranhas...

A versao que eu tenho da música acima nao é a versao original. Na minha modesta e questionável opiniao, é melhor. Trata-se de um dueto dele com a Ivete Sangalo - para o pavor de amigos como a K e o Renato... É lindo quando ela canta "você por mim nao chora" e ele "choro, choro, choro", para que ela entao replique "é mentira que eu sei..." e conclua "mas eu choro por você", enquanto ele insiste... Simples e lindo. O samba tem um pouco disso. Uma tristeza singela que nem parece triste...

Estou impregnado dessa tristeza.

É que também no meu peito, baixinho, quase calado, bate um coracao apaixonado por você... que mal sabe quem eu sou...

lunes, 19 de marzo de 2007

Monday, monday...

E do 13 pulamos ao 19, sem posts novos no caminho... E vale ressaltar o detalhe: terca-feira 13, na Argentina, é dia de azar... Mas, felizmente, minha experiencia pessoal nao serviu para corroborar a sabedoria popular. Ao contrário: os últimos dias foram bastante agitados e, apesar da correria, agradáveis. A casa está uma bagunca e é quase impossível controlar a sujeira, que parece gerar-se espontaneamente. A comida desaparece da geladeira em proporcao exponencial. As horas definitivamente sao mais curtas, bem como as noites de sono. Entretanto, porém, contudo... o balanco é positivo. A convivência com o Henrique e com a Adriana tem sido extremamente prazeirosa, apesar do meu mau humor crônico. Tenho encontrado algum tempo para nao deixar as coisas do mestrado se acumularem e estou um pouco mais otimista que no princípio (embora ainda guarde sérias ressalvas sobre a selecao dos meus queridos coleguinhas...). Também tenho me disciplinado a criar algum tempo para as coisas importantes da vida: som, textura, movimento, em suas distintas roupagens. Claro que segundas-feiras sao sempre segundas-feiras (principalmente porque em Buenos Aires nao tem Calaf...), mas, quer saber a verdade? nem é tao ruim assim...

martes, 13 de marzo de 2007

Contando até três e tomando fôlego...

Eu nao varei a noite escrevendo, nem cometi a insanidade de ir malhar no meio da madrugada. Cheguei a casa e tudo estava limpo, a comida estava pronta... Pequenos sinais. Conversar um pouco e tomar um banho me fez bem... Pensei em seguir direto e tentar terminar tudo o que tinha que fazer. Mas sabia que estava cansado e que nao daria resultados. Rolei uma hora na cama, sofrendo com o calor e com os mosquitos, a cabeca dando voltas de preocupacao. Mas, uma hora depois, dormi. Foi o melhor a ser feito.

Acordei cedo hoje e me coloquei a escrever. Ainda faltam algumas coisas importantes. Mas há outras coisas mais importantes. O ritmo continua acelerado, as coisas pendentes nao deixaram de existir e ainda me pergunto como e quando conseguirei colocar tudo em ordem... Mas sei que depois tudo voltará ao caos... E terei que continuar em pé...

Logo, pelo momento, acho que o importante é assegurar-me de que meus músculos continuem doendo por causa da nova série na academia, que eu possa levar com calma meus estudos e leituras, que invista em outras coisas que disfarcem o quanto desgosto de certas rotinas...

E, o melhor de tudo, me preparar para a chegada do Henrique, que desembarca amanha em Buenos Aires, dando mais uma volta - positiva e caótica, certamente - na minha já complicada vida.

Movimento. É isso que importa. Vai com fé e se joga... e se aparecer alguma mao para se agarrar, enfim... há oportunidades que é melhor nao desperdicar...

lunes, 12 de marzo de 2007

Particularmente medíocre

Eu poderia escrever qualquer coisa ruim. Uma lista de queixas sobre as coisas que vêm acontecendo desde sábado... Coisas que vao da necessidade de trabalhar em algo que você nao gosta até o imperativo de lavar roupa à mao porque a mal comida da lavanderia compensa suas frustracoes com o poder sobre a assignacao das máquinas de lavar roupa...


Eu poderia deixar registrado meu mal humor, minha falta de paciência e a total falta de inspiracao. De lambuja, deixaria gravada minha mediocridade como escritor e ser humano.


Mas eu acabei de entrar no blog da K, reli a história da Sandra e ri. Entao eu decidi entrar aqui e fazer exatamente o que eu poderia fazer. Só que diferente. Afinal, às vezes, nao se pode escapar ao ordinário...

 

 

Insane thoughts:
Como é bom mudar de rotina na academia e sentir dores musculares... eu devia ir malhar hoje depois da aula...
Para completar, eu devia dar um gás final e acabar de vez com aquele maldito relatório... nem que seja para dormir às quatro da manha...
(well, actually, this is not sooooo insane...)

viernes, 9 de marzo de 2007

Reencontro

Ela volta à cidade. Depois da aula, quando a lua já vai alta no céu, ele a espera. Reencontros.
Tomam vinho e, entre um gole e outro, vao desfiando as contas de suas vidas. Primeiro ela, ele depois. Oracoes entrecortadas, regressoes e digressoes – que refletem idéias, que revelam experiências, que os poem a descoberto. Os olhos se cruzam algumas vezes, mas, na maior parte do tempo, vagam pela sala...
Eles estao nus um diante do outro. Nao se olham, mas se vêem. Falam, mas sabem que os significados vao muito além dos fonemas que reverberam. Obviacoes, elipses e silepses. Também negras lacunas.
Chegam as empanadas. Eles comem, bebem, fumam, enquanto o tempo escorre.
O tempo, os sons, os gostos. As imagens, as texturas, os vapores. Tudo comunica. Os transforma em um corpo comum. Comunhao.
E, quando ela vai embora, ele se deita e dorme.

jueves, 8 de marzo de 2007

Complicadas coisas simples

Há uns dois ou três anos, em uma mostra de cine latino-americano em Brasilia, assisiti com a Caju um filme argentino: Cielo Azul, Cielo Negro. Era uma dessas mostras do CCBB, com horários de sessao pouquíssimo convenientes e entradas simbólicas... Passavam dois ou três filmes por dia, um depois do outro...
Pois bem, aquele se tornou um dos meus filmes preferidos – ao lado de The Godfather (parte 2), Butterfield 8, Twelve Angry Men, Lola rennt, Exiles, enfim... Fui vê-lo duas vezes durante aquela mesma mostra e, alguns meses depois, quando esteve em cartaz por curtíssimo período, o vi pela terceira vez. Completamente apaixonado.
Comprei a indignacao de vários amigos com isso. Arrastava-os ao cinema comigo, prometendo-lhes uma das melhores experiências da vida deles. Mas aquela sequência de imagens superpostas, os sons ininterruptos, os acontecimentos nao lineares, a narracao confusa, as coreografias, tudo aquilo parecia encantar a mim apenas. E à Caju...
Quando vim a Buenos Aires – tema que já foi objeto de um post recente – procurei o dvd em alguns lugares, mas sem resultados... Voltei com as maos vazias a Brasília, mas certo de que tornaria a ver aquele filme.
Finalmente, quando regressei a esta cidade já nao como visitante, mas como residente, tinha a firme conviccao de que encontrar Cielo Azul, Cielo Negro era uma questao de tempo.
Talvez um pouco mais de tempo do que pensava.
Perguntava aos meus amigos daqui se a haviam visto e a resposta era sempre negativa, mesmo entre os mais ligados ao mundo do cinema... Aos poucos, comecei a desconfiar de que o filme nao havia sido distribuido no circuito comercial, diminuindo significativamente minhas chances de voltar a vê-lo.
Foi uma surpresa quando, conversando com uma colega de trabalho, ela contou-me que conhecia uma das diretoras – que, em realidade, era coreógrafa, ajudando-me a entender o sentido do movimento ao longo de todo filme... Dias depois, ela me enviou um e-mail com seu endereco eletrônico. Eu deveria escrever-lhe perguntando sobre como conseguir ter acesso ao meu objeto de desejo (já quase uma obsessao).
Esperei alguns dias até que pudesse comentar o fato com a Agustina. A idéia era promover meu ingresso quase triunfal ao cine club... Juntos preparamos o e-mail a Paula de Luque.
No dia seguinte, ela me respondeu. Nao mais que duas ou três frases secas, dizendo que eu deveria entrar em contato com a produtora. Broxei. E nao escrevi.
Entao, hoje, a produtora me escreveu, supostamente com a desculpa de que o e-mail que a diretora tinha me mandado nao era correto. Pedia mais detalhes.
Sem nada a perder, apostei minhas últimas fichas. Em tom nada formal, quase íntimo, confessei minha admiracao e minhas humildes pretensoes. Nao deixei espacos para eventuais ilusoes de oportunidades e riquezas. Eu nao era mais que um fan, que nem sequer entedia muito bem de cinema, mas que queria, de qualquer maneira, assistir e mostrar para outras pessoas aquele filme que tanto me apaixonava... Esclareci que o que buscava era algo supostamente simples. Mas apenas uma coisa mais na infinita lista de complicadas coisas simples. Porque eu nao tinha disponibilidade nem intencao de desembolsar qualquer centavo além dos limitados recursos de um estudante... Porque eu tampouco esperava que eles abrissem maos daquilo que é o pao...
E, ao apertar o “enviar”, via a bolinha branca e pesada rolar.
Alea jacta est.
Esperemos.

miércoles, 7 de marzo de 2007

Blasting bubbles?

Ai, ai... sobre a efemeridade das coisas... Quando você acredita que está ali, já na beiradinha, apoiado apenas nos calcanhares, os bracos abertos, prontos para a queda... eis que te trazem de volta à firmeza do concreto, do chao plano e seguro, do horizonte nítido e certeiro...

Assim sao as coisas... as que realmente importam, pelo menos...

Já nao tenho dúvidas de que apaixonar-se é um ato de vontade. Pelo menos em parte - a maior parte. Decide-se apaixonar-se. E se escolhe alguém. Nao um alguém qualquer, é claro. Mas, ainda assim, alguém - indefinido até o momento exato em que os olhos lhe atribuem aquele quê que consiste em requisito mínimo para apaixonar-se... A partir deste momento, as coisas tomam seu rumo natural e cada detalhe cobra uma importância anteriormente inexistente. Vao se acumulando até formar algo de dimensoes tao grandes que parecería que o ser nao poder conte-las em si mesmo. E entao sao sorrisos, músicas, cores.

Engracado, mas é algo quase idêntico a um movimento de especulacao financeira. E talvez porque apaixonar-se seja também um investimento especulativo... E, às vezes, de repente, por algo aparentemente sem muita relevância, estoura e deixa de existir (lá na minha Minas, dizemos "pocar"... pocar bolhas de sabao...).

Eu decidi apaixonar-me. E alguém tornou-se ela. O feio fez-se belo, o ordinário, peculiar. O ar pareceu encher-se de poesia, o piegas transformou-se em autêntica manifestacao do sublime sentimento. No estômago, a azia ganhou asas e as esperas, sufixo: esperancas. E atuei conformemente - dentro da minha limitada capacidade, do meu conhecimento torpe...

Mas as certezas se debilitaram. Em algum tempo, eram dúvidas. Que se transformaram em intuicoes, crencas, rumores... Em um lapso de tempo insuficiente para que qualquer coisa criasse raízes... Triste.

E tudo pareceria findo. Nao fosse uma música. Que já nao tem nada a ver com ela ou qualquer outra, mas sim comigo. Um detalhe que disfarca o frio, fazendo-o morno.

Man, there´s got to be somebody for me.

E, de repente, eu pressinto que talvez eu nao tenha decidido desapaixonar-me. Porque também isso é um ato de vontade.

 






Mr. Jones


Counting Crows


I was down at the New Amsterdam staring at this yellow-haired girl
Mr. Jones strikes up a conversation with a black-haired flamenco dancer
She dances while his father plays guitar
She's suddenly beautiful
We all want something beautiful
Man I wish I was beautiful
So come dance this silence down through the mornin'
Sha la la la la la la la yeah.. uh huh, yeah...
Cut up, Maria! Show me some of that Spanish dancin'
yeah, but, Pass me a bottle, Mr. Jones
Believe in me
Help me believe in anything
'Cause I wanna be someone who believes
Yeah...

Mr. Jones and me tell each other fairy tales
And we stare at the beautiful women
"She's looking at you. Ah, no, no, she's looking at me."
Smiling in the bright lights
Coming through in stereo
When everybody loves you, you can never be lonely

Well, I'm gonna paint my picture
Paint myself in blue and red and black and gray
All of the beautiful colors are very very meaningful
Yeah, well, you know gray is my favorite color
I felt so symbolic yesterday
If I knew Picasso
I would buy myself a gray guitar and play

Mr. Jones and me look into the future
Yeah, we stare at the beautiful women
"She's looking at you. I don't think so. She's looking at me."
Standing in the spotlight
I bought myself a gray guitar
When everybody loves me, I'll never be lonely
I'll never be lonely
Son, I'm never gonna be lonely

I wanna be a lion
E-Everybody wants to pass as cats
We all wanna be big big stars, yeah, but we've got different reasons for that
Believe in me 'cause I don't believe in anything
and I, I wanna be someone to believe, to believe, to believe,yeah

Mr. Jones and me stumbling through the barrio
Yeah we stare at the beautiful women
"She's perfect for you, Man, there's got to be somebody for me."
I wanna be Bob Dylan
Mr. Jones wishes he was someone just a little more funky
When everybody loves you, oh, son, that's just' bout as funky as you can be

Mr. Jones and me staring at the video
When I look at the television, I wanna see me staring right back at me
We all wanna be big stars, but we don't know why and we don't know how
But when everybody loves me, I'll be just' bout as happy as I could be
Mr. Jones and me, we're gonna be big stars.


 

martes, 6 de marzo de 2007

Pollyanna revisited = Pigmaleao

Primeiro dia de aula. Havia uma recepcao de boas-vindas marcada para as 18h30. Às 18h15 eu ainda estava esperando o metrô... Desci na estacao Juramento uns quinze minutos depois e percorri, apressado, os oito quarteiroes que marcam a distância até a faculdade. Deviam faltar uns dez minutos para as sete horas quando cheguei, transpirando (sim, após alguns dias de frio, voltou a fazer calor em Buenos Aires). No salao de usos múltiplos, um coletivo de rostos desconhecidos... Uma mesa com alguma coisa para beliscar, garrafas térmicas cheias de café, garrafas vazias de Coca. "Excelente", pensei, "primeiro dia e eles já estao atrasados... E nem para calcular bem a quantidade de coca-cola gelada em um dia de calor..." Pé esquerdo. Mas eu havia lido o conto de Pigmaleao durante o dia, em várias versoes distintas, e decidi fingir que nao estava incomodado. Aproveitei o atraso para ir ao banheiro e me recompor, afinal, nao precisava de testa brilhando para completar o visual, que já contava com uma bendita e enorme espinha que decidiu sair abaixo do nariz justamente naquela manha... Voltei ao salao e instantes depois o coordenador do curso, recém designado, diria uma meia dúzia de palavras... Ele seria também o professor que me daria a aula logo mais.

Na sala, surpreendi-me com a quantidade de alunos. 35. Lembro-me bem de ter perguntado na entrevista quantos alunos eram admitidos e a quantidade de alunos em sala de aula - algo fundamental, na minha opiniao. "25, no máximo" foi a resposta, seguida de um belo discurso sobre a importância de ter uma sala com número reduzido de alunos para garantir o debate, etc, etc, etc... Eu, naturalmente, acreditei. E agora nao podia evitar meu mau humor. Pigmaleao, Pigmaleao. Da-lhe, Marcelo, um sorriso...

A aula, introdutória, transcorreu sem muitas novidades. Temas conhecidos, apresentacoes, enfim, o velho roteiro de sempre. Para completar o pacote, o professor decidiu que este semestre faremos trabalhos em grupo... E eu buscando descifrar nos rostos desconhecidos algo que me permitisse respirar um pouco mais tranquilo. Em vao... Enfim, pensando positivamente, eu realmente preciso desenvolver minhas habilidades para trabalhar em grupo... Fundamental nos dias de hoje... Sim, eu acredito nisso. Se repetir mais algumas vezes, vou terminar acreditando.

O professor também demorou a voltar do intervalo. E o carinha da xerox nao estava lá quando supostamente devia estar. Mas tampouco estavam os textos... Tudo imaginado para proporcionar alguns momentos de socializacao, é claro... Nao preciso dizer como me saio nestas horas... Por que insito em perguntar como se chamam se segundos depois já nao me lembro? Foi necessário esforcar-me durante a segunda hora para fixar que a menina dentuca se chama F. e que o menino do interior se chama I.. Como se chama a equatoriana? E a brasileira? Enfim, nao se pode ter tudo ao mesmo tempo...

Pelo menos, acabou mais cedo e o ônibus passou rápido. Vi que em quarenta minutos posso estar em casa. E que a uma hora e meia que sobra antes da meia-noite é suficiente para cozinhar algo decente e dormir tranquilo...

Foi o primeiro dia. O primeiro de longos nove meses. Mas, tenho cá para mim, que vai valer a pena. E se eu repetir isso mil vezes, vou acabar acreditando. Sei que vou.

 

Enquanto isso, eu a via transformar-se em minha Galatéia. E acordei com sua resposta a uma mensagem que eu havia enviado. O que é delírio? me perguntou. Nao sei. Mas é bom. Deliremos?

Vontade de encontrá-la...

lunes, 5 de marzo de 2007

Galatea

Ontem, quando a noite já ia tarde, havendo comido e com sono, realizava algumas últimas alterações em um documento que havia estado esperando todo o fim de semana. Completando pequenos buracos de informação que havia recolhido anteriormente, ajustando uma ou outra citação, enfim. Foi então que me deparei com uma solicitação nova: deveria agregar, ao pé de página, uma nota sobre o efeito Pigmaleão e as profecias auto-cumpridas. Achei graça, mas, já com sono, respondi que deixaria para hoje de manhã. E foi assim que minha manhã começou com Wikipédia e um pouco de mitologia grega...

 

Pigmalión es según la mitología griega un rey de Chipre que además de ser sacerdote, era también un magnífico escultor. Su obra superaba en habilidad incluso a la de Dédalo, el célebre constructor del Laberinto. Se destacó siempre por su bondad y sabiduría a la hora de gobernar.


Durante mucho tiempo Pigmalión había buscado una esposa cuya belleza correspondiera con su idea de la mujer perfecta. Al fin decidió que no se casaría y dedicaría todo su tiempo y el amor que sentía dentro de sí a la creación de las más hermosas estatuas.

Así, realizó la estatua de una joven, a la que llamó Galatea, tan perfecta y tan hermosa que se enamoró de ella perdidamente. Soñó que la estatua cobraba vida.

Ovidiodice así sobre el mito en el libro X de Las metamorfosis: «Pigmalión se dirigió a la estatua y, al tocarla, le pareció que estaba caliente, que el marfil se ablandaba y que, deponiendo su dureza, cedía a los dedos suavemente, como la cera del monte Himeto se ablanda a los rayos del sol y se deja manejar con los dedos, tomando varias figuras y haciéndose más dócil y blanda con el manejo. Al verlo, Pigmalión se llena de un gran gozo mezclado de temor, creyendo que se engañaba. Volvió a tocar la estatua otra vez, y se cercioró de que era un cuerpo flexible y que las venas daban sus pulsaciones al explorarlas con los dedos.»

Cuando despertó en lugar de la estatua se hallaba Afrodita, que le dijo "Mereces la felicidad, una felicidad que tú mismo has plasmado. Aquí tienes a la reina que has buscado. Ámala y defiéndela del mal". De esa forma Galatea se transformó en una mujer real.

Moraleja: Mantengamos las más altas ilusiones en aquellos con quienes convivimos; si sinceramente creemos en sus posibilidades, las veremos cumplidas.

 

viernes, 2 de marzo de 2007

Eu prefiro as putas

Sabe, eu sei que pode parecer chocante, mas eu prefiro as putas. Nao, nao me refiro a estas que andam pelas ruas, que enchem as páginas de catálogos (ou books, se você prefere os eufemismos) em hotéis n-estrelas ou as colunas dos classificados (embora deva confessar que estas provavelmente tenham mais coisas que me interessam que as puritanas que habitam os círculos da cultivated society...)

Ah, uma mulher, para ser digna desse título, tem que ter algo de puta. Tem que ter um olhar, tem que poder - oops - se esbarrar em você quase sem querer, tem que deixar que você veja algo que - ai - nao deveria... Tem que provocar, que aticar... Tem que ter desejo.

Ah, uma mulher, uma mulher de verdade, tem que ter sede, vontade de morder, de apertar, de engolir... Com os olhos. Discretamente e faminta. Faminta, mas calma, meticulosa. Enquanto sorri aos olhos dos demais comentando alguma coisa insignificante sobre a comida, sobre o tempo, sobre a vida chata e comum das pessoas chatas e comuns... The perfect bitch...

Sinceramente, eu prefiro as putas, as despudoradas, as que nao têm vergonha de dizer que adoram ter prazer, que adoram seduzir, que adoram ser olhadas, desejadas, possuídas... ao mesmo tempo em que têm a mais absoluta certeza que, de qualquer maneira, sao elas que possuem...

Ah... eu prefiro as putas como eu prefiro a vida. Ou talvez deva dizer que prefiro as putas porque prefiro a vida. A vida que também te olha, com o canto dos olhos, furtivamente, prometendo-se. Apenas se... Um passo mais. Você se arrisca?

Ah, meus caros, as putas... as putas... Sao as melhores.

 

Pd: alguém aí passou pela experiência da piranha no banheiro? hahahaha. Eu recomendo. Mas essa já é outra história. Hoje o papo é um pouco mais metafísico...

jueves, 1 de marzo de 2007

De retour!

A febre, por fim, passou. Também a dor. A garganta ainda está inflamada, mas já posso comer e me sinto muito, muito melhor. Foram dias de muitas camisetas completamente encharcadas, de muita dor de cabeça, também de um pouco de tristeza e solidão. Dias de mau humor - mais que o normal. Mas, pelo menos por enquanto, dias que parecem ter ficado para trás. Destes momentos, ficarão a lembrança do carinho de pessoas que quiseram cuidar de mim (Lauras, Lili, Pedro...), a ajuda de um amigo com quem sei que sempre poderei contar (Daro), os desejos de melhora que vieram de longe (Theys, Nane, Giu, Pato...), as horas redentoras da companhia daquela com quem a conversa nunca se esgota (Agus) e umas tantas fotos resultantes das minhas horas de febre mais delirante... Algumas delas podem ser vistas no álbum ao lado. E, claro, a constante companhia do Haroldo...

Agora, de volta à rotina. Porque há muita coisa à minha espera.

 

Ps. uma das coisas é o Imposto de Renda... Alguém pode me ajudar com isso???

lunes, 26 de febrero de 2007

Angina

Queria escrever várias linhas. Queria falar do ar imóvel e quente que inunda Buenos Aires. Queria falar talvez da noite de sábado, talvez do cinema de ontem (vi The Queen... achei mais ou menos...). Queria falar do calor que emana do fogão quando preparo milanesas. Do inútil que é sair ao balcão ou colocar-se abaixo do ventilador. Queria falar dessa faringite que me incomoda desde ontem. E também do edifício velho e em reforma do Hospital da Providência, que fica a duas quadras da minha casa. Talvez falasse da doutora, pequenina, de pele olivada e que, precisando auscultar-me, corou ao pedir que eu levantasse a camisa... Também queria falar do poster maltratado de Klimt, pendurado naquela parede descascada do saguão do plantão e da inevitável lembrança da K. Queria tanto, tanto, tanto... Mas vou ficar por aqui mesmo. Porque tenho sono, o corpo dói, a febre ameaça vir e eu... eu não consigo dormir. Nem pensar.